The Bombers:  “Nosso projeto maluco de gravar um disco ao vivo de 30 anos virou um show pra TV”

Em entrevista exclusiva, Matheus Krempel detalha o novo álbum ao vivo do The Bombers, as mudanças no repertório, a turnê sul-americana e três décadas de independência no punk rock.

Por Eric Tedesco

O novo disco ao vivo dos 30 anos do The Bombers nasceu após um ano inteiro de ensaios e ganhou um alcance que surpreendeu até a própria banda. Filmado com produção de Nacho Vidal, o show foi adquirido pelo Music Box Brazil e passou a integrar a programação do canal. “Eu só fiquei embasbacado ao ver onde o nosso projeto tinha ido parar”, conta Matheus Krempel nesta entrevista exclusiva. 

O registro revisita diferentes momentos da trajetória do The Bombers. “My Way My Strength” reaparece com guitarras mais pesadas e uma homenagem a Ozzy Osbourne, enquanto integrantes da Marzela criaram arranjos de metais para músicas que originalmente não tinham sopros. A aproximação com o hip-hop da Zona Leste também está representada pelas participações dos rappers Jay Bone e Jhou Bastos. Na conversa, Krempel fala ainda sobre a integridade artística construída ao longo de três décadas, as transformações do circuito independente e a vontade de promover uma “revolução offline”. O músico também explica a articulação direta com bandas, produtores e agitadores culturais que levou o The Bombers às estradas do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

“My Way My Strength” na versão ao vivo, ganha até citação de Ozzy Osbourne. O que mudou na execução e na energia dessa música hoje, uma década após o lançamento original?

Essa música foi originalmente composta sobre um período específico na minha vida. Uma fase meio bagunçada. Com o passar dos tempos ela foi ganhando um novo significado. Eu particularmente acho isso muito doido. Como algumas letras ganham novos significados com o passar do tempo. Essa nova versão inclui uma homenagem ao Ozzy Osbourne e posso dizer que ela capta mais a urgência do tema, com guitarras mais pesadas e toda a tensão que uma gravação ao vivo proporciona.

“My Way My Strength” fala sobre usar as dificuldades como combustível e não desviar do próprio caminho. Olhando para as oscilações do mercado musical nesses 30 anos, quais foram as principais “rotas” ou tendências que o The Bombers se recusou a seguir para manter a própria identidade?

O Bombers surgiu como uma banda punk, no início daquela onda de Neo Punk dos anos 90. No entanto, a banda sempre seguiu uma ideia bem básica de não se limitar ao explorar outros gêneros musicais. Uma lição que aprendemos ouvindo bandas como Rancid e The Clash. A idéia sempre foi diferenciar uma canção da outra e tentar ao máximo não se repetir.
Dessa forma, conseguimos nos blindar de ficar correndo atrás de modismos e focamos em desenvolver uma sonoridade própria. Óbvio que teria sido lindo se tivéssemos alcançado sucesso comercial, mas por outro lado, isso nos ajudou a ser uma banda íntegra. E essa integridade se tornou a nossa maior bandeira.

Vocês incluíram sopros com integrantes da Marzela e dividiram os microfones com os rappers Jay Bone e Jhou Bastos nos palcos. Como dialogar com outras linguagens e furar a bolha do punk rock sem perder a agressividade clássica da banda?

Esse é o grande barato de fazer música. Misturar tendências, não se limitar e se permitir arriscar em busca de uma sonoridade diferente. Quando nos juntamos ao Jay Bone e o Jhou Bastos para criar “Qué Pasa?”, a idéia era homenagear a cena Hip Hop da Zona Leste, mais especificamente ali do Itaim Paulista, que sempre nos apoiaram muito. O Hip Hop por exemplo tem o seu discurso e eu acho que ele dialoga bem com o Punk. Já o lance de trazer metais ao som, principalmente nesse disco Ao Vivo, foi uma idéia que veio do Raphael e do Anderson. Eles gravaram o “Amanhã não Vai Mudar” com a gente, para o Tributo ao Blind Pigs. Com a chegada do show, convidamos eles para fazermos esse som juntos e eles disseram que gostariam de fazer mais músicas com a gente e é óbvio que a gente topou. Se parar pra pensar foi um doideira fazer isso, ainda mais com uma gravação Ao Vivo no horizonte. Porque, não foi simples. Eles acabaram criando arranjos para músicas que não tinham metais e nós experimentamos ali, no show. Mas funcionou muito bem, tanto que estamos preparando o show da tour com eles fazendo 90% do repertório com a gente.

O show de 30 anos gravado em São Paulo entrou na grade do canal Music Box Brazil. Qual é o desafio de traduzir a energia crua e independente de um show de hardcore para a dinâmica da televisão brasileira?

Isso foi uma coisa muito surreal. Nosso projeto maluco de gravar um disco ao vivo de 30 anos, virou um show pra TV e isso graças ao Nacho Vidal e a vários amigos, que literalmente nos deram as mãos e fizeram isso acontecer. Sobre o desafio… Eu não sei se em algum momento eu entendi o suficiente os desafios. As coisas simplesmente foram acontecendo. Tiramos um ano para ensaiar esse show. Ralamos muito. E então, nós fizemos esse show. Ele ficou com uma energia incrível, com músicas que em um mundo diferente, poderiam ter sido hits e o Nacho, que produziu o vídeo e acreditou nesse projeto, me perguntou se ele poderia mandar pra Music Box Brazil. Eles curtiram e adquiriram os direitos para incluir na grade de programação deles. E eu só fiquei embasbacado ao ver onde o nosso projeto tinha ido parar. Foi uma alegria enorme.

A trajetória de vocês se mistura com a lendária cena santista dos anos 90. Com a experiência acumulada, o que se perdeu daquela época e o que melhorou radicalmente na mecânica de fazer rock independente no Brasil?

Essa pergunta é complicada. Não quero parecer um velho reclamão, mas antigamente a gente era menos imediatista e o mundo não era 100% digital. As pessoas saiam de casa, faziam amizades e trocavam ideias sobre som. Ali no olho a olho. Não vivíamos em uma realidade social simulada. A gente panfletava cada show, entregando flyer para as pessoas, escutando histórias, colando cartazes nos postes com cola de farinha… Hoje em dia a dinâmica está diferente. Os artistas são reféns das redes sociais e dos algoritmos. Você divulga seu show com uma postagem e as plataformas não entregam para nem 10% da sua lista de amigos. Ai te força a pagar um post patrocinado. É complicado. Por outro lado, ficou mais fácil pra todo mundo disponibilizar sua música… Como eu disse é complicado. Eu sonho muito com uma revolução offline. O artista tem que estar na rua, tanto quanto ele está nas redes sociais fazendo dancinha pro Tik Tok.

A turnê atual tem uma forte incursão na Argentina e no Uruguai. Como é estruturar essa logística internacional de forma independente e qual é o nível de conexão do circuito hispano-americano com o punk rock autoral feito no Brasil?

Essa tour é um sonho antigo. O Brasil vive de frente pro Atlântico e de costas para a América do Sul. E eu acho isso a maior burrada. A gente precisa dialogar e fazer intercâmbios com bandas sudaca. Estruturamos isso como se fossem shows em estados distantes. Tratamos diretamente com bandas, sites e agitadores culturais locais. Tivemos uma grande ajuda do Daniel Russo da A Hora Hard, que criou uma rede de organizadores de shows que nos ajudaram a montar essa tour, principalmente na região sul do Brasil. Ninguém veio atrás da gente oferecer uma tour. Fomos nós que nos oferecemos para fazer isso. Nós buscamos esse intercâmbio. Trouxemos o El Umbral, uma banda incrível do Uruguai pra tocar aqui e eles marcaram pra nós lá. Na Argentina, tivemos a ajuda do Leandro En Solitario que também comanda a Grudda Records, do pessoal da Fastlife, da Brenda e fomos conhecendo pessoas e bandas dispostas a nos ajudar. Queremos fazer cada vez mais essa troca. Essa tour faz parte de uma idéia antiga de buscar uma conexão maior entre bandas do Brasil e da América do Sul.

Em 2021, você documentou o início da banda no livro “Não Vencer Não é Perder”. Como essa reflexão escrita sobre as vitórias e os fracassos do underground influencia a postura de vocês no palco e nas decisões de carreira hoje?

Eu costumo dizer que esse livro é um guia de como não ser um babaca na cena. Eu fui esse babaca. Fiz muita cagada. Escrever esse livro me fez ver os meus acertos e reconhecer os meus erros. Escrevi ele durante a pandemia. Você imagina? Foi um momento de muita reflexão e de autoconhecimento onde eu tentei, de forma bem humorada, contar as histórias absurdas que eu vivi com o Bombers, em mundo que acontecia longe da internet, na esperança de que isso funcione como: “Faça o que eu digo e não faça o que eu fiz”.

The Bombers

Instagram: @osbombers

Facebook: facebook.com/nossomosobombersdesantos

Spotify: open.spotify.com/artist/78URKvimyanOMHXG1MKq7k

Bandcamp: thebombers.bandcamp.com

Deezer: deezer.com/artist/1178063

X: @bombersdesantos

Crédito: Divulgação

Nos sigam e deêm um like na gente \m/
error
fb-share-icon

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *