Competência técnica e resgate histórico marcam a passagem do Men at Work por Curitiba

Liderada por um Colin Hay inspirado, banda supera o frio e contratempos com setlist generoso

Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) e Fotos por Clovis Roman (Acesso Music)

O Men at Work personifica o fenômeno do sucesso estratosférico condensado em um curto intervalo de tempo. Entre 1981 e 1986, a banda australiana não apenas lançou três álbuns e vendeu mais de 30 milhões de cópias, como também consolidou seu domínio global ao arrematar o Grammy de Artista Revelação em 1983 — superando concorrentes de peso como Asia, The Human League e Stray Cats.

Engana-se, porém, quem tenta rotulá-los sob o estigma redutor de one-hit wonders. Embora o nome do grupo possa não ressoar de imediato para as gerações mais novas, a dúvida dissipa-se nos primeiros segundos do icônico solo de flauta de “Down Under”. É o tipo de melodia que reside no inconsciente coletivo: basta o primeiro acorde para que o público, em um estalo de familiaridade, reconheça que aquela sonoridade faz parte da trilha sonora de suas vidas.

Mais de quatro décadas após a explosão mundial, a banda retorna aos palcos com uma roupagem renovada, superando um hiato que parecia definitivo. Atualmente, Colin Hay permanece como o único elo com a formação clássica dos anos 80. À frente do microfone e da guitarra, o frontman é agora acompanhado por um time de músicos versáteis: Jimmy Branly (bateria), San Miguel Perez (guitarra e backing vocals), Yosmel Montejo (baixo e backing vocals) e a multi-instrumentista Rachel Mazer, responsável pelos icônicos arranjos de saxofone, flauta e teclados.

O toque de cumplicidade no palco é completado por Cecilia Noël (backing vocals e percussão), esposa de Hay, que traz uma energia vibrante às apresentações. Juntos, eles equilibram a fidelidade aos arranjos originais com o frescor de uma banda que, longe de viver apenas de nostalgia, segue entregando performances tecnicamente impecáveis.

O Contraste entre o Frio e a Euforia

Em nova passagem pelo Brasil — apenas dois anos após sua última visita —, o grupo desembarcou em Curitiba no dia 12 para uma apresentação no Igloo Super Hall. O cenário inicial foi desafiador: uma noite tipicamente gelada e uma logística de entrada que concentrou o grande público em um único intervalo, resultando em um atraso de 20 minutos. A demora chegou a testar o humor dos presentes, provocando vaias e um visível clima de inconformação na plateia.

Entretanto, a tensão dissipou-se de forma instantânea. Bastaram os primeiros acordes de “Touching the Untouchables” e uma saudação certeira de Hay com um carinhoso “e aí piazada!” para que o gelo — tanto o climático quanto o da recepção — fosse quebrado. Em um estalo, a insatisfação deu lugar à euforia, provando que o carisma de Colin Hay, aliado a um esforço genuíno de comunicação, ainda é um antídoto eficaz contra qualquer contratempo.

A “Alma da Festa” e o Equilíbrio das Carreiras

No palco, a entrega é marcada por uma competência técnica irretocável; erros de execução são virtualmente inexistentes, mesmo para os ouvidos mais atentos. Embora Colin seja o ponto focal magnético, é sua esposa, Cecilia Noël, quem frequentemente rouba a cena. Atuando como a verdadeira “alma da festa”, Cecilia é uma presença onipresente: movimenta-se constantemente, alterna-se entre a harmônica e a pandeirola, dança e cativa a plateia ao arriscar interações em um português fluído. Em alguns momentos, arrisca gritos à la Yoko Ono. No mínimo divertido.

O roteiro da noite apresentou uma estrutura curiosa. Das 22 canções executadas, cinco pertencem à carreira solo de Hay, trazendo uma sonoridade que destoa — de forma positiva — do estilo clássico do Men at Work. Entre os momentos de destaque, “Broken Love” (a terceira da noite) preparou o terreno para novos cumprimentos em português. Na sequência, em “Come Tumblin’ Down”, o frontman assumiu o papel de regente, “ensinando” o refrão ao público, que correspondeu com uma participação em coro.

Nostalgia e o Gran Finale

Os grandes hinos da banda foram estrategicamente distribuídos ao longo da apresentação. Um dos pontos altos foi a vibrante “Everything I Need””, música que carrega uma memória afetiva particular para os brasileiros por ter integrado a trilha sonora da novela “A Gata Comeu”, em 1985.

A reta final reservou uma sequência de tirar o fôlego. “Overkill”, com sua lírica densa sobre a insônia e o peso dos pensamentos intrusivos, paradoxalmente iluminou o local com um mar de celulares e um coro uníssono. Na sequência, a crítica social de “It’s a Mistake” — que narra a perspectiva de um tenente em meio à Guerra Fria — ressoou com uma atualidade surpreendente. O fôlego foi mantido com “Who Can It Be Now?”, momento em que os holofotes se voltaram para a talentosa Rachel Mazer, que entregou um solo de saxofone tecnicamente impecável.

Após a apresentação da banda, o palco abriu espaço para o hino absoluto: “Down Under”. A performance teve contornos festivos, com direito a batidas de samba e um “parabéns” para o baixista Yosmel, aniversariante da noite. Contudo, por trás da vibração solar da canção que homenageia as raízes australianas, reside um histórico melancólico.

Conforme apurado pelo portal G1, a melodia do icônico solo de flauta foi alvo de uma disputa judicial que culminou em uma condenação por plágio em 2010. A justiça australiana determinou que o trecho fora extraído de uma canção folclórica infantil de 1934, intitulada “Kookaburra Sits in the Old Gum Tree”. O imbróglio jurídico marcou profundamente a história do grupo, especialmente o saudoso flautista Greg Ham, que faleceu dois anos após o veredito, confessando o desgosto de ter sua identidade artística ligada ao episódio.

Para selar a noite e espantar qualquer sombra de nostalgia triste, o grupo escolheu a enérgica “Be Good Johnny” para encerrar o set. Foi o ponto final perfeito: um lembrete rebelde de que, no fim das contas, o rock australiano do Men at Work permanece jovem, inquieto e absurdamente vivo.

Apesar da extensão do setlist, o show passa longe de ser maçante. A sucessão de faixas é orgânica e a reta final, reservada aos maiores sucessos mundiais, garante um clímax absoluto. Ao término, fica a nítida sensação de que o tempo voou: um testemunho da qualidade do espetáculo e do fôlego de um artista que, mesmo décadas depois, ainda sabe como conduzir uma multidão.

Setlist Men at Work – Curitiba 12/05/2026

1 – Touching the Untouchables

2 – No Restrictions

3 – Broken Love (música de Colin Hay)

4 – Come Tumblin’ Down (música de Colin Hay)

5 – Can’t Take This Town (música de Colin Hay)

6 – Down by the Sea

7 – Into My Life (música de Colin Hay)

8 – I Can See It in Your Eyes

9 – Looking for Jack (música de Colin Hay)

10 – Blue for You

11 – Everything I Need

12 – Catch a Star

13 – No Sign of Yesterday

14 – The Longest Night

15 – Helpless Automaton

16 – Dr. Heckyll & Mr. Jive

17 – Undergound

18 – Overkill

19 – It’s a Mistake

20 – Who Can It Be Now?

21 – Down Under

22 – Be Good Johnny

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