Norte-americanos entregam pouco mais de três horas que se dissiparam num piscar de olhos em um espetáculo musical e visual de primeiríssima linha
Texto por Vagner Mastropaulo e Fotos por Gustavo Diakov (@xchicanox)
São Paulo recebeu a quarta data da turnê de divulgação de “Parasomnia” (2025) menos de dezoito meses após o Dream Theater ter se apresentado no mesmo Vibra São Paulo em meio à “40th Anniversary Tour”, giro que marcou o retorno do baterista Mike Portnoy ao conjunto após afastamento por longuíssimos treze anos. E mantendo o padrão de setlists do giro latino-americano, a cidade acabou ficando com o mesmo repertório mostrado nas capitais do Rio Grande do Sul e do Paraná, diferentemente de algumas escolhas alternativas, tanto de ordem quanto de músicas mesmo, incluídas em Brasília.
Se você jamais assistiu à banda ao vivo, precisa saber que, como em todo show, haverá momentos do mais puro e lindo descontrole emocional, com gente chorando copiosamente, gritando, pulando, fazendo air guitar e air drumming e/ou contribuindo com coros e palmas, mas, acima de tudo, é um espetáculo a ser contemplado. Com o Dream Theater não há bem como ter meio-termo: ou você os idolatra e demonstra apoio incondicional ou os ignora sumariamente por falta de identificação com tantas demonstrações de destreza em composições longas demais para os padrões comerciais.
E por falta de uma, duas intros foram disparadas no sistema de som: “Main Title (The Shining)” e “Prelude”, respectivamente integrantes das trilhas sonoras de “The Shining” (1980) e “Psycho” (1960), e preparando terreno para a execução do citado “Parasomnia” na íntegra. Por se tratar de um disco recente, ainda é necessário que o tempo jogue a seu favor para que ele entre no panteão dos preferidos dos fãs e, se por um lado, não exatamente a galera parecia conhecer todas suas letras, por outro, a hipnose coletiva já pôde ser conferida a partir da instrumental “In the Arms of Morpheus”.
Até por ter sido o primeiro single lançado, “Night Terror” foi o carro-chefe também na cantoria do primeiro dos três atos da noite e dá para cravar que a experiência de conferir o play todo ao vivo é bem mais interessante do que fazê-lo no conforto do lar. Por exemplo, “A Broken Man” tem um início do tipo “voadora no lustre” capaz de deixar boquiaberto qualquer tiozão true metal resistente à musicalidade de complexa digestão do conjunto. E quando você menos esperava, já estava envolvido com os raios de luzes projetados para cima, especialmente os feixes horizontais produzindo efeito bem mais aproveitado por quem se acomodou nos fundos da casa em reação a quem ficou à frente do palco.
“Are We Dreaming?” foi comovente com apenas o tecladista Jordan Rudess a puxá-la até Portnoy e o vocalista James LaBrie pedirem ajuda da galera com as lanternas dos celulares ligadas em “Bend the Clock”. E se você perdeu algum detalhe em “The Shadow Man Incident”, vale a pena procurar sua execução em algum link do YouTube para verificar em qual momento o boneco posicionado à esquerda do guitarrista John Petrucci foi inflado. Afinal de contas, tudo aconteceu tão subitamente que teria sido normal você mal se dar conta de seu enchimento, dando a impressão de que ele por ali estivesse desde o início do show…
Pausa em torno de vinte minutos e, como intro do segundo ato, o regresso veio com “False Awakening Suite”, animação contendo as capas de todos os álbuns até “Dream Theater” (2013), de onde extraíram “The Enemy Inside”, exatamente sua sucessora no full-length. “A Rite of Passage” fez todos retrocederem dois plays, pousando em “Black Clouds & Silver Linings” (2009). Ambas soaram ótimas, porém não havia como competirem com qualquer coisa retirada de “Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory” (1999), de onde resgataram as perfeitas “Through My Words” e “Fatal Tragedy”.
Concluindo o “bloco catadão”, a reincorporação de “The Dark Eternal Night” possibilitou também a volta da divertida animação do clipe no telão de fundo. Afinal de contas, não havia muito sentido em se utilizarem dela nos tempos de Mike Mangini no grupo com o bonequinho de Portnoy tão participativo na arte. De “Falling Into Infinity” (1997), uma versão encorpada de “Peruvian Skies” trouxe trechos de “Wish You Were Here”, do Pink Floyd, e “Wherever I May Roam”, do Metallica (em Brasília, houve nela até um pedacinho de “Burn”, do Deep Puple). E encerrando a parte do meio do set e representando o seminal “Images and Words” (1992), “Take the Time” acabou sendo a mais antiga tocada.
Encore para alguns e Ato III para outros, caso deste escriba, um excerto de “Dead Poets Society” (1989), clássico estrelado pelo saudoso Robin Williams, foi a senha para a maravilhosa “A Change of Seasons” ser finalmente tocada por inteiro por aqui. Desde a estréia do quinteto no país no Clube Atlético Aramaçan (e “roubando” Santo André como parte da Grande São Paulo), já haviam sido mais onze shows pela capital do estado e ela nunca havia sido incluída integralmente em data alguma.
Diferentemente de “A Mind Behind Itself”, encontrada em “Awake” (1994), em que os fãs claramente dissociam “Erotomania” de “Voices” e de “The Silent Man”, a faixa do EP homônimo de 1995 é vista como um todo e dá trabalho pensar em onde termina ou começa cada uma de suas sete partes. Sabidamente, entre outros incidentes pessoais, com letra escrita por Portnoy sobre a perda de sua mãe num acidente aéreo e traçando um paralelo entre as estações do ano com as fases da vida, a faixa certamente era a mais aguardada da noite para imensa maioria dos presentes. E a espera para ouvi-la valeu a pena!
“Catarse” seria a melhor palavra para descrever o que acontecia quando este repórter quebrou o encanto a que ele próprio se submetia e brevemente arriscou olhar em volta… As reações variavam da total incredulidade a marmanjões e marmanjonas incapazes de conter o choro, fosse por identificação lírica ou musical, até que enfim tendo a chance de sentir ao vivo o poderio de uma composição que os acompanhava havia além de três décadas. Não existiria modo mais emocionante de empacotar as sensações de uma noite que superou três horas de duração, incluindo intros, “outros” e o intervalo.
Encerrando a passagem pelo Brasil, o quinteto ainda toca no Vivo Rio (domingo, 10/05) e no BeFly Hall (terça, 12/05) e como Rio de Janeiro e Belo Horizonte estiveram na turnê de um ano e meio atrás, espera-se a manutenção do material mostrado em solo paulistano, indiretamente fazendo com que a capital federal permaneça sendo a única com setlist “alternativo”, por assim dizer. Agora é esperar para ver se a lógica será mantida.
Setlist
Intro 1: Main Title (The Shining) [Wendy Carlos & Rachel Elkind]
Intro 2: Prelude [Bernard Hermman]
Ato I – Parasomnia
01) In the Arms of Morpheus
02) Night Terror
03) A Broken Man
04) Dead Asleep
05) Midnight Messiah
06) Are We Dreaming?
07) Bend the Clock
08) The Shadow Man Incident
Ato II
Intro: False Awakening Suite
09) The Enemy Inside
10) A Rite of Passage
11) Act I: Scene Three: I. Through My Words
12) Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy
13) The Dark Eternal Night
14) Peruvian Skies [trechos de “Wish You Were Here” (Pink Floyd) e “Wherever I May Roam” (Metallica)]
15) Take the Time
Ato III – A Change of Seasons
Video: Dead Poets Society
16) A Change of Seasons: I The Crimson Sunrise
17) A Change of Seasons: II Innocence
18) A Change of Seasons: III Carpe Diem
19) A Change of Seasons: IV The Darkest of Winters
20) A Change of Seasons: V Another World
21) A Change of Seasons: VI The Inevitable Summer
22) A Change of Seasons: VII The Crimson Sunset [trecho de “A Fortune In Lies”]
Outro 1: Singin’ in the Rain [Gene Kelly]
Outro 2: Dance of the Dream Man [Angelo Badalamenti]
















