Stick to Your Guns e Bane promovem encontro de gerações do hardcore em noite poderosa no Hangar 110

Fotos por Raíssa Corrêa (@showww360)

Na noite do último sábado (03), o Hangar 110, em São Paulo, foi palco de um encontro que atravessou gerações do hardcore. De um lado, a força emergente do Utarra abrindo os trabalhos; no meio, a energia consolidada do Stick to Your Guns; e, fechando a noite, a aura quase espiritual do Bane, banda que há anos transcende o status de grupo para se tornar símbolo dentro da cena.

Não foi apenas uma sequência de shows, foi um retrato vivo de diferentes fases do hardcore coexistindo no mesmo espaço, com intensidade, discurso e, acima de tudo, conexão.

Uttara: peso direto e sem rodeios na abertura

Responsável por iniciar a noite e uma casa ainda enchendo, o Uttara entrou em cena sem cerimônia e com foco total na execução. O set foi curto, mas carregado de agressividade e precisão, funcionando como um aquecimento honesto, aqueles que já colocam o público no clima certo.

“What is Done is Done” abriu com urgência, preparando o terreno para “Look at Me Now”, que trouxe as primeiras rodas mais tímidas, mas já sinalizando o que viria pela frente. “Our Strength” reforçou a identidade da banda, com riffs diretos e andamento firme.

“Ad Hominem” e “Words to World” deram sequência mantendo a tensão em alta, enquanto “Poisoning” intensificou o peso, com respostas mais energéticas do público. O encerramento com o medley “Give Me / Push / Step / Crush” foi uma pancada contínua, sem pausas, sem respiro, deixando claro que o objetivo ali era simples: preparar o terreno para o caos que viria. Quem disse que em Goiás só existe sertanejo, não conhece a força do Uttara.

Stick to Your Guns: urgência e discurso

Quando o Stick to Your Guns subiu ao palco, o ambiente já estava completamente tomado. O que se viu foi uma banda que, mesmo não sendo da “velha guarda”, carrega um senso de propósito raro, e isso transparece em cada música.

“Diamond” abriu o set com impacto imediato, seguida por “Nobody”, que já trouxe uma participação forte e ativa do público. “Such Pain” elevou o nível de intensidade, com um mosh mais agressivo tomando forma.

“What Goes Around” e “Invisible Rain” mantiveram o ritmo alto, consolidando o domínio da banda sobre a noite. E foi justamente após “Invisible Rain” que o vocalista Jesse Barnett fez uma das falas mais impactantes de toda a apresentação, um discurso político, direto e carregado de consciência sobre o contexto latino-americano:


“Eu quero aqui agradecer por convidar nossa banda aqui no Brasil, aqui para a América Latina, porque pra mim como americano, isso significa muito. Porque tenho um verdadeiro entendimento do que nosso país faz na América Latina. Então, para ser convidado aqui, depois que nosso país não faz além de pegar e pegar e pegar, e não dar nada em troca… é por isso que eu apoio o MST. É por isso que apoio movimentos globais de auto-resistência. Eles podem não ser perfeitos, mas meu critério não é perfeição, porque nós também não somos perfeitos. Mas quando nos reunimos, somos fortes, e é isso que esses filhos da puta mais temem. Então vamos parar de derrubar uns aos outros e começar a nos ver como irmãos e irmãs. Essa música se chama ‘What Choice Did You Give Us?’”

A fala não apenas incendiou o público, como deu ainda mais peso à execução de “What Choice Did You Give Us?”, que veio logo na sequência com um nível de entrega ainda mais visceral, transformando a música em um verdadeiro ato de resistência.

Com “We Still Believe”, o clima ganhou contornos mais emocionais, revelando aquela sensação de união que só o hardcore é capaz de criar, um contraste marcante antes da sequência mais pesada com “Severed Forever”. “Empty Heads” surgiu como um dos ápices de resposta do público, com o público cantando alto e ocupando cada centímetro do espaço.

No Hangar 110, a energia se traduzia em uma verdadeira tempestade de stage dives a cada faixa. Era preciso atenção constante para não ser atingido. A plateia se movia como se estivesse em uma zona de guerra, numa tentativa caótica de se manter de pé, mas, ao contrário de um conflito real, ali não se fugia de balas, e sim de socos perdidos ou de alguém sendo lançado por cima da multidão.

Foi justamente após “Empty Heads” que o show viveu seu momento mais delicado.

A banda iniciou “Married to the Noise”, mas poucos segundos depois interrompeu a execução: um fã se machucou ao realizar um stage dive. Na sequência, uma outra fã acabou caindo por cima dele, agravando a situação. O clima mudou instantaneamente, luzes voltadas para a plateia, preocupação evidente e pausa total.

O fã foi rapidamente socorrido, e a banda aguardou até que a situação estivesse sob controle. Quando retomaram, optaram por seguir o set, mas “Married to the Noise” foi descartada, assim como “Keep Planting Flowers”, que acabou cortada por conta do ocorrido.

Mesmo com a tensão no ar, o grupo retomou com profissionalismo e sensibilidade e palmas pelo fã ter sido socorrido e não nada de mais grave tenha acontecido.

“Nothing You Can Do to Me” marcou esse retorno, seguido por “More Than a Witness”, que trouxe de volta o coro coletivo. “Spineless” e a emocional “Amber” mantiveram o peso e a entrega, preparando o terreno para o encerramento.

Uma pedrada do primeiro álbum de 2005, “This Is More” , foi o caos, um verdadeiro manifesto sendo gritado por todos. E, fechando com maravilhosa e minha favorita “Against Them All”, o Stick to Your Guns reafirmou sua posição: uma banda que não depende de tempo de estrada para ser relevante, mas da urgência do que comunica.

Bane: quando o hardcore deixa de ser show e vira experiência

Se o Stick to Your Guns entregou intensidade e discurso, o Bane elevou tudo a outro nível.

Desde os primeiros acordes de “Non-Negotiable”, ficou claro que não se tratava apenas de uma apresentação. O público não estava ali para assistir, estava ali para viver junto.

“Can We Start Again” trouxe um dos primeiros grandes coros da noite, seguido por “Ante Up”, que manteve a energia em alta. “Superhero” e “All the Way Through” reforçaram o sentimento de comunidade, com microfone constantemente dividido com a plateia. A banda claramente feliz e confortável no palco, era lindo de se ver.

“Swan Song” e “Calling Hours” aprofundaram o lado emocional do set, enquanto “Some Came Running” manteve o equilíbrio entre peso e melodia. “My Therapy” foi outro momento de forte identificação coletiva, com entrega total do público.

Na reta final, “Count Me Out” funcionou como um grito de resistência, preparando o terreno para “Final Backward Glance”, que encerrou a noite de forma quase purificadora.

O Bane não soa como uma banda que envelheceu, soa como algo que evoluiu para além disso. Existe um senso de pertencimento em cada música que não se ensina, não se fabrica. Apenas se vive.

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