A apresentação, encarada pelo público como um sonho quase inimaginável, reuniu no mesmo palco os ex-integrantes Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester.
Fotos por Gabriel Gonçalves (@dgfotografia.show)
Para descrever o espetáculo que foi a apresentação do Angra no Espaço Unimed, na última quarta-feira (29), preciso começar este texto com uma palavra-chave: completo.
Do latim completus, “completo” significa, segundo o dicionário Porto Editora:
- aquilo a que não falta nenhum elemento; integral;
- o que não tem lacunas; inteiro; total;
- o que foi inteiramente realizado ou concluído; terminado;
- o que foi cumprido; satisfeito;
- o que está cheio; plenamente preenchido.
E é exatamente esse o sentimento que define a noite do Angra Reunion, visível tanto no rosto do público quanto no de todos os músicos que subiram ao palco, desde ex a atuais integrantes. Tudo ali pareceu absoluto, completo. Até mesmo as pequenas falhas percebidas no início e ao longo do show se tornaram irrelevantes diante da grandiosidade do que a banda entregou naquela noite.
Como tudo que envolve o Angra costuma gerar questionamentos e repercussão, não foi diferente desta vez. Após anunciar um hiato que durou menos de um ano, a banda, liderada por Rafael Bittencourt, também comunicou a saída de Fabio Lione. O desligamento do vocalista encerra uma trajetória de quase 13 anos e abre espaço para um novo capítulo, com Alírio Netto assumindo os vocais.
A despedida de Lione, que aconteceu dias antes no Bangers Open Air, marcou também a transição para Netto. Mas foi neste sideshow que o novo frontman pode, de fato, assumir plenamente o seu lugar à frente da banda.
E foi pontualmente às 21h, com o telão exibindo imagens que revisitavam toda a trajetória do Angra, atravessando suas diferentes formações e fases, sob papel picado e fumaça, que Marcelo Barbosa (guitarra), Bruno Valverde (bateria), Rafael Bittencourt (guitarra e voz) e Felipe Andreoli (baixo) deram início à introdução de “Nothing to Say”.
Alírio surgiu no palco com uma falha em seu microfone, mas nada que comprometesse a apresentação. O público, já em coro, cantou ainda mais alto e sustentou os vocais até que tudo fosse normalizado. As duas guitarras em harmonia, a bateria em seu estado mais puro de power metal e a energia contagiante já entregavam um vislumbre do que viria pela frente: três horas de apresentação intensa.
Na sequência, repetindo a abertura apresentada no Bangers, “Angels Cry” chega de forma arrebatadora. A banda mal inicia a introdução e o público já canta o refrão de uma das faixas mais emblemáticas do álbum homônimo gravado em 1993.
Até aqui, o repertório aponta diretamente para a era de André Matos e o nome de Alírio sempre esteve entre os mais cogitados para assumir os vocais do Angra justamente pela semelhança com o Maestro. E não é cedo para afirmar: a escolha se mostra extremamente acertada. No fundo, ninguém duvidava — mas ver acontecer torna tudo mais concreto, palpável.
Com destaque para o baixo de Felipe Andreoli, “Tide of Changes” que é dividida em dois atos, começa de forma mais contida. A faixa integra o trabalho mais recente da banda, Cycles Of Pain (2023) ainda com Fabio Lione nos vocais, e figura entre os grandes destaques do álbum. O que surpreende, já no segundo ato, é como ela ganha nova vida na voz de Alírio. Tecnicamente, há diferenças claras entre os dois cantores, sobretudo na abordagem do tenor, Lione mais próximo do lírico, enquanto Alírio segue por um caminho mais híbrido. Mas sem recorrer a imitações, entrega uma interpretação própria e segura, deixando nada a desejar.
“Lisbon”, do Fireworks (1998), último álbum com André Matos, foi uma das canções que mais inflamou o público já nos primeiros acordes. Foi mais um momento para Alírio evidenciar a solidez de sua performance e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para o público se entregar por completo à nostalgia.
Na sequência, “Vida Seca” que, em estúdio, contou com a participação de Lenine, preparou o terreno para um dos pontos mais marcantes da noite. Com uma dedicatória a André Matos, Alírio interpretou o famoso cover de Kate Bush, “Wuthering Heights” e foi ovacionado pela plateia que chamou pelo seu nome.
Com mais de dez minutos de duração, e ainda assim longe de soar cansativa, “Carolina IV”, assim como “Nothing to Say”, integra o Holy Land (1996) e revela com clareza a narrativa altamente técnica proposta pelo Angra nesse álbum. A canção se desdobra em seções bem definidas: passagens rápidas, trechos acústicos e momentos que flertam com o progressivo, além de uma constante variação de ritmos.
Próximo de completar uma hora de apresentação, Bruno Valverde ganha os holofotes em um solo de bateria que evidencia sua técnica e precisão. Ovacionado pelo público, que entoa seu nome, ele encerra o momento sob aplausos, seguido pela reverência comentada de Rafael: “Nosso menino de ouro: Bruno Valverde”.
Para fechar este primeiro ato, “Waiting Silence”, do Temple of Shadows (2004), chega como mais um presente. Não é exagero dizer que, se o show terminasse nesse ponto, muitos deixariam o local plenamente satisfeitos, com a impressão de terem assistido a um espetáculo à altura da história da banda, embora ainda houvesse muito mais por vir.
A VELHA ‘NOVA ERA’… NO AGORA
Para muitos dos fãs presentes, foi através de Rebirth (2001) que o Angra se revelou pela primeira vez. Por isso, o álbum vai além de representar uma nova era apenas na trajetória da banda: ele também simboliza o momento em que uma nova geração de ouvintes passou a fazer parte dessa história.
Havia muita expectativa para esse momento. Primeiro, porque até pouco tempo atrás ele sequer era cogitado. Depois, pela possibilidade de ouvir um álbum tão marcante executado quase em sua totalidade e reunindo a formação original.
E foi clamando pelo nome de cada integrante da velha ‘Nova Era’ que, então, no agora o público estava em completo êxtase. Alguém provavelmente deve ter se perguntado enquanto ‘In Excelsis’ tocava ao fundo e os quatro integrantes apareciam reunidos em pose de super-herói: “Isso realmente está acontecendo?” E, sim, estava.
Além de Rafael e Andreoli, Kiko Loureiro (guitarra), Aquiles Priester (bateria) e Edu Falaschi (vocal) chegam para dar início ao momento mais aguardado da noite: a execução de Rebirth.
Como explicar essa trinca? “Nova Era”, “Millennium Sun” e “Acid Rain”. Não há argumento técnico que diminua a força desse momento. Entrar em pormenores, ainda que muitas vezes necessário, limita um pouco a análise a uma ideia rígida de perfeição.
E, honestamente, por mais exigente que seja o fã do Angra e por mais que se percebam pequenos ajustes aqui e ali, o fato de assistir a essas músicas ao vivo, com músicos diretamente ligados a essa fase, 25 anos depois do lançamento, já sustenta o peso desse trecho do show. É um tipo de experiência que parece funcionar menos pela execução isolada de cada detalhe e mais pelo conjunto do que é apresentado.
Mas, claro, que há também o momento individual de cada músico, algo evidente no palco. O Kiko impressiona pelo domínio de espaço, com uma presença segura, lapidada ao longo dos anos. Aquiles é um evento à parte, com a bateria pulsando a cada virada. Já o Edu se mostra bastante confortável dentro de sua proposta, confiante naquilo que pode entregar. E entrega. Essa segurança transparece nos detalhes e é percebida pelo público, fazendo diferença em um show dessa dimensão.
Antes de “Heroes of Sand”, uma belíssima balada desse álbum, Edu puxa uma breve interação com o público, fala da importância daquele encontro e pergunta quantos ali já tinham visto aquela formação em outro momento. A resposta, em sua maioria negativa, chega a surpreendê-lo.
E isso conversa diretamente com o que eu comentei acima: muitos fãs chegaram ao Angra a partir de Rebirth. Boa parte deles sequer tinha idade ou estrutura para frequentar shows naquela época. Então, de novo, viver esse encontro da “velha nova era” no agora não é só um resgate, é também um marco para quem só pode acessar essa fase anos depois.
“Unholy Wars” e “Rebirth” fecham, até aqui, as quase duas horas de apresentação como os momentos mais aquecidos deste bloco. Na sequência, Aquiles assume um solo de bateria mais longo do que o de Bruno. Prendeu a atenção de alguns fãs, mas é inevitável dizer que, para outros, foi o momento de recuperar o fôlego.
Para fechar de vez este segundo ato, a sequência traz “Judgement Day” e “Running Alone” como encerramento da execução de Rebirth, além de “Bleeding Heart”, faixa bônus da edição japonesa. Já virou quase um ritual o momento em que Edu comenta sobre os fãs cantarem em português a versão “Agora Estou Sofrendo”, do Calcinha Preta. A impressão é de que ele já entra na brincadeira, como se desse o aval, até porque o público, de um jeito ou de outro, vai cantar de qualquer forma.
O Aurora Consurgens (2006) não ficou de fora e foi representado por “Ego Painted Grey”. Na sequência, “Spread Your Fire”, do Temple of Shadows (2004), veio emendada, acompanhada por um pedido de “Saint Seiya” que não foi atendido. Ao final, o quarteto se reúne à frente do palco para cumprimentar e reverenciar os fãs. Naquele momento, até que se diga o contrário, aquele era mais uma vez o fim de uma Nova Era. E que fim, mas não parou por aí.
O ENCONTRO DAS FASES
Depois de deixarem o palco, não demorou nem cinco minutos para que Rafael retornasse para um dos momentos mais intimistas da noite: “Reaching Horizons”, em voz e violão, é uma canção que o Rafa sempre faz questão de destacar com muito carinho, por ser considerada a primeira música do Angra, aquela que deu título à primeira demo. E que carrega uma essência e um significado muito fortes de seguir buscando e alcançando sempre mais.
“Silence and Distance”, por sua vez, vem quase como um tiro de canhão no peito. É uma das músicas mais bonitas do Holy Land (1996) e uma das mais completas da Obra do Angra. Não precisa de nenhum apelo emocional, por si só, já é uma canção extremamente sensível. Mas antes do retorno da banda ao palco, o telão exibe imagens de um show de 1997, em Tóquio, no Japão, com André no piano.
É nesse momento que todos, com exceção de Aquiles, retornam ao palco, e Edu divide os vocais com Alírio, que volta agora vestindo uma camisa do Angra. A leitura que fica é de que Alírio também está vivendo um grande sonho, o de integrar uma banda da qual sempre foi, antes de tudo, muito fã. E isso diz bastante sobre o que se vê em cena.
Se antes Aquiles não havia retornado, em “Late Redemption” é Bruno Valverde quem deixa o palco para que o baterista veterano assuma esse momento. E que momento. Rafael conduz as partes em português originalmente gravadas por Milton Nascimento em Temple of Shadows e ao concluir, mais uma vez, a banda agradece e deixa o palco, enquanto o público segue pedindo por mais.
A essa altura, já são quase três horas de show e, se eu puder dizer, então terei dito: o que São Paulo viu nesta Quarta-Feira, de casa lotada, foi a manifestação de um dos melhores momentos da banda. O público completamente entregue e, veja só, a banda também. Se alguém que esteve presente no Espaço Unimed precisou acordar cedo no dia seguinte, durante o show, isso não pareceu problema. O público queria cada vez mais, o tempo todo. E veio.
“Carry On” chega, definitivamente, para consolidar essa noite como um verdadeiro espetáculo. Aqui, um destaque para Bruno e Aquiles, que coexistiram de forma simultânea em suas baterias de um jeito que até parece simples, mas sabemos que não é. Edu e Alírio também não deixaram nada a desejar, formando uma excelente dupla em uma das canções mais absolutas da história da banda. Marcelo, Kiko e Rafael e suas guitarras, pareciam quase em um passeio no parque. E Felipe não estava sozinho de forma alguma, ele tinha o público. “Visions Prelude”, última faixa do Rebirth, ficou responsável por encerrar a noite.
E, no fim, independente de quais sejam os planos do futuro para realizar (ou não) mais vezes esses encontros, isso tudo volta àquela definição do começo: o de ser completo.
Não necessariamente pelo repertório que atravessou fases, formações e álbuns e nem só pela entrega técnica ou pela duração do show. Completo porque não faltou elemento algum, não houve lacuna, não ficou sensação de algo pela metade. Foi verdadeiramente inteiro, realizado e cumprido. Um encontro que se preencheu em si mesmo, entre passado e presente, e que, ao terminar, não deixou espaço para dúvida: o que se viu ali foi, de fato, um Angra absoluto e satisfeito.
Angra – Espaço Unimed – 29/04/2026
ATO I
- Nothing to Say
- Angels Cry
- Tide of Changes
- Lisbon
- Vida Seca
- Wuthering Heights (Kate Bush cover – dedicada a Andre Matos)
- Carolina IV
- Solo de bateria (Bruno Valverde)
- Make Believe
- Waiting Silence
ATO II
- In Excelsis
- Nova Era
- Millennium Sun
- Acid Rain
- Heroes of Sand
- Unholy Wars
- Rebirth
- Solo de bateria (Aquiles Priester)
- Judgement Day
- Running Alone
- Bleeding Heart
- Ego Painted Grey
- Spread Your Fire
ATO III
- Reaching Horizons (Acústico Rafael Bittencourt)
- Silence and Distance
- Late Redemption
- Unfinished Allegro
- Carry On























