Entre a urgência dos novos temas e a nostalgia dos clássicos, Within Temptation reafirma sua versatilidade e potência sonora em solo brasileiro

Fotos por Gui Urban (@guiurban) e Marcos Hermes – MHermes Arts

A última passagem do Within Temptation pelo Brasil ocorreu no mesmo Memorial da América Latina, na edição de 2024 do festival Summer Breeze. Naquela ocasião, como headliners, encerraram o Hot Stage com um set robusto de 19 canções. De volta ao agora rebatizado Bangers Open Air, a banda ocupou o posto de penúltima atração do Ice Stage, antecedendo o Angra. Com um setlist reduzido em quatro faixas comparado à visita anterior e um hiato de palcos que vinha desde agosto de 2025, o repertório era uma incógnita, mas trazia a promessa da vocalista Sharon den Adel: uma mescla de eras para satisfazer tanto os entusiastas do passado sinfônico quanto os novos fãs.


Diante de uma multidão aglomerada especificamente para o grupo holandês, a banda iniciou pontualmente com a beligerante “We Go to War”. Sharon surgiu em cena ostentando a máscara espinhada de “Bleed Out” (2023), ocultando o olhar e reforçando o tom solene do disco. O álbum, que se debruça sobre temas densos como opressão e direitos humanos, foi o grande fio condutor da noite.
Logo na quarta posição do set, a faixa-título “Bleed Out” entregou uma sonoridade visceral, fundindo o peso moderno à urgência lírica. Na sequência, a sedutora “Ritual” trouxe um contraste melódico necessário antes de o show atingir sua metade com a robusta “Wireless”, nona música da noite, marcada por uma atmosfera futurista e opressiva. Já na reta final, ocupando o 13º lugar no roteiro, a contundente “Don’t Pray for Me” exibiu Sharon em sua melhor forma, reafirmando o caráter épico e contestador desta nova fase.


Entretanto, o setlist reservou surpresas que pegaram os veteranos de surpresa. Logo na segunda posição, a mística “The Howling” (“The Heart of Everything”, 2007) fez seu retorno triunfal após uma década fora do radar, tendo sido executada pela última vez em 2016. Aliada às mensagens políticas de “Bleed Out”, a faixa pareceu reforçar o fio condutor de resistência que a banda busca transmitir atualmente.


Outro resgate histórico foi a própria faixa-título “The Heart of Everything”, ausente dos palcos desde 2019. A música, que carrega uma mensagem de resiliência e autoconhecimento, foi precedida por uma provocação de Sharon: “Vocês pediam por esta há algum tempo, não é?”. O desejo do público foi atendido com uma performance imponente, que reafirmou a atmosfera reflexiva e intensa característica do grupo.


Para selar o pacote de raridades, o público foi impactado pela apocalíptica “Forsaken”. Sem ser tocada ao vivo desde 2008, a canção tornou-se um dos pontos altos da noite, entregando um peso dramático que parecia guardado a sete chaves pela banda há quase duas décadas.


Clássicos indispensáveis também marcaram presença, como a eletrizante “Faster” e a majestosa “Paradise (What About Us?)”. Esta última, em especial, proporcionou um verdadeiro presente aos entusiastas do metal sinfônico: embora Tarja Turunen não estivesse fisicamente no palco, sua participação virtual através do telão permitiu que o dueto icônico ganhasse vida, mantendo a grandiosidade da versão de estúdio.


No suporte a esse espetáculo, o instrumental formado pelos guitarristas Ruud Jolie e Stefan Helleblad, o baixista Jeroen van Veen, o baterista Mike Coolen e o “tecelão sonoro” Vikram Shankar nos teclados, operam com uma precisão cirúrgica. Ainda que a performance seja meticulosamente desenhada para orbitar Sharon Den Adel, a figura central e magnética do palco, o entrosamento do grupo é o que sustenta a complexidade das canções. Tudo é emoldurado por um jogo de luzes que transmuta conforme a atmosfera de cada faixa, guiando o espectador por uma jornada introspectiva, envolvente e profundamente reflexiva.


Como já é tradição, a atemporal “Mother Earth” encerrou o set sob uma iluminação verde vibrante, em total harmonia com sua temática ambientalista. A letra, que nos recorda da nossa transitoriedade com o verso ‘We are only passing through on her way’ (somos apenas passageiros em seu caminho), reforça a nossa posição temporária diante da natureza. Assim, o Within Temptation finalizou sua passagem de forma majestosa, deixando no ar uma reflexão necessária, cabe ao ouvinte, agora, a sensibilidade de absorvê-la.


Setlist
1 – We Go to War
2 – The Howling (primeira vez desde 2016)
3 – Stand My Ground
4 – Bleed Out
5 – Ritual
6 – In the Middle of the Night
7 – The Heart of Everything (primeira vez desde 2019)
8 – Faster
9 – Wireless
10 – Lost
11 – Forsaken (primeira vez desde 2021; primeira vez ao vivo desde 2008)
12 – Paradise (What About Us?)
13 – Don’t Pray for Me
14 – Ice Queen
15 – Mother Earth

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