Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) e Fotos por Rapha Garcia @raphagarcia e Marcos Hermes – MHermes Ar
A saída de Jeff Loomis do Arch Enemy, no final de 2023, foi um baque para os fãs — especialmente devido ao longo hiato do Nevermore (desde 2011), banda que ele cofundou ao lado de Warrel Dane (voz) e Jim Sheppard (baixo). Antes do Nevermore, o trio já havia integrado o Sanctuary, que seguiu atividades com outras formações.
Após o álbum The Obsidian Conspiracy (2010), o esgotamento por turnês exaustivas, conflitos internos e o abuso de substâncias forçaram uma pausa indefinida. O falecimento de Warrel Dane, em 2017, parecia ter encerrado em definitivo qualquer chance de um retorno.
“Parecia” é a palavra-chave. Após deixar o Arch Enemy — motivado principalmente pela falta de espaço para suas composições —, Loomis uniu-se novamente ao baterista Van Williams para retomar o legado da banda. Para a difícil tarefa de assumir os vocais, recrutaram o turco Berzan Önen. Completam o time o jovem guitarrista Jack Cattoi e o baixista Semir Özerkan (também turco).
Enquanto o Primal Fear encerrava seu set no palco ao lado, os próprios músicos do Nevermore ajustavam o equipamento. Berzan, quase despretensiosamente, começou a aquecer o público no teste de microfone, até tomar a frente do palco e assumir o comando da celebração. Era o início da segunda apresentação do Ice Stage neste domingo (26).
No telão, apenas o icônico logo — agora repaginado. Pontualmente, a introdução “Precognition” (The Politics of Ecstasy, 1996) ecoou, eletrizando uma plateia que presenciava o improvável. A enérgica “Narcosynthesis” (Dead Heart In a Dead World, 2000) foi a escolha ideal para abrir o set e atestar, de imediato, o vigor de Berzan. Sem perder o fôlego, emendaram “Enemies of Reality” e “The River Dragon Has Come”, faixas que reforçam a identidade criativa de Loomis. Embora dividisse as composições com Dane no passado, seu timbre e melodias são a espinha dorsal do grupo, elevando-o ao status de um autêntico guitar hero.
Vale o destaque: Önen sabe do peso que carrega e, sabiamente, não tenta emular seu antecessor. Com técnica impecável e humildade, ele imprime sua própria identidade às canções. É uma abordagem revigorante que, simultaneamente, honra o legado de um vocalista que partiu cedo demais.
O show seguiu com a agressiva “Beyond Within” (Dreaming Neon Black, 1999), com seus riffs matemáticos e precisos, que resgatou a complexidade progressiva que definiu a era “Dreaming Neon Black”. Já a densa “Inside Four Walls” e a cáustica “Engines of Hate” fecharam a seleção do álbum Dead Heart In a Dead World, aqui, evidenciando o alcance vocal impressionante de Berzan nos tons mais altos. Por ser um set de festival, ficaram de fora baladas como “Believe In Nothing” ou “The Heart Collector”. Embora o ritmo fosse acelerado, tais faixas teriam tornado a apresentação impecável, dada a conexão emocional que possuem com os fãs.
Na reta final, o caos tomou conta com “My Acid Words” e “Born” — ambas do álbum This Godless Endeavor de 2005 —, que contou com um pedido de wall of death atendido prontamente. O mosh pit resultante, digno do Bangers Open Air, certamente ficará na memória dos presentes. Em 50 minutos, o Nevermore entregou uma performance técnica, entrosada e emocionante. Uma volta à altura da própria história.
Setlist
1 – Intro: Precognition + Narcosynthesis
2 – Enemies of Reality
3 – The River Dragon Has Come
4 – Beyond Within
5 – Inside Four Walls
6 – Engines of Hate
7 – My Acid Words
8 – Born





