Lynyrd Skynyrd transforma o Monsters of Rock em um tributo à própria história

Do passado turbulento à consagração no palco, banda entrega uma apresentação de peso e significado

Fotos por Ricardo Matsukawa

A presença do Lynyrd Skynyrd no Monsters of Rock é, por si só, um encontro entre história e resistência. Poucas bandas carregam uma narrativa tão marcada por glórias, perdas e reconstruções quanto os ícones do southern rock. Ao subir ao palco, o grupo representa, além de um repertório clássico, décadas de superação e permanência em um cenário musical que mudou radicalmente desde sua origem.

O show abriu com “Workin’ for MCA”, logo seguido de “What’s Your Name” e “That Smell”, estabelecendo rapidamente a química entre os músicos e demonstrando a precisão instrumental que caracteriza a banda. Os solos de guitarra, tanto nos momentos rápidos quanto nos mais melódicos, mostraram a força técnica de cada integrante.

Desde os primeiros acordes, fica claro que o show é conduzido com base em um legado sólido. Canções como “Sweet Home Alabama”, “Simple Man” e “Gimme Three Steps” funcionam quase como hinos geracionais, recebidos pelo público com entusiasmo imediato. Há uma atmosfera de celebração coletiva, em que cada riff e cada refrão evocam uma memória compartilhada entre banda e plateia, reforçando a relevância contínua do Skynyrd.

Naturalmente, um dos momentos mais aguardados é “Free Bird”, que surge praticamente como um ritual. A música ganha contornos emocionais ainda mais intensos quando se considera tudo o que a banda atravessou em sua trajetória. Ao longo da canção, um slide exibido no telão homenageia os ex-membros que faleceram no trágico acidente de avião. A execução prolongada, com solos de guitarra carregados de sentimento, transforma o palco em um espaço de homenagem, tanto aos fãs quanto aos integrantes que já não estão mais presentes.

Falar de Lynyrd Skynyrd também é inevitavelmente revisitar sua tradição dentro do southern rock. A banda ajudou a moldar o gênero, misturando blues, country e rock com uma identidade própria, marcada por guitarras em camadas e letras que dialogam com o sul dos Estados Unidos. No Monsters of Rock, essa essência permanece intacta, ainda que reinterpretada por uma formação diferente daquela que iniciou a história nos anos 1970.

Mas essa trajetória nunca foi isenta de controvérsias. Ao longo dos anos, o grupo esteve no centro de debates envolvendo simbolismos ligados à bandeira confederada, frequentemente associada à sua estética no passado. Embora a banda tenha revisitado e reformulado esse posicionamento em tempos mais recentes, as discussões ainda fazem parte do contexto histórico que acompanha o nome Lynyrd Skynyrd, algo que, de certa forma, também evidencia as transformações culturais ao longo das décadas.

Nenhuma dessas polêmicas, no entanto, se compara ao impacto do trágico acidente aéreo do grupo em 1977. O desastre interrompeu brutalmente a ascensão meteórica da banda, resultando na morte de integrantes fundamentais, incluindo o vocalista Ronnie Van Zant. Esse episódio marcou o fim de uma era foi também um dos momentos mais sombrios da história do rock.

O retorno da banda anos depois é, portanto, um capítulo de reconstrução. Liderados por membros remanescentes e novos músicos, incluindo familiares dos integrantes originais, o grupo conseguiu resgatar sua identidade sem ignorar o peso do passado. Essa continuidade, embora diferente em formação, mantém vivo o espírito da banda e sua conexão emocional com o público.

No Monsters of Rock, essa dualidade entre passado e presente se torna evidente. Há um cuidado em respeitar as versões originais das músicas, ao mesmo tempo em que a banda imprime sua maturidade atual na performance. Não se trata de tentar reviver o que já foi, mas de reinterpretar esse legado com honestidade e respeito.

A recepção do público reforça essa percepção. Mesmo diante de gerações diferentes na plateia, o Skynyrd consegue estabelecer um elo imediato, mostrando que suas composições ultrapassam o tempo. O coro coletivo em diversos momentos evidencia que o impacto da banda não se limita ao seu período de auge, mas continua ecoando.

Ao final, a apresentação no Monsters of Rock vai além de um simples show: é um testemunho vivo de resistência. Entre clássicos imortais, capítulos controversos e uma história marcada por tragédia e superação, o Lynyrd Skynyrd reafirma seu lugar como uma das bandas mais emblemáticas do rock, não só pelo  que criou, mas por tudo o que conseguiu sobreviver.

O Skynyrd deixou o palco entre aplausos e ovacionamentos, provando que, mesmo décadas após seus primeiros sucessos, a banda ainda domina a arte de um show memorável. Cada detalhe, da execução instrumental às homenagens emocionais, reforçou que se tratava de uma experiência completa, que celebrava o legado da banda e a paixão de seus fãs.

Lynyrd Skynyrd –  Allianz Parque – 05/04/2026

  1. Workin’ for MCA
  2. What’s Your Name
  3. That Smell
  4. I Need You
  5. Gimme Back My Bullets
  6. Saturday Night Special
  7. Down South Jukin’
  8. Still Unbroken
  9. The Needle and the Spoon
  10. Tuesday’s Gone
  11. Simple Man
  12. Gimme Three Steps
  13. Call Me the Breeze
  14. Sweet Home Alabama


ENCORE:

  1. Free Bird
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