Texto por Vagner Mastropaulo e Fotos por Belmilson Santos (@bel.santosfotografia)
Em fevereiro/24 e por um site co-irmão, este repórter teve a oportunidade de cobrir a então mais recente passagem do renovado Men At Work pelo mesmo Vibra São Paulo e, à época, a nítida sensação foi a de um show que demorou a “pegar no tranco” até gradativamente esquentar e terminar com a energia lá no alto devido ao empilhar de hits, bem ao estilo “Vou guardar o melhor para depois”.
Já adiantando, a tática adotada foi idêntica e a grande conseqüência foi o povo ligeiramente disperso no início da apresentação. Ao observar a repetição do padrão, este repórter internamente questionava o que poderia ter sido feito de diferente. Talvez distribuir os sucessos ao longo das vinte e três canções, ao invés de represá-los? Mas aí se perderia o efeito apoteótico de quase duas horas adiante. Enfim, qual estratégia seria a ideal quando o cobertor parece curto?
Se a festa estava oficialmente anunciada para as 21:00, já eram dezoito minutos de atraso quando detectamos sinais de impaciência e focos isolados de vaias e assobios. Um minuto depois, disparou-se um trecho da intro instrumental Music For A Found Harmonium, da Penguin Cafe Orchestra, e a primeira interação de Colin Hay misturou português com inglês: “Boa noite, São Paulo, Brasil! Obrigado! I have tears… Here we go!”.
Os trabalhos foram efetivamente puxados por Touching The Untouchables e a agitada No Restrictions, ambas de Business As Usual (81) e, na prática, o début foi tocado quase por inteiro, embora reembaralhado e preterindo People Just Love To Play With Words, abertura do lado B. Com um pé no blues e Cecilia Noël ajudando na gaita, Broken Love possuía potencial para contagiar a platéia, mas ficava claro que a imensa maioria dos fãs estava ali pelos clássicos, não exatamente sendo profundos conhecedores de Men At Work ou do material próprio de Colin Hay.
Uma pena o volume do microfone de Cecilia estar tão baixo, impossibilitando escutarmos o que ela disse antes de Come Tumblin’ Down, deliciosamente suave e com o título cantado de modo a grudar em seu cérebro. Ela é daquelas que surge devagar e vem num crescendo até ganhar corpo e cativar o público. Emendando a terceira consecutiva da carreira solo de Colin e extraída de Fierce Mercy (17), Can’t Take This Town envolveu o primeiro momento notável de Rachel Mazer ao empunhar o sax, se projetar à frente do palco e encerrá-la cercada por seus colegas.
Musicista “de mãos cheias”, ela já havia discretamente mostrado seu potencial multi-instrumentista nas citadas Touching The Untouchables e No Restrictions, em que respectivamente tocou teclados e flauta. Reconhecida de imediato e concluída com um mini-solo de bateria de Jimmy Branly, Down By The Sea novamente contou com Rachel no sax, embora comedida, e ela foi aplaudida durante a execução. E o que se iniciara com o pé no freio daria indícios de mudar de cenário a partir da seguinte, novamente com Rachel detonando no sax, e fazendo os “experientes” presentes viajarem no tempo rumo ao Rock In Rio 1991.
Retirada de Wayfaring Sons (90) e mais famosa composição de Mr. Hay fora do Men At Work, pelo menos por aqui, Into My Life despertou as vozes da galera e fez brotar um mar de celulares erguidos para eternizar a ocasião. Os jovens não têm como imaginar a febre gerada e repercussão alcançada pela música trinta e cinco anos atrás, chegando a integrar a trilha sonora da novela Rainha Da Sucata (90). Bons tempos!
Sendo sincero, a massa não se animou em demasia com o combo formado por: I Can See It In Your Eyes; Looking For Jack, com um quê de balada; Upstairs In My House; e Blue For You, reggae obviamente sob luzes azuis. Beirando uma hora no relógio e décima segunda do repertório, o primeiro grande sucesso do Men At Work resgatado no Vibra foi Everything I Need – curiosamente, outra que virou tema de novela global, no caso, de A Gata Comeu (85). E quem esperava algo deste porte na seqüência teve que religar o “modo paciência”.
Afinal de contas, o que pensar deste pacote? Catch A Star marcou a volta do reggae; No Sign Of Yesterday ofereceu destaque ao baixista Yosmel Montejo, indo à frente e sendo aplaudido com ela em andamento; sem Cecilia no palco, The Longest Night rolou com Colin Hay sem sua guitarra, “só” cantando, e cabe um adendo, pois ele o faz com a super conservada voz de sempre; e Underground, mais animada das quatro, trouxe o retorno de Cecilia, verdadeira alma do grupo – figuraça, ela contribui nos vocais de apoio, se arrisca na percussão, dança, sorri, esbanja carisma e vai muito além de ser a esposa do dono da festa.
Quem perseverou no aguardo começou a ser recompensado na divertida Dr. Heckyll And Mr. Jive, porém, êxtase, de fato, se verificou em Overkill, outra com o sax em alta e primeiríssima em uníssono para novo oceano de aparelhos telefônicos levantados. Na boa? Olhando ao redor, a impressão era de alívio acima de tudo: o povo saíra de casa pelo que já conhecia e mandou bem no apoio geral.
Com Cecilia no vocal, Helpless Automation cortou um pouco o barato, mas, a partir daí, foi alegria pura: It’s A Mistake, oferecendo chance de brilho para o guitarrista San Miguel Perez; a ótima Who Can It Be Now?; a perfeita Down Under; e a saideira Be Good Johnny. Tremendo encerramento, vai? Fala sério! Mas precisavam deixar tudo para o final? Ao som da outro, Love Is The Sweetest Thing, de Ray Noble And His New Mayfair Dance Orchestra, constatamos que o espetáculo batia uma hora e cinqüenta e seis minutos.
Não deixa de surpreender constatarmos a projeção obtida pelo Men At Work tendo lançado somente três discos. Neles distribuídas, foram: nove do mencionado Business As Usual; sete de Cargo (83); e uma de Two Hearts (85). Dezessete, certo? Embora tocada ao vivo desde 1983, The Longest Night apareceu primeiro em Brazil (98). As restantes foram de cinco álbuns solo distintos de Colin Hay: Looking For Jack (87), Wayfaring Sons (90), Topanga (94), American Sunshine (09) e Fierce Mercy (17).
A rigor, São Paulo inaugurou a turnê, que se estendeu por Olinda, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre (ao esgotarem a segunda data cronológica, abriram-se vendas para a extra, uma noite antes) e Rio de Janeiro. Confiando nos dados encontrados no site Setlist.fm, houve mínimas variações de ordem no setlist, Upstairs In My House foi incluída apenas no Vibra e Curitiba ficou sem Broken Love. Pela média e dado o carinho de Colin Hay por nosso país, não é de se espantar outro regresso na média de dois a três anos. O ponto é: haverá um novo sistema na disposição das faixas?
Setlist – 1h56’ (Programado: 21:00 / Real: 21:19–23:15)
Intro: Music For A Found Harmonium [Penguin Cafe Orchestra]
01) Touching The Untouchables
02) No Restrictions
03) Broken Love [Colin Hay]
04) Come Tumblin’ Down [Colin Hay]
05) Can’t Take This Town [Colin Hay]
06) Down By The Sea
07) Into My Life [Colin Hay]
08) I Can See It In Your Eyes
09) Looking For Jack [Colin Hay]
10) Upstairs In My House
11) Blue For You
12) Everything I Need
13) Catch A Star
14) No Sign Of Yesterday
15) The Longest Night
16) Underground
17) Dr. Heckyll And Mr. Jive
18) Overkill
19) Helpless Automation
20) It’s A Mistake
21) Who Can It Be Now?
22) Down Under
23) Be Good Johnny
Outro: Love Is The Sweetest Thing [Ray Noble And His New Mayfair Dance Orchestra]





















