Do mosh ao countrygaze | Tudo o que rolou no segundo e último dia do Balaclava Fest 2026 

Com estreias históricas no Brasil, o domingo selou o festival no topo do circuito independente.

Fotos por Flavio Santiago – @onstage666

O peso da Budang e o respiro da Adorável Clichê

O segundo e último dia do Balaclava Fest 2026 começou provando que a cena nacional independente vive um dos seus momentos mais efervescentes. Abrindo os trabalhos no Tokio Marine Hall no início da tarde de domingo, o quarteto catarinense Budang colocou o público para girar com o vocal rasgado de Léo Brah, que assumiu o front após a saída de Guilherme Guths. Segurando com autoridade o repertório do visceral álbum de estreia Magia (2025), o grupo abriu os primeiros moshes do dia e acendeu a faísca perfeita de fúria hardcore que o público precisava.

Também no Palco Hall, tivemos outra atração nacional. Foi a vez de Adorável Clichê trazer um momento de puro respiro melódico. Navegando com elegância pelas águas do shoegaze, o grupo entregou faixas dos discos O Que Existe Dentro de Mim (2018) e sonhos que nunca morrem (2024). O ápice do set veio com uma surpreendente e belíssima versão cover de “Myth”, do Beach House, em uma apresentação delicada, fresca e milimetricamente executada.

High Vis: um show para querer morar dentro

Se existia um nome cercado de expectativa extrema nesta edição, esse nome era o High Vis. Em sua tão aguardada estreia no Brasil, os britânicos entregaram uma apresentação devastadora no Palco Balaclava. O vocalista Graham Sayle não fez questão alguma de esconder a emoção de estar diante da plateia brasileira, entregando um dos momentos mais comoventes do festival ao agradecer publicamente aos fãs, à família e aos companheiros de banda por terem salvado sua vida após uma tentativa de suicídio em 2025. 

Munido de um espírito genuinamente punk e post-hardcore, o grupo fez do palco uma plataforma de consciência de classe, dedicando hinos como “0151” e “High Visibility” à classe trabalhadora. Foi o tipo de performance magnética que acionou uma onda de FOMO instantânea em quem não tinha garantido ingresso para o show íntimo que a banda faria no dia seguinte, no Bar Alto. O High Vis fez um show daquele tipo raro: que dá vontade de morar dentro para sempre.

Wednesday e Beach Fossils: countrygaze, discursos e lanternas acesas

Mantendo a energia lá em cima, a banda norte-americana Wednesday protagonizou outro dos grandes destaques do domingo. Liderada por Karly Hartzman – que subiu ao palco esbanjando estilo com sua calça meio vibe Juicy Couture e vários penduricalhos na guitarra -, a banda entregou sua mistura única e irresistível de alt-punk com countrygaze (a fusão perfeita entre o country e a estática do shoegaze). Apesar de encarar o mesmo problema de áudio observado no sábado, com a voz de Karly disputando espaço com o ruído das guitarras, o público cantou junto em tom de catarse. A vocalista ainda arrancou aplausos efusivos ao se posicionar duramente contra a extrema-direita brasileira no palco.

Já para os amantes do dream pop, a volta do Beach Fossils ao Brasil após seis anos foi um reencontro recheado de afeto. Percorrendo uma trajetória que começou no EP What a Pleasure (2011) até o recente Bunny (2023), eles abraçaram a plateia com melodias psicodélicas e doces. O momento mais bonito do set aconteceu durante “Sleep Arena”, quando o baixista Tommy Davidson pediu que todas as luzes da casa fossem apagadas para que o palco fosse iluminado exclusivamente pelas lanternas dos celulares do público. Foi lindo, delicado e inesquecível. 

Winona Riders eletrizante e a aula performática de Sudan Archives

Enquanto as atrações principais se revezavam no palco grande, o Palco Hall recebia apresentações de puro desprendimento artístico. Os argentinos do Winona Riders tomaram conta do espaço com versões estendidas e psicodélicas de suas faixas, transformando o set em uma jam contagiante.

Por lá,  a cantora, compositora e violinista norte-americana Sudan Archives entregou a maior surpresa de todo o lineup. Fugindo do padrão indie rock do festival, a artista transformou um palco modesto em uma pista de dança de altíssimo nível. Acompanhada apenas de seu violino e uma bateria eletrônica – e um fã, que subiu pra dançar junto em “A Bug’s Life”ela apresentou o repertório do álbum The BPM (2025) com uma presença cênica hipnotizante. Sudan quebrou qualquer barreira e deixou o público com vontade de conferir a dobradinha que repetiria no dia seguinte no Cine Joia.

DIIV e o balanço final de uma edição histórica do Balaclava Fest

Encerrando a 16ª edição do festival, os novaiorquinos do DIIV subiram ao palco principal para uma apresentação mais contida e tímida se comparada à explosão de bandas como o High Vis. No entanto, a força do catálogo do grupo – sustentado por quatro discos essenciais que passeiam pelo post-punk e pelo shoegaze – falou mais alto para os fãs fiéis que lotavam a pista. Entre faixas inéditas do aguardado álbum ZIRP! – que teve seu show de estreia no palco do Balaclava Fest – e um surpreendente cover de “Playboy Bunny” (da Charli xcx), a banda entregou um show elegante e seguro de si.

Olhando para trás ao fim desta maratona de dois dias, fica claro que o Balaclava Fest 2026 não apenas entregou 16 shows impecáveis, mas reafirmou sua missão essencial: criar um refúgio onde o som nichado ganha dimensão de espetáculo, onde velhos ídolos se reencontram com novos ouvintes e onde a comunidade indie brasileira se reconhece e celebra sua própria existência. Um festival que já nasceu histórico e que deixa a cena ansiosa desde já para os próximos capítulos.

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