Iron Maiden transforma o frio de São Paulo em uma noite de heavy metal para a história

Com Alter Bridge na abertura, banda britânica entrega repertório de clássicos, produção visual grandiosa e Bruce Dickinson em grande forma na segunda apresentação da turnê Run For Your Lives no Nubank Parque

Fotos por Gustavo Diakov (@xchicanox)

O frio que tomou conta de São Paulo na terça-feira, 27 de outubro, não impediu o público de transformar o Nubank Parque em uma celebração do heavy metal. Um pouco menos cheio do que na primeira apresentação, no domingo (25), o estádio recebeu uma noite que, em energia e entrega, superou a anterior. Com o Alter Bridge responsável pelo aquecimento, o Iron Maiden revisitou cinco décadas de história em um espetáculo que combinou clássicos, teatralidade e a força de um repertório que atravessa gerações.

A turnê Run For Your Lives, criada para celebrar os 50 anos do Iron Maiden, concentra sua seleção em músicas lançadas entre o álbum de estreia, de 1980, e Fear of the Dark (1992). A proposta transforma o show em uma viagem por diferentes fases da banda, recuperando composições que nem sempre aparecem juntas no repertório. O resultado é um espetáculo pensado tanto para quem acompanha o grupo há décadas quanto para quem descobriu o Maiden mais recentemente.

Alter Bridge: peso, técnica e gratidão

O Alter Bridge subiu ao palco por volta das 19h10 e encontrou uma plateia que aguardava a atração principal, mas ganhou uma oportunidade de conferir de perto a força de uma das bandas mais consistentes do hard rock moderno e uma das minhas favoritas. Diferentemente da primeira apresentação em São Paulo, o repertório desta terça-feira trouxe duas novidades importantes: “Ghost of Days Gone By” e “Rise Today”, ausentes no show de domingo.

Myles Kennedy esteve mais falador, simpático e agradecido pela oportunidade de dividir a noite com o Iron Maiden. Entre as músicas, demonstrou satisfação por estar ali e procurou estreitar a relação com o público, dando ao show um clima mais próximo. A receptividade também reforçou o potencial da abertura para apresentar o quarteto a quem ainda não acompanha sua trajetória.

A apresentação começou com “Silent Divide”, faixa do álbum autointitulado mais recente da banda. Pesada e cadenciada, a música apresentou a combinação de riffs encorpados, melodias e vocais marcantes que caracteriza o grupo. Na sequência, “Addicted to Pain” acelerou o ritmo com sua estrutura direta e refrão forte, enquanto “Cry of Achilles”, de Fortress (2013), mostrou o lado mais elaborado da banda, com mudanças de andamento, passagens instrumentais extensas e espaço para a interação entre as guitarras de Mark Tremonti e Myles Kennedy.

A faixa-título “Fortress” manteve a apresentação em um terreno mais progressivo. A banda soube explorar os diferentes momentos da composição sem comprometer a dinâmica, destacando o entrosamento entre os integrantes. Já “Ghost of Days Gone By”, de AB III (2010), trouxe uma dose extra de melodia e nostalgia, funcionando como uma das diferenças mais significativas em relação ao primeiro show paulistano.

Em “Metalingus”, o Alter Bridge recuperou o peso e a urgência dos primeiros trabalhos. Conhecida também por sua associação ao universo da WWE. O riff marcante e a resposta do público ajudaram a transformar a música em um dos momentos mais diretos do set. A apresentação, entretanto, encontrou seu ponto emocional mais forte em “Blackbird”. A interpretação de Kennedy cresceu ao longo da faixa, acompanhada pelas guitarras e pela construção gradual dos arranjos, até desembocar em solos que reafirmaram a qualidade técnica do grupo.

Para encerrar, “Rise Today” trouxe uma mensagem de superação e renovação, acompanhada por um instrumental expansivo e um refrão feito para ser cantado em coro. A música, que não havia sido executada no domingo, ampliou a diversidade do repertório e deixou uma impressão positiva antes da atração principal.

O Alter Bridge cumpriu seu papel sem se limitar a um simples aquecimento. Com riffs pesados, arranjos bem construídos e um Myles Kennedy mais comunicativo, o grupo mostrou por que merece atenção própria, independentemente do tamanho da plateia ou da banda que vem em seguida.

Setlist — Alter Bridge – Nubank Park – 27/10

  1. Silent Divide
  2. Addicted to Pain
  3. Cry of Achilles
  4. Fortress
  5. Ghost of Days Gone By
  6. Metalingus
  7. Blackbird
  8. Rise Today

Iron Maiden: cinco décadas de história em um espetáculo grandioso

A expectativa aumentou à medida que o horário da atração principal se aproximava. A tradicional “Doctor Doctor”, do UFO, ecoou pelo sistema de som e provocou a reação imediata dos fãs. Mesmo com o frio e a ocupação menor em comparação ao domingo, a resposta do público mostrou que a noite estava longe de ser apenas uma repetição da primeira apresentação.

O Iron Maiden entrou no clima com “The Ides of March”, instrumental que preparou o terreno para “Murders in the Rue Morgue”. A introdução de bateria abriu caminho para uma execução intensa, enquanto o telão acompanhava a música e ajudava a ampliar o impacto visual. A produção é uma das mudanças mais evidentes desta turnê: em vez de depender exclusivamente dos tradicionais cenários físicos e dos bonecos infláveis de Eddie, a banda utiliza telas gigantes para criar ambientes, narrativas e efeitos sincronizados com o repertório.

A novidade funciona especialmente bem porque não tenta substituir a identidade teatral do Maiden, mas ampliá-la. As imagens acompanham as histórias contadas pelas músicas, dão dimensão às composições mais longas e permitem mudanças de cenário sem interromper o fluxo da apresentação.

A sequência inicial seguiu com “Wrathchild” e “Killers”, mergulhando na fase de Paul Di’Anno. O baixo de Steve Harris apareceu com destaque na primeira, enquanto a segunda construiu tensão até a entrada de seus riffs agressivos. Foi durante “Killers” que Eddie surgiu no palco para interagir com os músicos, arrancando gritos e aplausos. Mesmo depois de tantas turnês, a aparição do mascote continua funcionando como um dos elementos mais divertidos do espetáculo.

Antes de “Phantom of the Opera”, Bruce Dickinson conversou com a plateia e celebrou o retorno a São Paulo. O vocalista estava especialmente falador, brincalhão e à vontade, demonstrando simpatia ao longo da noite. A interação ajudou a criar uma atmosfera de proximidade, mesmo diante da dimensão do estádio.

“Phantom of the Opera” reafirmou a capacidade do Maiden de combinar peso, mudanças de andamento e longas passagens instrumentais em uma única composição. As três guitarras ganharam espaço para explorar melodias e solos, evidenciando as personalidades distintas de Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, que fez sua estreia nos palcos brasileiros no último domingo.

Este último, aliás, foi um espetáculo à parte. Gers não parou um instante: pulou, correu pelo palco, jogou a guitarra para o alto e fez caras e bocas enquanto executava suas partes. Sua postura expansiva contrasta com a elegância melódica de Murray e a precisão de Smith, mas essa diferença é justamente o que torna o trio tão interessante. Janick transforma cada aparição em performance, mantendo o palco em movimento mesmo nos momentos em que a atenção poderia se concentrar apenas no vocal ou no telão.

A introdução narrada de “The Number of the Beast” provocou outra explosão de entusiasmo. O grito de Bruce e a entrada do riff foram acompanhados em coro, confirmando o lugar da música entre os maiores hinos do heavy metal. Em seguida, o vocalista voltou a conversar com o público para apresentar “Infinite Dreams”, falando sobre a importância de ter sonhos e desejando que todos carregassem os seus consigo.

A faixa de Seventh Son of a Seventh Son foi um dos grandes momentos da noite. Sua construção progressiva exigiu atenção aos detalhes instrumentais, enquanto Bruce entregou uma interpretação expressiva, alternando delicadeza e potência. A música também evidenciou a abordagem mais econômica do baterista Simon Dawson, que ocupa o posto deixado por Nicko McBrain. Sua execução foi segura, embora algumas nuances características das versões anteriores tenham feito falta.

Em “Powerslave”, o espetáculo visual ganhou elementos egípcios, com imagens e ambientação que reforçaram a narrativa da música. Bruce assumiu a interpretação dramática do faraó confrontado com a própria mortalidade, enquanto o instrumental alternou passagens cadenciadas e explosões de velocidade. O solo de Dave Murray se destacou pela fluidez e pelas frases melódicas, antes de a banda retomar a intensidade.

“2 Minutes to Midnight” trouxe um dos refrões mais conhecidos do repertório, cantado com força pelo público. O riff de Adrian Smith e o baixo de Harris deram sustentação à faixa, cuja letra sobre guerra e interesses políticos permanece atual. Dawson encontrou aqui um andamento que favoreceu o peso da composição e valorizou os espaços entre as frases vocais.

Mas a noite reservava um dos momentos mais aguardados para “Rime of the Ancient Mariner”. Inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, a composição ultrapassa treze minutos e exige que a banda conduza o público por diferentes atmosferas. A parte central, mais lenta e sombria, ganhou força com as imagens do navio no telão, os efeitos sonoros e a narração que cria a sensação de uma embarcação perdida no mar. Um momento épico!

A retomada da música foi arrebatadora. O baixo de Harris anunciou a volta da intensidade, Bruce retornou com potência e as guitarras conduziram a composição até sua sequência de solos. O resultado foi uma demonstração da capacidade do Maiden de transformar uma estrutura longa e complexa em um momento de tensão e catarse coletiva.

“Run to the Hills” trouxe de volta a velocidade e o apelo imediato dos grandes clássicos. A resposta da plateia foi instantânea, com o refrão cantado em coro e a sensação de que a música terminaria tão rápido quanto começou.

Na sequência, “Seventh Son of a Seventh Son” recuperou a atmosfera progressiva e teatral do álbum de 1988. A faixa-título cresceu com suas mudanças de dinâmica, passagens narradas e melodias instrumentais. O telão ajudou a construir a dimensão visual da história, enquanto as guitarras se alternaram entre harmonias e solos. Foi mais um momento em que a produção mostrou como pode complementar a música sem roubar o protagonismo dos músicos.

A energia voltou ao máximo com “The Trooper”. Bruce apareceu com as bandeiras do Brasil e do Reino Unido, enquanto Eddie surgiu caracterizado como soldado. A combinação de encenação, riffs e participação da plateia transformou a música em um dos pontos altos da apresentação.

Em “Hallowed Be Thy Name”, o Iron Maiden voltou à dramaticidade. A cela e a forca compuseram o cenário para a interpretação de Bruce, que conduziu a narrativa do condenado com mudanças de intensidade e expressão. O telão acompanhou os acontecimentos até o desfecho, criando uma sequência visual que dialogou diretamente com a música. A performance vocal foi um dos grandes destaques do show, especialmente pela maneira como Dickinson alternou tensão, desespero e potência.

A parte principal terminou com “Iron Maiden”, acompanhada pela imagem gigantesca de Eddie no telão. O riff direto e o refrão foram recebidos com entusiasmo, encerrando o bloco principal com a identidade visual e sonora que acompanha a banda desde o início da carreira.

Bis: clássicos para cantar até o fim

O retorno ao palco começou com a voz de Winston Churchill, sons de aviões e imagens de combate aéreo preparando a entrada de “Aces High”, a minha favorita da banda. A introdução ganhou força com a combinação entre o áudio e o telão, que colocou a plateia dentro da narrativa da música.

Na sequência, “Fear of the Dark” transformou o estádio em um grande coro. A introdução de guitarra foi acompanhada pelo público, que assumiu parte da melodia antes mesmo da entrada de Bruce. É um daqueles momentos em que a participação do público se torna parte fundamental do espetáculo, reforçando a conexão construída entre a banda e seus fãs ao longo das décadas.

O encerramento veio com “Wasted Years”, guiada pela introdução inconfundível de Adrian Smith. A música trouxe um tom mais emotivo ao final, com seu refrão sobre distância, memória e a percepção de que o tempo passa. Depois de uma noite dedicada a revisitar diferentes fases da carreira, a escolha funcionou como uma despedida à altura da celebração.

Bruce Dickinson e a força de uma banda que atravessa gerações

Se a produção visual foi um dos destaques da turnê, Bruce Dickinson foi o grande protagonista em termos de presença de palco. O vocalista cantou com força, sustentou notas exigentes e mostrou versatilidade nas interpretações, especialmente em “Infinite Dreams”, “Rime of the Ancient Mariner” e “Hallowed Be Thy Name”.

Além do desempenho vocal, Bruce esteve particularmente comunicativo. Conversou bastante, brincou com a plateia, demonstrou simpatia e agradeceu ao público por acompanhar a banda durante tantos anos. Em suas falas, deixou clara a relação especial com o Brasil e São Paulo, afirmando seu amor pelo país e pela cidade. A postura descontraída reforçou a sensação de que, mesmo diante de milhares de pessoas, ele buscava tornar a noite uma experiência compartilhada.

O restante da formação também sustentou a apresentação. Steve Harris continuou sendo a base pulsante do som, com linhas de baixo que conduzem o repertório; Dave Murray e Adrian Smith ofereceram melodias e solos que ajudaram a definir a identidade do grupo; e Janick Gers acrescentou energia visual e espontaneidade a cada passagem pelo palco. Simon Dawson, por sua vez, entregou uma atuação consistente, ainda que sua abordagem mais direta tenha soado diferente em algumas das composições originalmente marcadas pelo estilo de McBrain.

A diferença em relação ao domingo não esteve no tamanho da plateia, mas na atmosfera. O frio e o público um pouco menor poderiam sugerir uma noite menos intensa, porém o resultado foi o oposto. A resposta aos clássicos, a participação nos refrões e a disposição de Bruce para conversar fizeram a apresentação de terça-feira parecer ainda mais calorosa.

No fim, o Iron Maiden entregou mais do que uma sequência de sucessos: apresentou um espetáculo que equilibra história, música e teatralidade sem perder a força de suas composições. A turnê dos 50 anos mostra uma banda consciente do legado que construiu, mas ainda capaz de provocar entusiasmo genuíno. E, com o Alter Bridge contribuindo para uma abertura de peso, São Paulo teve mais uma noite em que o heavy metal demonstrou por que continua reunindo diferentes gerações sob as mesmas canções.

Setlist — Iron Maiden – Nubank Park – 27/10

Principal

  1. The Ides of March
  2. Murders in the Rue Morgue
  3. Wrathchild
  4. Killers
  5. Phantom of the Opera
  6. The Number of the Beast
  7. Infinite Dreams
  8. Powerslave
  9. 2 Minutes to Midnight
  10. Rime of the Ancient Mariner
  11. Run to the Hills
  12. Seventh Son of a Seventh Son
  13. The Trooper
  14. Hallowed Be Thy Name
  15. Iron Maiden

Bis
16. Aces High
17. Fear of the Dark
18. Wasted Years

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