Da coolness do bar italia à aula político-sonora do Blonde Redhead, Balaclava Fest 2026 fecha primeiro dia já se mostrando histórico 

Com casa cheia, som sem pausa e encontros nos bastidores, o sábado de abertura do Balaclava Fest celebrou a diversidade do alternativo em uma maratona inesquecível no Tokio Marine Hall

Fotos por Flavio Santiago – @onstage666

Nos dias 26 e 27 de setembro, a décima sexta edição do Balaclava Fest reafirmou o motivo pelo qual o evento se consolidou como um dos paradeiros definidores da música alternativa no Brasil. Projetado para quem consome música além do circuito comercial raso, o festival transformou o Tokio Marine Hall em uma cidade do indie. Dividido entre os palcos Hall e Balaclava, o espaço pareceu pequeno para a energia do público durante as primeiras oito horas de som ininterrupto.

A dinâmica do evento funcionou no ritmo que a cena gosta: trânsito fluido entre os palcos, encontros casuais no fumódromo com integrantes das suas bandas favoritas autografando vinis e CDs comprados no estande de merch ao lado, e aquele sentimento único de ver que o artista que você achava que só você escutava coloca centenas de pessoas para cantar junto. Era a própria comunidade se encontrando – até figuras conhecidas da cena paulistana, como Capilé (Sugar Kane), podiam ser vistas coladas perto da grade para ver o High Vis e gritando cada letra.

A abertura dos trabalhos ficou por conta de Pedro Mizutani, que assumiu o horário de última hora substituindo a norte-americana Liv.e. Com uma bagagem que passa por dois EPs e pelo recém-lançado álbum NOVA BOSSA: aquele abraço aos ratos vivos (2026), Mizutani entregou um som com camadas de MPB e bossa nova lo-fi. Uma escolha certeira e elegante para aquecer os ouvidos de quem chegava cedo ao Tokio Marine Hall.

bar italia e Wishy: coolness e o fim de tarde perfeito

Encerrado o set de Mizutani, foi hora de migrar rapidamente para o Palco Balaclava para presenciar o tão aguardado show do bar italia. Após o cancelamento que deixou os fãs órfãos em 2024, o trio britânico finalmente fez sua estreia em solo brasileiro um dia antes, em show na Casa Rockambole, ao lado dos norte-americanos Wishy. Trazendo um indie rock sensual e cru que exala a estética descolada de um episódio de Skins UK, o grupo mostrou um repertório renovado e encorpado pelo excelente álbum Some Like It Hot (2025).

A vocalista Nina hipnotizou a plateia com um carisma enigmático, dançando pelo palco com leveza magnética. A única ressalva do show esteve no som: a voz da cantora ficou visivelmente baixa na mixagem, evidenciando um problema pontual no áudio do palco principal ao longo do dia, onde os pratos da bateria frequentemente atropelavam as frequências dos vocais. Nada, porém, que tirasse o brilho de um show consistente que agradou tanto os convertidos quanto os curiosos.

Na transição para o fim de tarde, o Wishy assumiu a responsabilidade de assinar a trilha sonora perfeita para o pôr do sol. Com o álbum Nature’s Pill acabado de sair do forno, a banda passeou por singles irresistíveis como “All The Rage” e “Mona Lisa”. Equilibrando delicadeza melódica e peso de guitarras na medida exata, o grupo esbanjou simpatia ao passar um bom tempo conversando com os fãs após a apresentação. Momentos de afeto na cena indie. 

A força dos veteranos: catarse do Ludovic e a confissão de Pedro The Lion

Quando a noite caiu, a programação entregou aquele bloco feito para mexer com o coração dos veteranos da cena. O Ludovic subiu ao palco e provou por que carrega o status de lenda do underground nacional. Embora a sonoridade visceral da banda dialogasse muito com a escalação do domingo, a apresentação foi um dos pontos altos do sábado, com uma plateia entupida de gente emocionada. É impressionante ver a efervescência gerada pelo novo álbum do grupo após duas décadas de hiato – um verdadeiro superpoder de reconexão. Jair Naves, que em 2026 se dedicou integralmente ao Ludovic após anos focado na carreira solo, reafirmou seu papel de herói da cena ao entregar uma performance vulcânica e carregada de entrega física e emocional.

Na sequência, Pedro The Lion (projeto do músico David Bazan) mudou a frequência do ambiente para uma atmosfera introspectiva e confessional. Trazendo a carga narrativa de seus discos, que mapeiam geografias e vivências pessoais de sua jornada, Bazan conduziu o público por um emo maduro e contemplativo. Mesmo na calmaria das faixas mais lentas, era possível ouvir os fãs gritando com a força dos pulmões cada verso sentimental de um artista que faz da vulnerabilidade a sua maior força.

Pós-punk e nostalgia sessentista: Dry Cleaning e Sharp Pins

Mantendo o nível de curadoria lá no alto, o Dry Cleaning retornou ao brasil tomou o palco sob o olhar atento do olho místico projetado no telão – identidade visual do álbum Secret Love (2026). A vocalista Florence Shaw deu uma aula de presença cênica anti-popstar, debitando seu característico spoken word sobre linhas de baixo soturnas e guitarras ríspidas. É um pós-punk contido, porém denso e impregnado de atitude punk refinada.

Logo em seguida, encerrando a programação do Palco Hall no sábado, o Sharp Pins trouxe um contraponto solar e dançante. Com uma sonoridade fortemente influenciada pelo garage pop e pelo rock sessentista, a banda fez um show elétrico e contagiante. O ponto alto da apresentação veio no momento em que o grupo mandou uma versão de “A Minha Menina” – escrita por Jorge Ben e imortalizada pelos Mutantes no final dos anos 1960 —, que casou perfeitamente com a estética retrô.

Blonde Redhead: ruído e política no encerramento do sábado

O encerramento do primeiro dia de festival não poderia ter ficado em melhores mãos. O lendário trio nova-iorquino Blonde Redhead – formado pela japonesa Kazu Makino e pelos irmãos gêmeos italianos Simone e Amedeo Pace – subiu ao palco do Balaclava Fest para selar seu reencontro com o público brasileiro após 14 anos de espera. Transitando com maestria entre o noise rock, o dream pop e o shoegaze, a banda entregou um setlist impecável que costurou hinos do clássico 23 (2007) a faixas do aclamado Sit Down For Dinner (2023).

A química afiada entre os integrantes era palpável: Kazu e Amedeo alternavam guitarras e teclados enquanto dividiam os vocais, sustentados pela bateria precisa de Simone. Visualmente sustentado por uma iluminação monocromática marcante que se alternava entre tons intensos de azul e vermelho, o show ganhou contornos ainda mais profundos quando Kazu se dirigiu à plateia em português para expressar sua gratidão ao país.

Ao anunciar a execução do single “Blood Spilled”, o telão de fundo tornou-se um manifesto visual: projeções em apoio à Palestina, mensagens favoráveis ao presidente Lula e alertas sobre a interferência da extrema-direita e dos EUA na política nacional tomaram a tela. Atendendo aos gritos efusivos do público no fim do set, o trio ainda improvisou a execução da faixa-título “23”, fechando o sábado no topo absoluto de sua potência artística.

Com os ouvidos zumbindo no volume certo e a sensação de ter presenciado um daqueles dias que renovam o fôlego da cena alternativa, o sábado lavou a alma da comunidade indie presente e provou que a curadoria do festival segue afiadíssima em conectar o saudosismo ao frescor do momento, deixando o sarrafo lá no alto para a maratona que ainda estava por vir no domingo. 

Nos sigam e deêm um like na gente \m/
error
fb-share-icon

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *