Com a Reckoning Hour na abertura, Blessthefall entrega a apresentação mais intensa da noite e chega a “roubar” a cena dos donos da turnê, enquanto Memphis May Fire encerra a noite com repertório que equilibra passado e presente
Fotos por Gabriel Ramos (@gabrieluizramos)
O Carioca Club, em São Paulo, foi tomado por uma combinação de peso, nostalgia e caos no último sábado (29). Com a casa bastante cheia, próxima da lotação máxima, Memphis May Fire e Blessthefall levaram ao palco duas diferentes maneiras de entender o metalcore, enquanto a carioca Reckoning Hour teve a responsabilidade de abrir a noite. A realização ficou por conta da Liberation.
O resultado foi uma noite marcada por refrões cantados em coro e breakdowns, principalmente, muitas rodas de mosh. Se o Memphis May Fire era oficialmente o protagonista da turnê, foi o Blessthefall quem saiu do Carioca Club com a sensação de ter deixado a marca mais profunda no público.
Não por falta de qualidade do Memphis May Fire, muito pelo contrário. A banda norte-americana fez uma apresentação segura, pesada e bastante competente. Mas o Blessthefall simplesmente elevou o nível de intensidade a outro patamar.
Reckoning Hour: uma abertura que não passou despercebida
Antes das atrações internacionais, coube à Reckoning Hour preparar o terreno. A banda carioca, formada em 2012, já possui uma trajetória respeitável dentro do metalcore brasileiro e chegou ao Carioca Club respaldada por apresentações ao lado de nomes importantes do metal internacional. O grupo também vive um momento especial com o lançamento de Mantra, seu terceiro álbum de estúdio, em agosto de 2026.
E a função de uma banda de abertura, especialmente em uma noite como essa, não é das mais simples: é preciso conquistar um público que ainda está chegando, aquecer uma casa que vai ficando progressivamente mais cheia e, acima de tudo, convencer quem ainda não conhece o trabalho.
A Reckoning Hour cumpriu bem esse papel.
A sonoridade da banda transita entre riffs pesados, melodias e breakdowns, características que conversam diretamente com o público que foi ao Carioca Club naquela noite. A apresentação funcionou como uma espécie de aviso do que viria pela frente: não demoraria muito para a pista começar a se transformar.
O grupo mostrou segurança no palco e deixou claro por que vem sendo considerado um dos nomes consistentes do metalcore nacional. Em vez de simplesmente cumprir tabela, a Reckoning Hour aproveitou o espaço para reafirmar sua identidade e mostrar que o Brasil também possui bandas capazes de dividir uma noite desse porte sem parecerem deslocadas na programação.
Foi uma abertura eficiente, pesada e importante para estabelecer o clima.
Blessthefall: quando a banda de abertura parece impossível de superar
Se havia alguma dúvida sobre qual seria o momento mais caótico da noite, ela desapareceu assim que o Blessthefall entrou no palco.
A banda não precisou de muito tempo para transformar o Carioca Club em uma massa em movimento. O show foi frenético do começo ao fim, com praticamente nenhum espaço entre uma música e outra. A impressão era de que Beau Bokan e companhia estavam determinados a não deixar o público respirar.
E o público respondeu na mesma intensidade.
As rodas de mosh apareceram repetidamente, os corpos se movimentaram por toda a pista e a proximidade entre palco e plateia virou parte essencial da apresentação. O Blessthefall não fez um show para ser apenas assistido. Fez um show para ser vivido cada momento.
A abertura com “You Wear a Crown But You’re No King” já colocou o público dentro do universo de Hollow Bodies. A música veio carregada de peso e funcionou como um cartão de visitas perfeito para o restante da apresentação.
Na sequência, “Cutthroat” aumentou ainda mais a velocidade. O Blessthefall não parecia interessado em construir o espetáculo lentamente: a proposta era acelerar imediatamente.
“Hollow Bodies”, faixa-título do álbum de 2013, trouxe um dos momentos mais reconhecíveis do repertório. É uma música que representa bem a capacidade da banda de combinar agressividade com elementos melódicos, algo que se tornou uma das marcas de sua trajetória.
Depois veio “2.0”, mantendo a pista em constante movimento, seguida por “What’s Left of Me”, que acrescentou outra camada à apresentação sem diminuir a intensidade.
O show avançou para “Youngbloods”, mantendo o equilíbrio entre peso e melodia. A essa altura, já estava evidente que o Blessthefall havia conquistado completamente a pista.
“Drag Me Under” representou a fase mais recente da banda e mostrou que o material novo não ficou em segundo plano diante dos clássicos. A música funcionou perfeitamente dentro da dinâmica do show. Logo depois, “mallxcore” manteve a pancadaria. O título já entrega a postura irreverente da faixa, mas ao vivo ela se transforma em combustível para uma apresentação que parecia cada vez mais descontrolada.
“Venom” veio na sequência, novamente apostando na combinação entre agressividade e melodias características da banda.
Em “Promised Ones”, o público continuou acompanhando cada movimento com uma roda de mosh enorme no meio do Carioca Club. Já “Guys Like You Make Us Look Bad” trouxe uma dose ainda maior de nostalgia, conectando a apresentação atual às origens do Blessthefall e à relação construída pela banda com seus fãs ao longo dos anos.
“40 Days…” foi outro momento de conexão com o passado. A música ajudou a mostrar que, apesar dos anos e das diferentes fases da carreira, o repertório antigo continua tendo enorme força ao vivo.
Depois veio “Wake the Dead”, que novamente colocou a pista em ebulição. Mas foi o encerramento que resumiu perfeitamente o espírito da apresentação.
“Hey Baby, Here’s That Song You Wanted” fechou o set com o Blessthefall completamente entregue ao público. Beau Bokan não se limitou a cantar do palco: o vocalista se jogou na plateia e voltou ao palco em crowdsurfing.
A imagem era simbólica. O palco e a pista praticamente deixaram de existir como espaços separados.
Blessthefall roubou o show?
Sim, e essa talvez seja a principal conclusão da noite.
É importante deixar claro: o Memphis May Fire fez um excelente show. A turnê é deles, o público estava ali também para vê-los e a apresentação foi tecnicamente muito boa.
Mas seria difícil ignorar o fato de que o Blessthefall entregou o show mais intenso da noite.
A banda foi mais frenética, mais agressiva e conseguiu criar uma conexão física muito forte com o público. A quantidade de rodas de mosh e o comportamento da pista durante praticamente todo o repertório deram à apresentação uma sensação de urgência que não se repetiu exatamente da mesma maneira no show seguinte.
O Blessthefall simplesmente não parecia disposto a deixar espaço para uma banda posterior superar aquela intensidade.
E talvez seja justamente por isso que a apresentação tenha dado a sensação de que eles “roubaram” o show dos próprios headliners.
Memphis May Fire: técnica, repertório e uma pista ainda em chamas
Depois do furacão Blessthefall, o Memphis May Fire tinha uma tarefa complicada: entrar no palco e manter o nível de energia. E conseguiu.
O retorno da banda ao Brasil depois de 12 anos já carregava um peso emocional importante. A apresentação em São Paulo também serviu para divulgar a fase atual do grupo, especialmente o álbum Shapeshifter, lançado em 2025.
A banda abriu o repertório com “The Sinner”, uma escolha certeira para quem acompanhou a trajetória do Memphis May Fire. A música imediatamente estabeleceu uma ponte com a história da banda.
Em seguida, “Vices” manteve a conexão com o passado, antes de “Paralyzed” levar o público para outra fase da carreira.
A faixa “Shapeshifter”, que dá nome ao álbum mais recente, mostrou o Memphis May Fire olhando diretamente para o presente. A música também serviu para apresentar ao público brasileiro a identidade da atual fase da banda.
“Bleed Me Dry” manteve a pressão e emocionou a todos no Carioca Club, enquanto “Somebody” trouxe uma dinâmica diferente, explorando o lado mais melódico do grupo sem abandonar o peso.
Na sequência, “Misery” voltou a colocar força nos vocais e nas guitarras. “Left for Dead” representou outro momento de peso intenso, seguido por “The Other Side”, que manteve a apresentação equilibrada entre agressividade e melodias.
A sequência com “Infection” e “Overdose” foi especialmente eficiente para quem buscava o lado mais pesado do Memphis May Fire. As duas músicas ajudaram a manter a pista ativa e mostraram que, mesmo concentrando grande parte do repertório na fase recente, a banda não havia abandonado sua identidade agressiva. Depois vieram “Make Believe”, “Versus” e “Love Is War”. O foto do setlist foi nos dois últimos álbuns lançados pela banda.
Foi nesse trecho que o público começou a mostrar novamente toda a força vista durante o Blessthefall. Duas rodas de mosh se formaram em diferentes pontos da pista e permaneceram ativas, dando ao Carioca Club aquela aparência de caos organizado que marcou boa parte da noite.
O Memphis May Fire pode ter encontrado uma pista ligeiramente menos frenética do que a deixada pelo Blessthefall, mas ainda assim conseguiu conduzir o público muito bem.
Quando a banda voltou para o bis, veio um dos momentos mais aguardados da noite.
“Miles Away” do álbum “Challenger” de 2012 apareceu como uma escolha especialmente significativa. A faixa trouxe um momento mais melódico e nostálgico para uma noite dominada pelo peso. Para muitos fãs, era uma das músicas mais esperadas da apresentação. Na sequência, “Blood & Water” devolveu a agressividade ao palco. E então veio “Chaotic” para fechar com chave de ouro uma noite mais que especial.
O título não poderia ser mais apropriado para encerrar aquela noite. Os dois pontos de mosh que já haviam surgido na pista acabaram se transformando em uma enorme roda durante a reta final da apresentação. O público abriu espaço, correu, pulou e transformou o encerramento em uma espécie de grande celebração coletiva.
O Memphis May Fire terminou a noite com o Carioca Club completamente entregue.
Talvez o maior mérito da noite tenha sido justamente a resposta da plateia.
Com a casa bastante cheia, o espaço reduzido do Carioca Club acabou potencializando a sensação de proximidade. Cada mosh parecia maior porque acontecia a poucos metros do palco. Cada crowdsurfing fazia parte do espetáculo. Cada refrão cantado em coro aumentava a sensação de que as bandas não estavam simplesmente apresentando suas músicas, mas compartilhando aquele momento com quem estava na pista. O Blessthefall aproveitou isso melhor.
Seu show foi mais intenso, mais frenético e mais visceral. A banda conseguiu transformar praticamente cada música em um novo motivo para a pista se movimentar. Beau Bokan também entendeu perfeitamente o público brasileiro e fez da interação física um dos grandes elementos da apresentação.
O Memphis May Fire, por outro lado, apresentou um espetáculo mais equilibrado, concentrado na execução e na trajetória recente da banda, mas sem deixar de entregar momentos de pura explosão.
A noite no Carioca Club funcionou porque as três bandas cumpriram papéis diferentes. A Reckoning Hour mostrou que uma banda brasileira de metalcore pode abrir uma noite internacional com personalidade e competência.
O Memphis May Fire entregou um show sólido, pesado e tecnicamente preciso, revisitando diferentes momentos da carreira e apresentando sua fase atual ao público brasileiro. Mas o Blessthefall foi o grande destaque.
Mesmo não sendo a atração principal da turnê, a banda fez uma apresentação que parecia impossível de acompanhar em intensidade. Foram moshs, crowdsurfing, interação constante e um repertório que atravessou diferentes momentos da carreira sem deixar a energia cair.
No fim, o Memphis May Fire tinha o nome maior no topo do cartaz. Mas, naquela noite, o Blessthefall saiu do Carioca Club com uma pequena, e bastante barulhenta, vitória.
Eles roubaram o show. E a pista parecia concordar.
BLESSTHEFALL – SETLIST – CARIOCA CLUB 29/08:
- You Wear a Crown But You’re No King
- Cutthroat
- Hollow Bodies
- 2.0
- What’s Left of Me
- Youngbloods
- Drag Me Under
- mallxcore
- Venom
- Promised Ones
- Guys Like You Make Us Look Bad
- 40 Days…
- Wake the Dead
- Hey Baby, Here’s That Song You Wanted
MEMPHIS MAY FIRE – SETLIST – CARIOCA CLUB 29/08:
- The Sinner
- Vices
- Paralyzed
- Shapeshifter
- Bleed Me Dry
- Somebody
- Misery
- Left for Dead
- The Other Side
- Infection
- Overdose
- Make Believe
- Versus
- Love Is War
- Miles Away
- Blood & Water
- Chaotic





















































































