Shawn James reforça amor pelo Brasil com show no Cine Joia

Voltando após turnês bem-sucedidas em 2023 e 2024, o estadunidense fez um show especial em São Paulo, que se tornará álbum ao vivo

Texto e Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)

Muitos podem conhecer o Shawn James apenas por “Through The Valley”, hino do dark folk cantado pela Ellie no trailer de The Last of Us Part II, mas quem o acompanhou sabe que seu repertório é muito mais extenso. Considerado uma das vozes mais marcantes do folk nos últimos anos, o nativo de Chicago criou uma conexão forte com os fãs brasileiros, tocando tanto em 2023, no Fabrique Club e Lá Iglesia, quanto em 2024, no Carioca Club, voltando agora com seu maior show, registrado para virar DVD, no Cine Joia.

Esta turnê latino-americana teria como intuito promover seu último álbum, Passage, lançado em junho deste ano. Expandindo sua sonoridade, que transita entre o folk, o blues e o soul, o disco vêm depois de um período de muitas turnês, onde o próprio músico, durante o show, disse ter tido burnout: “precisava ser o Shawn pessoa um pouco, e não o Shawn músico”. Por isso, Passage soa como um dos trabalhos mais pessoais de Shawn, o que o tornaria o plano de fundo perfeito para um show (e registro) tão importante, que reforça a conexão de sua música com seus fãs.

Chegando no Cine Joia, perto das 21h, horário marcado para sua entrada, a casa já estava cheia, com gruas e diversas câmeras adornando a pista. Logo de cara, dava para sentir que a noite iria ser especial. Ovacionado pelo público, Shawn e sua banda começaram com dois pés na porta, logo com uma sequência de “The Curse of the Fold” e “I Want More”, que ambas tiveram todas suas palavras cantadas a plenos pulmões pelos fãs. Dando um tempo para a galera respirar, a mais calma “Burn the Witch” veio logo depois. Ao baixar um pouco a energia dos outros instrumentistas (pelo menos comparada à “I Want More”), “Burn the Witch” serviu perfeitamente para destacar a voz de James, imponente, mas aveludada.

Ao final da música, ele se dirigiu aos fãs, dizendo que o Brasil sempre foi um lugar especialíssimo para ele, e mencionou o fato do show ser gravado, dizendo que não queria registrar seu primeiro álbum ao vivo em mais nenhum outro lugar. Passando para a primeira faixa nova da noite, veio “Icarus”, single principal do último trabalho. Ela não só viu uma performance espetacular do vocalista, mas também evidenciou o entrosamento do resto da banda. Quem já viu algum show do Shawn sabe da força da natureza que é Sage Cornelius, violinista que acompanha o nativo de Chicago há tempos. Sua presença de palco é algo realmente diferenciado, especialmente para alguém de seu estilo, tocando violino com a mesma força de um guitarrista de thrash metal.

Passando por várias eras de sua carreira, “Orpheus”, “Flow” e “The Thief and the Moon” (que veio com uma historinha: Shawn sempre foi ligado em mitologia e quis escrever seu próprio mito, sobre um homem que rouba a lua) fecharam o primeiro bloco do show. Depois de “Thief”, o vocalista pediu aplausos para sua banda, e brevemente os liberou, dizendo que iriam descansar um pouco, e partiu para uma parte acústica da apresentação. Os fãs mais atentos, ligados nos setlists das outras datas da turnê, podem ter percebido que até agora, estava tudo igual, apesar de Shawn ter começado o show prometendo um repertório estendido. Seria justamente no bloco violão e voz que as surpresas começaram a aparecer.

Assim que seus música de apoio desceram do palco, James voltou a falar com o público, dizendo que havia um homem entre eles que o pede para tocar “When I’m Gone” há alguns anos, e que ele inclusive chegou na casa junto da banda para trocar uma ideia e novamente pedir a música. Por isso, ele decidiu honrar o pedido, e tocar a música pela primeira vez em 7 anos – um presente realmente especial para quem estava lá. Outra faixa que ele quis desenterrar para os fãs de longa data foi “American Hearts”, originalmente de A.A. Bondy, mas essa específica teve uma dedicatória especial. Ela foi direcionada a Santi Roig, dono de restaurante que sempre foi fã de Shawn, e o convenceu a fazer seus primeiros shows no Brasil, inclusive, no La Iglesia. Além disso, ele introduziu a música com uma fala em prol da união: “norte-americanos, sul-americanos, da américa central ou dos povos originários da américa, somos todos americanos.”

Com Sage já de volta ao palco desde a última música, continuaram atendendo pedidos dos fãs executando “Son of the Wolf”, antes de partir para um dobradinha de músicas importantíssimas. Primeiro, veio “The Guardian (Ellie’s Song)”, faixa que ele compôs durante a pandemia em homenagem à Ellie, protagonista do The Last of Us, e depois, “Through the Valley”, seu maior hit, que foi a trilha sonora para o trailer justamente do segundo jogo do The Last of Us.

Apesar de hoje ser sua música mais conhecida, “Through the Valley” já chegou a ser renegada pelo próprio músico. Quando começou sua carreira, tocando em bares, ele teve que adaptar seu repertório para o que as pessoas queriam ouvir, que na época, veio na forma dos covers (que não integraram o setlist de sua turnê atual, inclusive). Faixas mais ancoradas em uma carga emocional pesada, como a própria “Through the Valley” tiveram que sair dos setlists, e James ficou sem expor este seu lado por muito tempo, até a Naughty Dog usá-la como material promocional.

Nos últimos acordes, a banda toda voltou ao palco, e iniciaram um bloco praticamente todo composto por músicas do último LP, começando com “Headed for the End”. Antes de “Peace of Mind” vieram aqueles agradecimentos de lei à equipe de produção, som, luz, e aos fãs, além das introduções da banda, valendo destacar o guitarrista solo, que estaria fazendo apenas seu sexto show com Shawn, mas mesmo assim, esbanjou de um profissionalismo incrível. Ainda rolaram “My Juliet” – uma de suas poucas músicas de amor – “Tired of Trying” e “Burn”, antes de Shawn trocar sua guitarra e focar um pouco mais no peso com “No Blood From a Stone” e “Haunted”.

Antes de iniciar a última música, ele perguntou do “last song goose” (ganso da última música), e algum fã realmente jogou um ganso de pelúcia no palco, mantendo a tradição, aparentemente. Para a “última” da noite, tivemos direito a “The Devil’s Daughters” e a banda (menos o guitarrista, que demorou um pouco, desceu do palco). Não deu nem dois minutos e eles já estavam de volta, tocando a lindíssima “Muerte Mi Amor”, música mais reflexiva, abordando o nosso relacionamento com a morte. Depois desse momento introspectivo, Shawn disse que era “hora da cachaça”, e virou uma dose com o resto dos músicos. Agora de verdade, para fechar a noite com chave de ouro, vieram “Let Me Go” e “John the Revelator”, fazendo com que a maioria dos fãs voltassem para casa felizes.

Ao todo, podemos dizer com certeza que São Paulo foi o lugar perfeito para a gravação do primeiro registro ao vivo do Shawn. Ele demonstrou um carisma e uma energia realmente diferenciados, e os fãs estavam do lado dele, igualando sua energia constantemente. Ele não só mostrou ser um frontman nato, super confortável no palco, mas também reforçou sua qualidade técnica e voz única, marcante. Além disso, vale lembrar que – diferente das outras turnês – não rolaram os covers “óbvios”, como “The Number of the Beast”, “Like a Stone” ou “That’s Life”, que refletem um posicionamento recente do músico, dizendo que queria priorizar seu próprio material autoral. De certa forma, este show foi perfeito para consolidá-lo como artista solo de qualidade inegável.

Shawn James – Cine Joia – 07/08/2026

  1. The Curse of the Fold
  2. I Want More
  3. Burn the Witch
  4. Icarus
  5. Orpheus
  6. Flow
  7. The Thief and the Moon
  8. When I’m Gone
  9. American Hearts (A.A. Bondy cover)
  10. Son of the Wolf
  11. The Guardian (Ellie’s Song)
  12. Through the Valley
  13. Headed for the End
  14. Peace of Mind
  15. My Juliet
  16. Tired of Trying
  17. Burn
  18. No Blood From a Stone
  19. Haunted
  20. The Devil’s Daughters
  21. Muerte mi amor(Acoustic)
  22. Let Me Go
  23. John the Revelator ([traditional] cover)
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