Pentagram: uma despedida que ainda não parece definitiva

Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) e Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)

Pouco mais de um ano depois de sua última passagem por São Paulo, o Pentagram voltou à cidade para uma apresentação única na quinta-feira, 13 de agosto, no Fabrique Club. Desta vez, a visita fazia parte da Farewell Tour: Last Latin American Run 2026, anunciada como a última corrida da banda pela América Latina. Mas, se depender do que ouvi de Tony Reed, guitarrista da atual formação, a história ainda pode não ter terminado por aqui. Em uma breve conversa antes do show, ele garantiu que não é essa a intenção da banda — e, definitivamente, eles não estão pensando em acabar.

A noite começou pontualmente às 21h, com a casa já quase lotada, ao som da cuiabana Fuzzly. Formada em 2001, a banda é um dos nomes pioneiros do stoner rock brasileiro e trouxe ao Fabrique uma sonoridade pesada, psicodélica e bastante encorpada. Com Dark Jordão na guitarra e voz, Hugo Falcão no baixo e Rafael Arruda na bateria, o trio fez uma apresentação vigorosa, com aquele som alto que, apesar de quase fazer o peito vibrar, combinava perfeitamente com a proposta da noite. Com uma trajetória que atravessa mais de duas décadas, a Fuzzly construiu seu espaço na cena com trabalhos como Like a Flame of Vulcaine, de 2006, e Middle of Nothing, de 2012. Para quem ainda não conhece a banda, vale acompanhar o trabalho pelo Instagram: @fuzzlyofficial

Pouco depois das 22h, como anunciado, era hora do Pentagram.

Sem uma grande produção ou efeitos mirabolantes, o palco tinha apenas um telão com o logo da banda e imagens psicodélicas ao fundo. E, honestamente, nem precisava de muito mais. Quando se tem uma banda com a história do Pentagram no palco, o que importa está nos riffs, na bateria, no baixo e, claro, em Bobby Liebling.

E é impossível não perceber que o tempo passou.

O tempo desde a última apresentação em São Paulo já mostra um Bobby visivelmente mais debilitado. A idade está cobrando seu preço, e talvez ele já não entregue exatamente aquela figura completamente imprevisível que virou meme nas redes sociais. Mas isso não significa que tenha perdido sua essência. Muito pelo contrário. Nos momentos certos, ele ainda solta aquelas danças, expressões e movimentos absolutamente únicos que fizeram tanta gente descobrir — ou redescobrir — o Pentagram nos últimos anos.

E talvez seja justamente aí que esteja a graça de assistir ao Pentagram hoje: você nunca sabe exatamente o que Bobby vai fazer.

Musicalmente, entretanto, a banda continua impressionante. A formação atual, com Tony Reed na guitarra, Scooter Haslip no baixo e Henry Vasquez na bateria ao lado de Liebling, é extremamente sólida e entrega uma apresentação pesada, intensa e, em muitos momentos, ainda mais poderosa do que as gravações de estúdio.

O repertório teve poucas diferenças em relação à apresentação do ano passado, mas novamente começou com Live Again, faixa de Lightning in a Bottle, último álbum da banda, lançado em 2025. E, se houve pouca novidade no setlist, certamente não faltaram clássicos. Foram 13 músicas, contando o bis, em uma casa completamente cheia e que, com o calor que fazia lá dentro, mais parecia estar no auge do verão do que no meio do inverno paulistano.

Bobby também esteve bastante comunicativo durante toda a apresentação. Entre uma música e outra, contava um pouco sobre a história da canção seguinte, cumprimentava o público e chegou a perguntar, em inglês, “How are you, São Paulo?”. Também comentou sobre o longo voo até o Brasil e disse estar feliz por estar de volta. Starlady, a segunda música do set, veio acompanhada de uma dessas histórias de Bobby sobre a faixa, criando uma proximidade interessante com o público e mostrando que, mesmo depois de tantos anos de estrada, ele ainda faz questão de conversar com quem está do outro lado do palco.

E os grandes momentos vieram na sequência. A hipnótica The Ghoul mergulhou o Fabrique naquele clima sombrio e pesado tão característico do Pentagram, enquanto a enérgica Sign of the Wolf fez o público vibrar. I Spoke to Death apareceu em uma versão avassaladora, e Review Your Choices, talvez uma das maiores surpresas para mim, foi cantada em alto e bom som por boa parte da casa. Outro destaque particular foi Tony Reed: sua intensidade na guitarra é impressionante e ajuda a explicar por que essa formação funciona tão bem ao vivo. A banda soa pesada, coesa e muito mais visceral no palco do que nas gravações.

E Bobby, com toda a sua personalidade, continuou proporcionando momentos que só poderiam acontecer em um show do Pentagram. Em determinado momento, chegou a dividir uma garrafa de Jägermeister com Tony Reed — ainda que tenha sido apenas um longo gole — em uma cena que arrancou risadas e reações do público.

Ao final do set regular, o próprio baterista Henry Vasquez anunciou que ainda viriam mais duas músicas. E o encore levou o público ao delírio: Forever My Queen, um dos grandes clássicos da banda, foi recebida com uma explosão de energia, antes de 20 Buck Spin encerrar definitivamente a apresentação.

Se esta realmente for a última passagem latino-americana da banda, São Paulo teve a oportunidade de assistir a mais um capítulo de uma história que começou há mais de cinco décadas. Mas, depois de conversar com Tony Reed, prefiro não apostar que seja a última vez.

Até porque, quando se trata de Pentagram, talvez a única certeza seja justamente a de que nunca dá para ter certeza de nada.

Pentagram – Setlist Fabrique Club – 13 de Agosto de 2026

1. Live Again

2. Starlady

3. The Ghoul

4. I Spoke to Death

5. Sinister

6. When the Screams Come

7. Sign of the Wolf (Pentagram)

8. Dull Pain

9. Review Your Choices

10. Thundercrest

11. Walk the Sociopath

Encore:

12. Forever My Queen

13. 20 Buck Spin

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