Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)
É difícil apontar exatamente o marco zero do pós-punk. Um estilo tão querido e tradicional no meio do rock underground, nos deu gigantes desde o fim dos anos setenta, e até hoje é parte importante das sub-culturas musicais. Fato é, porém, que o Public Image Ltd., ou apenas P.I.L. está próximo desse tal “marco zero”, e talvez até o seja, embora não sendo das bandas mais lembradas do gênero. Sua importância é ímpar, assim como é a de seu icônico vocalista John Lydon.
Sim, aqui ele é isso, John Lydon, mesmo que talvez você, caro leitor, o conheça pelo seu antigo nome artístico, Johnny Rotten, a voz do Sex Pistols.
Bem, a primeira, e até então última, vez que tinham vindo para cá foi no longínquo ano de 1987. Isso, por si só, já tornava o evento histórico. E acreditem, atendeu as expectativas.
Uma quarta-feira morna, tranquila, foi um bom dia para o show – apesar do péssimo dia da semana; tudo bem, é uma questão de agenda. O horário compensou. Marcado para às 21h30, era tempo suficiente para o espectador voltar do trabalho, tomar um banho, se vestir e ir curtir o show; que não tinha banda de abertura, para a felicidade da maioria.
Aqui faremos um elogio direto à produção: tudo muito pontual. Às 20h, as portas do Cine Jóia se abriram conforme o combinado, e a longa fila, que próximo das 19h já era considerável, foi tranquilamente andando, e todos foram se acomodando lá dentro como dava. Ao longo dessa uma hora e meia de espera, mais e mais pessoas foram chegando, e isso era um ótimo sinal; em geral, o que tínhamos era gente mais velha, calejados do rock – “punks” mesmo, muito poucos, provavelmente por conta de discordâncias com as posições políticas de Lydon. Mesmo assim, quando o show, novamente de forma pontual, começou, o sucesso já era nítido. Casa cheia, absolutamente lotada!
Com uma abertura de show bem tranquila, com a banda toda subindo ao palco e falando um “olá” a todos, lá estava ele, John Lydon, com seus comandados do P.I.L.! O começo do show foi um tanto protocolar, começando com o clássico Home, e então canções de seu álbum mais recente What the World Needs Now…, de 2015. Mas isso já foi uma ótima demonstração da qualidade de todos ali. As músicas não eram simplesmente reproduzidas fielmente, mas interpretadas de forma que você sente que o que está vendo é ao vivo, é aquilo acontecendo. É dançante, é gostoso, é orgânico, e autêntico. Acreditem, ouvir o P.IL. no fone de ouvido ou em casa é algo totalmente diferente de estar em um show deles. É experiência, é algo para ficar na memória. É bacana ver a presença de palco de Lydon! Ele parece excêntrico em fotos e vídeos, e no palco, é tanto quanto ou até mais. Aquele é ele, em seu estado natural; e ele não está nem aí para o que vão pensar de como atua em palco, entra com um livro de letras das próprias músicas na pauta, e fica lendo enquanto performa. Autêntico!
O primeiro som que fez realmente o lugar ir abaixo foi o hit This is Not a Love Song, tocada de uma forma bem interessante. Ali vimos um exemplo do carisma do vocalista. Levantou o público interagindo enquanto cantava, e sem mal sair do lugar.
Eu poderia ficar aqui falando do setlist, que foi escolhido a dedo, com canções de toda sua carreira, dos clássicos às músicas mais alternativas; das mais dançantes, às mais psicodélicas. Mas a verdade é que, dada a experiência que tivemos, o repertório foi um detalhe. A luz ajudava – um dos melhores trabalhos de iluminação que já vi –, o ambiente era bom, a casa muito propícia, e o som, em especial do contrabaixo e da bateria, eram irretocáveis. É um show que, para quem gosta daquele tipo experimental de música, te deixa feliz, em todos os aspectos. E ao ponto que eu, um notório ouvinte de heavy metal, estava lá dançando àquele som “maluco” e único. Diz muita coisa, creio. A “faixa-título” da banda, Public Image, foi a deixa para saírem do palco, mas com as palavras de John “esperem apenas três minutos, e voltaremos”. Britânicos como são, voltaram no exato tempo dito para tocarem Open Up, e em seguida seu grande clássico, Rise, em versão alongada para apresentar a banda de uma forma muito criativa. Fecharam a apresentação com um medley de Annaria, Attack e Chant. Missão cumprida da melhor forma possível. Parafraseando um colega e amigo aqui do site, já posso colocar esse como um dos “shows do ano”.
Vamos a um ponto: não é meu papel falar de política aqui, e nem o seu, caro leitor, de julgar o colega por ele ter ido curtir o show. Em se tratando de música, o que o P.IL., e o que John Lydon entregaram foi histórico para o público paulistano. Em único show no Brasil, com casa cheia, os precursores do pós-punk entregaram o que esperávamos: um show de nível absurdamente alto, com performance autêntica, produção técnica do mais absoluto profissionalismo, com pontualidade, som cristalino, iluminação ótima, até imersiva, e um ambiente tranquilo e amistoso. É disso que precisamos, shows que nos dêem experiências. Ali, tivemos.
Setlist:
Home
Know Now
Corporate
World Destruction
This Is Not a Love Song
Poptones
Death Disco
Flowers of Romance
Warrior
Shoom
Public Image
Open Up
Rise
Annalisa / Attack / Chant































