Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) e Fotos por Marcos Hermes – MHermes Ar
“A má notícia é: todos nós vamos morrer. A boa é que vou levá-los ao necrotério, meu lugar favorito.” Foi com esse clima mórbido que o Lucifer comandou o Sun Stage no sábado (25), durante os 45 minutos de apresentação no Bangers Open Air. A frase, proferida com a devida elegância sombria, antecedeu o hit “At the Mortuary”, executado na metade do set.
Com uma sonoridade que transita entre o doom e o heavy metal setentista, remetendo a nomes como Black Sabbath, Pentagram e Heart (esta última uma referência clara no timbre vocal), a banda consegue soar clássica sem parecer datada. O uso do ocultismo para narrar histórias, aliado a uma estética visual coesa, transforma a experiência em algo que vai além da música.
No entanto, abrir um evento sob o sol do meio-dia não é tarefa fácil. O Sun Stage, posicionado estrategicamente entre o Portão 13 e a rampa de acesso aos palcos principais, acabou virando um “ponto de passagem”. O fluxo constante de público em direção aos outros palcos prejudicou a imersão na performance, embora um número considerável de “anjos caídos” — maneira carinhosa como seus fãs são chamados — tenha permanecido fiel para prestigiar o grupo. Outro revés foi a iluminação: o logo estilizado, que remete aos letreiros neon dos anos 60, perde seu apelo visual sob a luz forte do dia. O show certamente ganharia outra dimensão se ocorresse ao entardecer.
No palco, a presença de Johanna Platow é hipnotizante. Auxiliada pelo movimento constante de um ventilador em seus cabelos, é impossível tirar os olhos da frontwoman. Acompanhando Johanna na nova formação, estavam o duo de guitarristas Coralie Baier e Max Eriksson, o baterista Kevin Kuhn e a baixista Claudia González Díaz. A ausência de Nicke Andersson (líder do Hellacopters e ex-marido de Johanna) na bateria foi sentida; mas o entrosamento ainda em construção não foi o único vilão: o som do Sun Stage parecia carecer de ajustes finos, sofrendo inclusive com a invasão sonora e os ecos vindos do Ice Stage, onde o Korzus se apresentava no mesmo horário. Essa poluição acústica, somada à recente troca de integrantes, deixou a impressão de que o grupo ainda precisa de mais tempo de estrada para soar coeso ao vivo.
O setlist seguiu o roteiro da turnê latino-americana, sem grandes surpresas. Os destaques ficaram para a pegajosa “Crucifix (I Burn For You)”, a envolvente “Slow Dance In a Crypt” — dedicada com certa ironia ao “falecido” ex — e a nostálgica “California Son”. Houve ainda a escolha curiosa de “Goin’ Blind”, do Kiss. Talvez não tenha sido a música mais chamativa para um cover, já que acabou passando meio despercebida pelo público, sem causar o impacto que se espera de uma releitura em um grande festival.
O desgaste físico também cobrou seu preço. Se logo após a primeira música Johanna já havia abandonado a capa com que entrou, ao final do set sua voz apresentava sinais claros de cansaço. Compreensível, visto que o calor do meio-dia em São Paulo é brutal. Antes da saideira, a vocalista brincou: “Hoje meu café da manhã foram dois espressos e vocês”, antes de atacarem “Fallen Angel”.
No balanço final, a experiência Lucifer ficou aquém do esperado. Não por falta de talento, mas por uma sucessão de fatores externos: um horário ingrato, o som ainda em ajustes e o sol excessivo que pouco combina com o necrotério favorito de Johanna.
Setlist Lucifer
1 – Anubis
2 – Crucifix (I Burn for You)
3 – Riding Reaper
4 – Lucifer
5 – Wild Hearses
6 – At the Mortuary
7 – Slow Dance in a Crypt
8 – The Dead Don’t Speak
9 – California Son
10 – Bring Me His Head
11 – Goin’ Blind (KISS cover)
12 – Fallen Angel





