AIDS, POP, REPRESSÃO: RATOS DE PORÃO COMPLETA 40 ANOS DE RESISTÊNCIA

O ano era 1989.

Enquanto José Sarney fazia aparições modestas e o Brasil se via finalmente vivendo o sonho da reabertura democrática, bandas com linguajar exacerbado, trejeitos deslocados e hits sinistros – como “Entre tapas e beijos” de Zezé Dicamargo e Luciano – artistas pops faturavam milhares de novos cruzados com arrecadação de direitos autorais e lideravam a lista das mais tocadas nas rádios do Brasil inteiro. O Ratos de Porão lançava no mesmo ano, o álbum “Brasil”, em duas versões, português e inglês, nascendo aí um clássico da banda, que iria reverberar entre os fãs até hoje.

O disco

capa desenhado pelo quadrinista Francisco Marcatti 

Leia mais em: https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/quadrinista-ratos-do-porao-gibi/

Um disco que traz um olhar crítico e cauteloso para uma sociedade que acreditava estar vivendo um sonho de verão após décadas perdidas, num país que se reconstruiria após os destroços deixados pela ditadura militar e apresentando como presidenciáveis a eleição que ocorreria no fim de 89, figuras controversas como o apresentador de televisão Silvio Santos, o barbudo Enéas Carneiro, o operário sindicalista Luiz Inácio e o playboy caçador de marajás Fernando Collor.

Desse suco surrealista tupiniquim,  nasceu o “Brasil”, com músicas que foram gravadas com berros sinceros, gritos de ódio, representando os anseios que invadiam os espaços onde, naquela altura dos acontecimentos, a vida inteligente ocorria. 

Frases como “Você sabe de onde eu venho? Da terra do carnaval, onde a maioria é pobre e se fode pra viver”, soam como algo que pode ser dito hoje, amanhã ou no ano que vem.

O “Brasil” dos Ratos de Porão é o Brasil com S maiúsculo. 

O disco todo soa como um exercício de observação fantástica, premonições que se repetem, algo produzido numa sociedade que morre e renasce sempre no mesmo lugar.

O show

Depois de dois anos de pandemia e mais de 600 mil mortos, os sobreviventes estiveram no La Iglesia, em Pinheiros, para testemunhar mais um show da série histórica que os Ratos de Porão estão fazendo para comemorar os 40 anos de banda. 

O clima era de comemoração, um público feliz, ébrio e alucinado pelas luzes de néon confraternizavam na porta do pico. Fãs de diversos lugares do país estiveram presentes nessa noite. No palco se via uma banda entrosada, conscientes da importância do que faziam ao vivo, um Gordo reflexivo, contextualizando as letras e igualmente surpreso com a contemporaneidade do que era cantado, berrado, esgoelado, em todas as faixas do disco.  

Foi inevitável não criar pontos de associação entre as letras e as manchetes dos jornais do Brasil em 2021.

foto feita por @xchicanox

“Amazônia nunca mais”

O disco foi reproduzido na íntegra, faixa a faixa, abrindo com a música “Amazônia nunca mais”  e os presentes cantavam como quem sabe que o índice de desmatamento tem registrado recordes sucessivos nos últimos quatro anos de Bolsonarismo.

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/em-2021-amazonia-legal-registra-pior-acumulado-de-desmatamento-em-5-anos/#:~:text=Em%202020%2C%20o%20acumulado%20durante%20julho%20foi%20de,2021%20com%20o%20maior%20desmatamento%20registrado%20foi%20maio

Retrocesso

Seguido pela música “Retrocesso” e a ideia de uma polícia política que assombrou milhares de brasileiros no período militar, como no trecho “cuidado com o poder do regime militar, o tempo vai retroceder e o DOI-CODI vai voltar no Brasil”, mais uma vez, acompanhamos nas últimas semanas o senado votando um projeto de polícia política Bolsonarista, dando aos saudosos da ditadura militar um motivo para ter esperança.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/12/projeto-na-camara-cria-a-policia-secreta-do-presidente-da-republica.shtml

S.O.S país falido

Seguindo a lista de lembranças de um passado terrível que nos assombra, “S.O.S. País falido”, trata de um velho conhecido da população brasileira, a inflação. A coincidência aqui é que tivemos em novembro deste ano, recorde de inflação dos últimos seis anos. 

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/12/10/ipca-novembro-inflacao-ibge.htm

Crianças sem futuro

Também vale destaque a música “Crianças sem futuro”. No contexto de 89, um outro vírus assombrou os pobres do Brasil, uma epidemia de AIDS arrasava com famílias inteiras e isso é denunciado no trecho “Qual será o futuro das crianças do Brasil? Só de AIDS esse ano morreram mais de mil, mas nosso governo finge que não vê, seus filhos estão seguros. Eles vão sobreviver.” 

Novamente, durante a pandemia de Covid-19, mais de 3 mil crianças foram vitimadas por complicações provocadas pela doença, fomos o 2º país no mundo, com mais mortes. De crianças pobres, é importante frisar.

https://noticias.r7.com/saude/a-crianca-que-morre-de-covid-e-a-pobre-e-negra-diz-pesquisadora-18062021

Farsa nacionalista

E na música “Farsa Nacionalista” os comentários discorridos são sobre uma determinada classe política que se fazia presente em 1989 e parece ter viajado numa máquina do tempo para as nossas campanhas presidenciais de 2022. 

E nesse caso, a figura que é criticada nos trechos “Farsa nacionalista, a pátria armada nas mãos dessa cambada de extrema direita, tudo filho da puta.” me veio materializada na cabeça, na fígura de um arquetipo Sérgio Morista, ou os brasileiros que foram as ruas com as suas camisetas da CBF como berrado no trecho “Você não tem razão pra lamber tanto esse país, não pense que você é uma solução, violência e estupidez aqui sempre existiu, aqui ninguém tem culpa se o país esta na merda e você está deixando isso aqui muito pior.”

Ao fim da música, cessaram os instrumentos, e entre uma pausa pra água e uma afinação nas cordas das guitarras, tive o privilégio de puxar o berro “Fora Bolsonaro” para evidenciar todas as nossas intenções naquela noite. O coro foi seguido por todos, pela banda, pelo público e pela bateria do Boca, que inclusive, fez um fundo sonoro.

foto feita por: @xchicanox

O Brasil dos Ratos de Porão segue sendo uma espécie de almanaque caricato do paradigma da vida social brasileira, contraindicado em caso de depressão, ansiedade e pessoas sensíveis no geral. 

É como uma espécie de espelho, ao observarmos, enxergamos a nossa cara desconfigurada e os nossos defeitos que fingimos não ver.

É nas músicas do “Brasil” que encontramos o lado podre de tudo que é nosso, nos deparamos com aquele velho lixo que varremos para baixo do tapete com a intenção de nunca mais notar.

Os nossos demônios continuam por aí. 

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