Dois shows no Tokio Marine Hall celebraram os 30 anos de Holy Land e os 25 anos de Rebirth, com Luis Mariutti e Edu Falaschi como convidados especiais
Crédito: André Tedim @andretedimphotography / Top Link Music e Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia
O Angra transformou o primeiro fim de semana de outubro em uma verdadeira viagem por diferentes momentos de sua história. Nos dias 2 e 3, a banda ocupou o Tokio Marine Hall, em São Paulo, para dois shows especiais dedicados a dois de seus discos mais importantes: Holy Land, que completou 30 anos em 2026, e Rebirth, que chegou aos 25. A proposta era clara: revisitar duas obras fundamentais da carreira, mas sem transformar as apresentações em simples reproduções do passado. Com Alírio Netto nos vocais, o grupo aproveitou as duas noites para olhar para trás enquanto também apresentava ao público a formação atual e os possíveis caminhos de seu futuro. A programação oficial previa ainda participações de Luis Mariutti na sexta-feira e Edu Falaschi no sábado.
Sexta-feira: Holy Land ganha vida novamente
A primeira noite começou com o death metal do Throw Me to the Wolves. Ainda diante de um Tokio Marine Hall que começava a receber o público, a banda apresentou uma performance intensa, baseada principalmente no álbum Days of Retribution, de 2025. O grupo também aproveitou a ocasião para apresentar “Angels Fall”, música que fez sua estreia ao vivo. Mesmo com uma sonoridade mais extrema do que aquela que predominaria durante o restante da noite, o grupo conseguiu estabelecer desde cedo o clima de celebração que tomaria conta da casa.
Na sequência, foi a vez do Viper, uma escolha que fazia ainda mais sentido diante da história compartilhada com o Angra. Com um repertório concentrado nos primeiros anos da carreira, a banda passeou por músicas como “Soldiers of Sunrise”, “Evolution”, “Rebel Maniac”, “A Cry from the Edge” e “The Spreading Soul”. A memória de André Matos e Pit Passarell esteve presente durante a apresentação, inclusive nas imagens exibidas no telão, enquanto “Living for the Night” fechou o set com a casa já bastante mais cheia e uma plateia cantando cada palavra. A relação entre Viper e Angra, especialmente pela história de André, ajudou a fazer da abertura algo maior do que simplesmente um aquecimento para o show principal.
Pouco depois das 22h, o Angra entrou em cena com “Unfinished Allegro” e “Carry On”, uma maneira praticamente inevitável de começar uma noite dedicada à própria história. Em seguida, a banda saltou para o presente com “Tide of Changes” e “Waiting Silence”, mostrando que a celebração de Holy Land não significaria abandonar completamente as outras fases da carreira. Com Alírio Netto à frente, chamou atenção a naturalidade com que o vocalista transitou por diferentes períodos da discografia, encarando músicas originalmente registradas por André Matos, Edu Falaschi e Fabio Lione.
Foi então que Holy Land começou a dominar de fato a noite. Antes de “Silence and Distance”, Alírio sentou-se ao piano e apresentou um breve trecho de “The Show Must Go On”, do Queen, antes de mergulhar na atmosfera do álbum de 1996. “Holy Land” veio acompanhada pelo berimbau de Guga Machado, reforçando justamente um dos elementos que tornam o disco tão particular: a capacidade de aproximar o metal de diferentes referências da música brasileira. Na sequência, “Angels and Demons” trouxe novamente o peso e o virtuosismo das guitarras de Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa.
A noite seguiu alternando peso, melodia e momentos mais intimistas. “Deep Blue” ganhou uma atmosfera especial com as lanternas dos celulares levantadas pela plateia, enquanto “Wuthering Heights”, clássico de Kate Bush presente em Angels Cry, mostrou mais uma vez como Alírio vem se apropriando de músicas de diferentes fases do grupo. “Z.I.T.O.” devolveu velocidade ao espetáculo, e “Stand Away” apareceu como uma das boas surpresas do repertório, recuperando uma música que durante muito tempo ficou distante dos setlists do Angra.
Um dos pontos altos veio com “The Shaman”, que ganhou força com a participação de Guga Machado na percussão e um momento de destaque para Bruno Valverde. Depois, Rafael Bittencourt ficou sozinho no palco para interpretar “Lullaby for Lucifer”, criando um dos momentos mais próximos e emocionais da noite. A banda ainda encontrou espaço para “Rebirth”, fazendo uma ponte entre diferentes períodos de sua trajetória, antes de chegar ao momento mais aguardado para muitos fãs.
Sob gritos de “Jesus”, Luis Mariutti finalmente subiu ao palco. O baixista, que participou da gravação de Holy Land, assumiu o instrumento no lugar de Felipe Andreoli para as três músicas finais da celebração do álbum: “Nothing to Say”, “Make Believe” e “Carolina IV”. O encontro funcionou especialmente bem como símbolo de uma noite dedicada ao passado, mas sem apagar a formação atual. Felipe, inclusive, voltou ao palco para participar da parte mais percussiva de “Carolina IV”, enquanto a longa composição encerrou o bloco dedicado ao disco. O show terminou com “Nova Era”, levando o público de volta a outro momento marcante da história do grupo.
Sábado: a era Rebirth ganha outro capítulo
Se a sexta-feira foi marcada pela memória de Holy Land, o sábado começou com a missão de preparar o público para outra fase fundamental da trajetória do Angra. A abertura ficou por conta do Storia, banda mais nova que apresentou seu power metal de pegada clássica. Com Pedro Torchetti nos vocais, o grupo mostrou técnica e disposição diante de um público que chegava gradualmente ao Tokio Marine Hall, funcionando como uma introdução ao universo mais melódico que dominaria a segunda noite.
Depois, os gaúchos do Hibria assumiram o palco. Foi o meu primeiro show da banda, e me surpreendeu muito positivamente, mesmo com a troca de vocalistas a banda não perdeu força, e sim ao contrário, os músicos são mega talentosos, uma banda pouco valorizada aqui no Brasil, infelizmente. Com três décadas de carreira, a banda trouxe seu heavy metal direto e vigoroso e aproveitou a ocasião para lembrar sua relação de longa data com Edu Falaschi. A presença do vocalista seria justamente um dos grandes acontecimentos da noite, e a participação do Hibria ajudou a criar essa ponte entre passado e presente antes da entrada do Angra.
Às 22h, o Angra apareceu novamente no palco. “Crossing” deu início à apresentação, seguida por “Nothing to Say”, repetindo uma das músicas da noite anterior, mas agora em um contexto diferente. “Tide of Changes” e “Waiting Silence” novamente conectaram o passado ao presente, antes de o repertório mergulhar de vez em Rebirth. “Millennium Sun” e “Acid Rain” deram início à sequência dedicada ao álbum, com esta última mostrando toda a mistura de peso, melodias e elementos progressivos que caracteriza a obra. O público acompanhou pulando e cantando, especialmente nos momentos mais marcantes da composição.
Mais uma vez, Alírio assumiu o piano para “Wuthering Heights”, que já havia sido um dos momentos mais bem recebidos da sexta-feira. A música de Kate Bush novamente funcionou como uma espécie de pausa antes de o Angra retomar o caminho de Rebirth com “Unholy Wars”. A composição, uma das mais longas do disco, evidenciou a capacidade da banda de combinar elementos brasileiros, passagens progressivas e heavy metal. “Lisbon”, única representante de Fireworks nos dois dias, apareceu logo depois, com Bruno Valverde conduzindo as palmas da plateia.
“Judgement Day” manteve a velocidade, enquanto “Stand Away” voltou a aparecer, reforçando a intenção da banda de resgatar músicas menos frequentes de seu repertório. O momento mais delicado veio com “Bleeding Heart”: Alírio ficou sozinho ao piano e apresentou apenas a primeira parte da música, em uma escolha simples, mas bastante eficiente para criar proximidade com o público. Na sequência, “Running Alone” recuperou a força do Rebirth, enquanto “Visions Prelude” fechou o repertório do álbum em sua ordem musical, ainda que as faixas tenham sido distribuídas ao longo da apresentação. “Angels and Demons”, mais uma vez, completou a ponte com Temple of Shadows.
Então chegou o momento mais esperado da noite. Rafael Bittencourt falou sobre a importância de Rebirth para a reconstrução do Angra no início dos anos 2000 e chamou ao palco Edu Falaschi, vocalista original do álbum. A partir dali, a atmosfera mudou imediatamente. Edu assumiu os vocais em “Heroes of Sand”, “Rebirth” e “Nova Era”, três músicas que ajudaram a definir uma das formações mais celebradas da história da banda. O reencontro ganhou ainda mais força em “Nova Era”, com Edu conduzindo a plateia e demonstrando a familiaridade que ainda existe entre sua voz e aquelas composições.
Para fechar a noite, e, de certa forma, todo o fim de semana, Alírio e Edu dividiram os vocais em “Carry On”. Foi uma imagem simbólica para encerrar dois dias em que o Angra colocou diferentes capítulos de sua história frente a frente. De um lado, a formação atual mostrando que consegue revisitar músicas de outras eras sem parecer presa a elas; do outro, dois convidados que ajudaram a construir parte essencial dessa trajetória retornando ao palco para celebrar obras que continuam vivas.
No fim, os dois shows funcionaram melhor justamente porque não foram cópias um do outro. A sexta-feira teve o caráter mais contemplativo de Holy Land, com seus elementos brasileiros, passagens acústicas e a presença de Luis Mariutti em três momentos importantes. O sábado foi mais diretamente associado à explosão melódica e ao power metal de Rebirth, culminando no reencontro com Edu Falaschi. Entre “Carry On”, “Carolina IV”, “Acid Rain”, “Nothing to Say”, “Heroes of Sand” e tantas outras, o Angra ofereceu ao público cerca de 30 músicas diferentes ao longo do fim de semana e, principalmente, duas noites que mostraram como seu passado ainda pode conversar com o presente.
Mais do que simplesmente comemorar aniversários de dois discos clássicos, o Angra parece ter usado o Tokio Marine Hall para testar essa nova fase. Com Alírio Netto cada vez mais à vontade, Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa dividindo as guitarras, Felipe Andreoli e Bruno Valverde sustentando a cozinha e participações que conectaram diferentes gerações, a banda mostrou que revisitar o passado não precisa significar viver nele. E talvez seja justamente essa a parte mais interessante deixada pelos dois shows: depois de olhar tão profundamente para sua própria história, fica a expectativa para descobrir qual será o próximo capítulo.
SETLIST SEXTA-FEIRA – 01/10/26 – TOKIO MARINE HALL
Setlist – Throw Me to the Wolves
Chaos
Tartarus
Days of Retribution
Fragments
Angels Fall
Setlist – Viper
Soldiers of Sunrise
Evolution
Rebel Maniac
A Cry from the Edge
To Live Again
The Spreading Soul
Under the Sun
Living for the Night
Setlist – Angra
Unfinished Allegro
Carry On
Tide of Changes
Waiting Silence
Silence and Distance (precedida por um trecho de The Show Must Go On)
Holy Land
Angels and Demons
Deep Blue
Wuthering Heights
Z.I.T.O.
Stand Away
The Shaman
Lullaby for Lucifer
Rebirth
Nothing to Say
Make Believe
Carolina IV
SETLIST SABADO – 02/10/26 – TOKIO MARINE HALL
Setlist – Angra
Crossing
Nothing to Say
Tide of Changes
Waiting Silence
Millenium Sun
Acid Rain
Wuthering Heights
Unholy Wars
Lisbon
Judgement Day
Stand Away
Bleding Heart (somente primeira parte)
Running Alone
Visions Prelude
Angels and Demons
Heroes of Sand (part Edu Falaschi)
Rebirth (part Edu Falaschi)
Nova Era (part Edu Falaschi)
Unfinished Allegro
Carry On



































































































