DIA 1 | C6 no Rock estreia entre clássicos dos anos 80, memória e diferentes formas de encarar o passado

Primeiro dia do novo festival da Dueto Produções e do C6 Bank reuniu Plebe Rude, Paulo Ricardo, Titãs, Paralamas do Sucesso e um tributo a Rita Lee no Parque Ibirapuera.

Fotos por Raíssa Corrêa – @showww360 – Gentilmente cedidas pela Rarozine

Há algo muito particular na maneira como o rock brasileiro dos anos 1980 continua ocupando o imaginário popular e isso não é novidade. Mas não se trata apenas de nostalgia, embora ela obviamente esteja presente. As músicas daquele período carregam uma espécie de urgência que dificilmente poderia ser dissociada do momento em que nasceram: os últimos anos da ditadura, a abertura política, a redescoberta dos espaços públicos, o desejo de liberdade e uma geração tentando entender o que significava ser jovem em um país que também precisava reaprender a existir de uma forma democrática.

Neste contexto, temas como sexo, política, juventude, frustração, amor, consumo, violência urbana e revolução pessoal entraram no repertório de bandas que, quatro décadas depois, continuam tocando para públicos que vão muito além daqueles que viveram o período.

É dentro dessa memória coletiva que surge o C6 no Rock, novo festival da Dueto Produções em parceria com o C6 Bank, responsáveis também pelo já consolidado C6 Fest. Realizada nos dias 22 e 23 de agosto, no Parque Ibirapuera, a primeira edição adotou uma identidade bastante clara: olhar para a chamada era de ouro do rock brasileiro através de alguns de seus discos fundamentais.

No sábado, primeiro dia de programação, passaram pelo palco Plebe Rude, Paulo Ricardo, Titãs e Os Paralamas do Sucesso. A noite terminou com Meu Sonho é Ser Imortal, tributo a Rita Lee idealizado por Beto Lee, reunindo nomes como Fernanda Abreu, Baby do Brasil, Sandra Sá, Alice Caymmi, Letrux, Catto e Marina Sena.

Plebe Rude abre o festival debaixo do sol

O primeiro desafio do C6 no Rock surgiu antes mesmo da primeira música. Com o céu aberto e o sol forte da tarde paulistana, boa parte do público preferiu acompanhar o início da programação protegida pelas árvores do Ibirapuera. E coube à Plebe Rude encarar esse horário e um gramado meio esvaziado.

Entre os nomes escalados para o sábado, a banda brasiliense provavelmente era também aquela com uma relação mais direta com um público de nicho. Isso não diminui, porém, a importância do disco escolhido para a apresentação. Lançado em 1986, O Concreto Já Rachou (1986) permanece como um dos trabalhos mais representativos do rock produzido em Brasília naquele período.

No palco, Philippe Seabra, Clemente Nascimento, André X e Marcelo Capucci atravessaram o repertório do álbum enquanto imagens e registros históricos surgiam no telão. Entre as músicas, histórias dos 45 anos de trajetória ajudavam a construir uma apresentação que funcionava também como pequeno inventário da própria banda.

A proposta comemorativa ainda abriu espaço para canções de Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987), ampliando o recorte da apresentação.

Talvez pelo horário, talvez pela dimensão mais underground da Plebe Rude dentro daquele line-up, o show nunca chegou a adquirir força total da relação público-artista, que surgiria mais tarde. Ainda assim, foi um bom jeito de começar o festival, contando com uma banda cuja obra está profundamente ligada às tensões políticas e sociais que ajudaram a definir o rock brasileiro dos anos 1980.

Paulo Ricardo faz o melhor show do dia

Se a abertura teve uma atmosfera mais contida, Paulo Ricardo rapidamente tratou de mudar o registro da tarde. De sobretudo preto e com uma combinação que parecia flertar ao mesmo tempo com Matrix, Blade e algum imaginário futurista dos anos 1990 – mas que durou pouco diante do calor -, o cantor subiu ao palco disposto a entregar espetáculo.

O foco da apresentação era Rádio Pirata Ao Vivo (1986), outro álbum fundamental daquele mesmo ano, mas o repertório naturalmente visitou também Revoluções por Minuto (1985), disco de estreia do RPM. Assistir o galã ao vivo ajuda a lembrar por que ele continua ocupando esse espaço na música nacional: há consciência de palco, domínio vocal e, principalmente, entendimento do caráter performático de um show desse tamanho.

Em uma programação construída em torno de discos que completam quatro décadas, esse tipo de presença também oferece uma pista interessante sobre longevidade. Não basta apenas preservar as músicas, mas também é necessário continuar sabendo apresentá-las.

Considerações sobre o C6 no Rock

Aqui, cabe uma pausa para falar sobre estrutura e organização. À medida que a tarde avançava, o público que antes se escondia do sol começava a ocupar cada vez mais o espaço em frente ao palco.

Também ficava evidente uma das principais qualidades da estreia do C6 no Rock: a produção. A estrutura guarda várias semelhanças com a do C6 Fest, naturalmente em escala reduzida por se tratar de um evento concentrado em apenas um palco. Ainda assim, a Dueto conseguiu aproveitar muito bem a área reservada no Parque Ibirapuera sem transformar a experiência em algo apertado ou excessivamente compartimentado.

Havia bastante espaço para sentar e descansar, áreas cobertas, praça de alimentação bem distribuída, banheiros organizados, bebedouros e caixas funcionando sem grandes dificuldades.

Entre os acertos, vale destacar também a feira de vinil, reunindo lojas com curadorias diferentes e criando uma extensão bastante natural da própria proposta do festival. Para um evento tão interessado em revisitar discos como unidades artísticas, colocar o objeto físico novamente no centro da experiência foi uma ótima escolha conceitual.

E há, evidentemente, o próprio Ibirapuera. O entorno arborizado faz parte da identidade visual dos festivais realizados ali e ajuda a criar uma sensação que dificilmente seria reproduzida em uma arena ou centro de convenções. Quando a noite chega, porém, outro elemento passa a ocupar o protagonismo.

A parte traseira do Auditório Ibirapuera transforma sua enorme fachada branca em uma espécie de tela e, assim como acontece no C6 Fest, projeções e recursos visuais conseguem ampliar o palco e integrar arquitetura, show e parque em um mesmo cenário.

Titãs encontram pouca combustão em Cabeça Dinossauro

Se havia um show naturalmente destinado a ser um dos grandes acontecimentos do sábado, era o dos Titãs.

Pouco antes da apresentação, o gramado já estava tomado pelo público à espera da execução de Cabeça Dinossauro (1986), possivelmente um dos discos mais incontornáveis de toda a história do rock brasileiro.

A perspectiva de ouvir um trabalho como esse de cabo a rabo é, por si só, estimulante. Seja pela beleza de se respeitar a ordem de um disco, por recuperar suas transições ou por devolver ao repertório músicas que nem sempre sobreviveram individualmente aos setlists. O problema, aqui, é que o potencial dessa experiência nem sempre apareceu no palco.

Talvez pelo fato de Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto já estarem circulando com a turnê comemorativa do álbum, talvez pela expectativa criada em torno de um repertório tão explosivo, a apresentação pareceu estranhamente acomodada.

Faltou potência. E faltou tanto no palco quanto no próprio público.

Naturalmente, músicas como “Polícia”, “Família”, “Homem Primata” e “Bichos Escrotos” provocaram respostas maiores – esta última vivendo, inclusive, uma curiosa segunda vida recente após ganhar uma regravação de Anitta. Mas, fora desses momentos, a temperatura raramente acompanhou a brutalidade que caracteriza o disco.

Isso não apaga o prazer de ouvir Cabeça Dinossauro (1986) integralmente. Pelo contrário: reforça como algumas obras mantêm intacta uma força que nem sempre suas apresentações comemorativas conseguem reproduzir.

Depois do álbum, houve espaço para apenas uma música fora do repertório previsto. “Flores” encerrou o show sem alterar muito a sensação dominante de uma apresentação correta, porém aquém do acontecimento que poderia ter sido.

Entre projeções e clássicos, os Paralamas mantêm o público por perto

Quando Os Paralamas do Sucesso subiram ao palco, a temperatura havia baixado, o vento tornava o gramado mais agradável e o C6 no Rock começava a revelar sua melhor aparência.

Se durante o dia o branco do Auditório Ibirapuera funciona quase como parte da paisagem, à noite a fachada assume outra função. As projeções transformam o espaço, ampliam os elementos visuais da apresentação e ajudam a dar ao festival uma identidade muito particular, coisa que os Paralamas souberam utilizar a seu favor.

O disco da vez era Selvagem? (1986), obra que já naquele momento demonstrava como o chamado rock brasileiro dos anos 1980 nunca foi exatamente um gênero homogêneo. Enquanto parte das bandas daquele período procurava referências no punk e no pós-punk britânico, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone incorporavam reggae, ska, ritmos caribenhos e música brasileira em uma linguagem que fazia muito sentido dentro do país.

“Alagados”, “A Novidade” e “Melô do Marinheiro” surgiram como os momentos naturalmente mais reconhecidos da apresentação, e não houve exatamente grandes surpresas – Os Paralamas do Sucesso são uma banda cujo repertório atravessou tantas décadas que boa parte dessas canções já ocupa um lugar estável dentro da memória popular -, mas houve um bom show.

Tributo à Rita Lee encerra o sábado atravessando gerações

Depois de um dia dominado exclusivamente por homens no palco, o encerramento mudou completamente a configuração da programação.

Idealizado por Beto Lee, Meu Sonho é Ser Imortal reuniu Fernanda Abreu, Alice Caymmi, Baby do Brasil, Miranda Kassin, Sandra Sá, Letrux, Catto e Marina Sena para celebrar o legado de Rita Lee.

Era também o show que mais facilmente rompia a lógica puramente geracional do festival.

Se bandas como Titãs, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso mobilizam especialmente quem viveu a explosão do rock brasileiro das décadas anteriores, Rita Lee parece escapar desse tipo de delimitação. Fãs de todas as idades ocupavam o gramado e a presença de Marina Sena, uma das artistas mais populares de sua geração, ajudou a ampliar ainda mais esse trânsito.

O repertório foi bem escolhido e encontrou um equilíbrio importante entre reverência e personalidade. Em vez de simplesmente reproduzir interpretações conhecidas, cada convidada teve algum espaço para aproximar aquelas músicas de sua própria identidade artística.

“Ovelha Negra”, dividida por Alice Caymmi e Catto, esteve entre os pontos altos da apresentação. Sandra Sá encontrou em “Nem Luxo, Nem Lixo” um terreno naturalmente confortável, enquanto Marina Sena assumiu “Amor e Sexo” e “Doce Vampiro”.

Visualmente, o tributo também funcionou. Fernanda Abreu apareceu com uma espécie de vestido-bata estampado por diferentes imagens de Rita Lee, ora loira, ora ruiva. Letrux, por sua vez, levou a homenagem além e surgiu coberta por mini-Ritas dos pés à cabeça.

Havia ali uma dimensão afetiva que nenhum outro show do sábado poderia reproduzir. Ao mesmo tempo, o encerramento expôs os riscos naturais de apresentações coletivas desse tipo. A versão final de “Lança Perfume” teve uma dinâmica desajeitada, quase improvisada demais, com a sensação de que algumas participantes ainda procuravam no palco o momento exato em que deveriam assumir seus versos.

Depois de uma apresentação construída com tanto carinho, foi uma conclusão menos precisa do que o espetáculo merecia. Ainda assim, dificilmente esse pequeno tropeço seria suficiente para diminuir o peso de ver tantas artistas diferentes reunidas em torno de uma compositora cuja obra ajudou a criar espaço justamente para que mulheres pudessem ocupar o rock brasileiro sem pedir licença.

Mais do que nostalgia

Ao longo do primeiro dia, ficou claro que o principal desafio do C6 no Rock será não se transformar apenas em um festival de nostalgia. A curadoria, felizmente, oferece caminhos para escapar disso.

Revisitar discos completos cria uma relação diferente com o passado. Em vez de selecionar apenas hits capazes de acionar reconhecimento imediato, o formato obriga artistas e público a reencontrarem também músicas menos lembradas nos shows, momentos de transição e escolhas que ajudam a explicar por que determinados trabalhos se tornaram tão importantes.

Entre fãs que atravessaram décadas acompanhando aquelas bandas e uma plateia mais jovem atraída por nomes como Marina Sena ou pela própria permanência cultural de Rita Lee, o primeiro dia encontrou uma convivência geracional interessante. Assim, como estreia, dá pra dizer que o C6 no Rock começou com o pé direito.

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