Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) e Fotos por Diego Padilha e Marcos Hermes – MHermes Ar
A noite de domingo reservava ao Angra uma constelação de motivos para celebrar, elevando a expectativa a níveis estratosféricos. Além da honra de ser o primeiro headliner brasileiro a encerrar o festival, a banda celebrava seus 35 anos de estrada em um momento de profunda transformação. O palco do Memorial tornou-se cenário de um reencontro há muito aguardado pelos integrantes da era “Rebirth” e, simultaneamente, o palco de uma transição de peso: a despedida digna de Fabio Lione, após 14 anos à frente do grupo, e a apresentação oficial de Alírio Netto como o novo comandante dos vocais.
Todo esse pano de fundo — temperado por trocas de farpas nas redes sociais que apenas aumentaram a voltagem do evento — já seria suficiente para tornar a noite histórica. Com uma produção de palco imponente e digna do posto de headliner, incluindo fogos de artifício, chamas e efeitos pirotécnicos, o Angra encontrou um Memorial da América Latina completamente lotado por fãs sedentos por clássicos e pelo abraço da nostalgia.
O espetáculo foi estruturado em três atos distintos. No primeiro, a formação reuniu Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli e Bruno Valverde, contando com o revezamento entre Alírio Netto e Fabio Lione — que assumiu o microfone em quatro das oito faixas iniciais.
De imediato, Netto encarou a responsabilidade de abrir o set com as emblemáticas “Nothing to Say” e “Angels Cry”. Ao imprimir sua própria identidade às canções imortalizadas pelo eterno Andre Matos, o vocalista trouxe um frescor evidente. Alírio demonstra técnica e vigor, fazendo jus à grandeza do Angra sem cair na armadilha de tentar emular o maestro — algo que nem nomes como Tobias Sammet conseguiram. Embora tenha presença e alcance as notas com segurança, a sensação é de que ainda lhe falta a “aura” que o posto exige, ainda que a recepção dos fãs tenha sido majoritariamente positiva. No palco, porém, o vilão recorrente do Bangers voltou a atacar: uma mixagem oscilante, com guitarras que por vezes soavam emboladas em meio ao volume excessivo.
Em tom de despedida, Fabio Lione performou quatro canções, iniciando com as progressivas “Tide of Changes – Part I & II”, do pouco explorado álbum “Cycles of Pain”. O roteiro seguiu com a melancólica “Lisbon” — único resgate do álbum “Fireworks” na noite — e a regionalista “Vida Seca”, onde dividiu os versos iniciais com Bittencourt. Entre uma faixa e outra, Lione declarou: “Foram 14 anos de dedicação e alcançamos coisas incríveis”. Foi uma despedida de sabor agridoce, cercada pelo drama que parece inerente à trajetória do Angra. O hiato de sete meses anunciado em 2024 soou, para muitos, como uma estratégia para o desligamento de Lione, e a oficialização de Netto logo em seguida apenas acentuou o desconforto de uma situação que se tornou visualmente desgastante.
Encerrada sua participação, Fabio Lione foi visto circulando pela front row e buscando bebidas no bar da pista — um momento “gente como a gente” que humanizou a despedida do frontman. Enquanto isso, Netto retornava ao centro do palco para finalizar o primeiro ato com uma sequência de tirar o fôlego.
O ápice emocional veio com a etérea “Wuthering Heights”, cover de Kate Bush. Sentado ao piano de cauda, Alírio entregou uma performance interessante de uma composição reconhecidamente difícil; vale lembrar que nem o próprio Andre Matos a executava à risca ao vivo. A interpretação honesta e técnica foi o gatilho para que as lágrimas corressem livremente entre os fãs. Para selar essa primeira etapa, a banda resgatou a épica “Carolina IV”, ausente dos setlists desde 2018. Foi um encerramento grandioso e digno para o Ato I, deixando no ar a sensação de que o melhor ainda estava por vir.
A segunda etapa trouxe ao palco a formação clássica da “era Rebirth”, um reencontro que parecia pertencer apenas ao campo dos sonhos: Bittencourt e Andreoli permaneceram, unindo-se a Kiko Loureiro, Edu Falaschi e Aquiles Priester — este último posicionado em seu monumental e icônico kit de bateria.
Sob a introdução de “In Excelsis” no som mecânico, um mar de celulares erguidos tentava registrar o momento histórico. “Nova Era” abriu o set de aproximadamente 50 minutos com Edu à frente dos vocais, evocando um sentimento de nostalgia pura e imediata. É preciso ser honesta: Edu já não atinge as notas de outrora, mas sua tentativa é digna e ele parece consciente de suas limitações, contando com o apoio sólido de Rafael nos backing vocals. No início, a guitarra de Kiko Loureiro sofria com a mixagem quase inaudível, problema que foi felizmente corrigido no decorrer da execução. Das nove músicas deste segundo ato, os maiores destaques foram:
- “Heroes of Sand”: Executada de forma emotiva, resgatando a conexão espiritual que a faixa estabeleceu com uma geração inteira;
- “Bleeding Heart”: Uma balada onipresente, que ganhou um alcance inesperado nos últimos anos graças à inusitada (e onipresente) versão do Calcinha Preta;
- “Rebirth”: A canção regeneradora que, como não poderia deixar de ser, encerrou o set reafirmando o renascimento da própria banda.
Outras faixas como “Ego Painted Grey” e “Acid Rain” atingiram em cheio o coração dos saudosistas, embora tenham desacelerado o andamento do espetáculo, que até então seguia em ritmo de celebração ininterrupta.
O terceiro ato reservou uma surpresa de contornos emocionantes. Ao som das primeiras notas de “Silence and Distance”, a voz de Andre Matos ecoou pelo Memorial enquanto um holofote isolado iluminava o banco vazio do piano de cauda. No telão, imagens do maestro preenchiam o silêncio visual daquele assento, criando uma atmosfera de reverência absoluta. Com exceção de Fabio Lione e Aquiles Priester, os demais integrantes retornaram ao palco para dar continuidade à música ao vivo, com Alírio Netto assumindo o piano e finalizando a canção, sozinho, em uma homenagem comovente e respeitosa.
Na reta final, Priester reassumiu as baquetas para a execução de “Late Redemption”. Embora seja uma composição de densidade técnica admirável, a performance seguiu de forma linear, funcionando como um breve respiro antes do clímax.
Para o encerramento, a escolha foi a inevitável “Carry On”, o hino que definiu o metal brasileiro para o mundo. Com todos os músicos reunidos no palco, a dinâmica transformou-se em uma celebração coletiva: cada vocalista defendia suas linhas melódicas antes de se unirem em refrãos grandiosos, muitas vezes avançando pela passarela em direção à plateia. Embora a execução soasse compreensivelmente caótica pela quantidade de músicos em cena, o resultado foi revigorante e carregado de uma nostalgia que justificava qualquer imperfeição. Com um show de mais de 2 horas, o Angra não apenas encerrou o festival; mas entregou um testamento de resiliência, lavando a alma de gerações que cresceram sob a égide de suas canções.
Setlist
Ato I: Netto, Lione, Bittencourt, Barbosa, Andreoli e Valverde
1 – Intro do 35th Aniversário + Nothing to Say (com Alirio Netto nos vocais)
2 – Angels Cry (Alirio Netto nos vocais)
3 – Tide of Changes – Part I (Fabio Lione nos vocais)
4 – Tide of Changes – Part II (Fabio Lione nos vocais)
5 – Lisbon (Fabio Lione nos vocais)
6 – Vida seca (Fabio Lione nos vocais)
7 – Wuthering Heights (cover de Kate Bush) (Alirio Netto nos vocais)
8 – Carolina IV (Alírio Netto nos vocais; primeira vez desde 2018 e dedicada aos fãs)
Ato II: Falaschi, Bittencourt, Loureiro, Andreoli and Priester
9 – In Excelsis + Nova Era
10 – Waiting Silence
11 – Millennium Sun
12 – Heroes of Sand
13 – Ego Painted Grey
14 – Bleeding Heart
15 – Spread Your Fire
16 – Acid Rain
17 – Rebirth
Ato III
Silence and Distance (Andre Matos intro no piano com suas imagens no telão)
18 – Silence and Distance (Netto, Falaschi, Loureiro, Barbosa, Bittencourt, Andreoli e Valverde; dedicada a Andre Matos)
19 – Redemption (Netto, Falaschi, Barbosa, Loureiro, Bittencourt, Andreoli e Priester)
20 – Unfinished Allegro + Carry On (Netto, Falaschi, Lione, Bittencourt, Loureiro, Barbosa, Andreoli, Priester e Valverde)



















