Eles vêm, nos viciam, retornam para se despedir e agora a dependência vai bater forte
Texto por Vagner Luis Mastropaulo e Fotos por Raíssa Corrêa (@showww360)
Em março/19 e para um site co-irmão, cobrimos a passagem do The Adicts pelo Carioca Club [https://onstage.mus.br/website/the-adicts-080319-carioca-club] vendo-os pela primeira vez ainda num mundo pré-pandêmico e jamais ousaríamos supor que a vinda seguinte se daria numa turnê batizada Adiós Amigos. Como assim? Teria sido esta, de fato, uma despedida? Se foi o caso, foi um adeus em primeiríssimo nível. Mas e agora?
Duas bandas se encarregaram de abrir a festa e a primeira foi o Lixomania, de Lauzane Paulista e veteranos da cena punk com dois destaques: a entrega do vocalista Moreno e a força dos backing vocals do guitarrista Ramon Guilherme e do baixista Alan. Ao todo, foram dezenove pedradas e o frontman se comunicou em todos os intervalos, fosse tecendo algum comentário sobre a próxima música ou simplesmente citando seu título, exceções feitas às ausências de falas entre: Zé Ninguém e Massacre Inocente; e Violência E Sobrevivência e Fugitivo – respectivamente 14ª, 15ª, 16ª e 17ª do repertório.
As quatro, aliás, integram o EP Violência & Sobrevivência (82), tocado na íntegra e reembaralhado, uma vez que as duas últimas foram Os Punks Também Amam e O Punk Rock Não Morreu. Antes de Realidade, a primeira do set, o recado foi claro: “Aê, boa noite! Legal ver vocês aqui porque agora é hora de muita atitude, nenhuma violência e sobretudo diversão!”. Basicamente punk rock é o ato de contestar deste modo aí descrito, certo? Quer outro exemplo das interações de Moreno esbanjando humor crítico? Apartidário, ao anunciar Presidente, ele cravou: “Singela homenagem a todos que se sentam naquela maldita cadeira em Brasília, inclusive o atual”.
Acostumado a cobrir eventos de metal, este escriba se surpreendeu com a adesão punk! Impressionou a quantidade de gente adentrando à casa desde sua abertura a fim de curtir toda a festa e, em OMR (ou Ódio, Medo E Revolta), já tinha gente puxando roda. Durante Guerra Nuclear, sexta tocada, as dependências já estavam cheias e acima da expectativa para uma quarta-feira por volta de 19:50. Houve tempo e espaço para um cover de Buracos Suburbanos, do Psykóze, cujo clipe se baseia em I Wanna Be Sedated [https://www.youtube.com/watch?v=IAx9er_HLiA], dos Ramones. Seria muito interessante ver o grupo num show só deles e um pouco mais longo. Não custa ficar de olho e torcer por algo nesses moldes em breve.
Presente no backstage do The Adicts em 2019, de acordo com nossa cobertura referida acima, e na pista do Madball na Fabrique [https://onstage.mus.br/website/madball-06-03-26-fabrique] doze dias antes, sendo até nominalmente citado pelo vocalista Freddy Cricien, desta vez Supla foi para o palco mesmo, com meros treze minutos de intervalo e acompanhado dos Punks De Boutique. A maior dificuldade enfrentada tornou-se a frieza da platéia.
Dentro da estética esperada, a performance em si foi energética e alternou composições próprias com covers cativantes e curtos, tais como: As It Was (Harry Styles); Dancing With Myself, com bateria mais socada do que a versão do Generation X; Imagine, inusitada e acelerada em relação ao original de John Lennon; Beat On The Brat (Ramones), super bem tocada; e Stand By Me (Ben E. King).
Quem conhecia a versão original de 1996 de Trip Scene, do Psycho 69, ficou um pouco perdido quando Papito saudou a galera e emendou: “Vamos tocar um novo som agora que gravamos com uma banda chamada The 69 Eyes e ela se chama Fucking Trip Scene”. Disponibilizado em 02/02, o clipe [https://www.youtube.com/watch?v=16R9Iy-yrgQ] da regravação traz participações de Jyrki 69 e Bazie, membros do conjunto, e soou ótima. Porém, na boa, não há o “Fucking” no nome, é muito 69 (ou 96) pra lá e pra cá e acabou gerando confusão.
Mantendo o tema teoricamente impróprio para menores, foi no mínimo curioso ver Supla se despir de laços familiares e soltar um “Fodam-se os políticos” antes de Fuck Politics, uma vez que seu pai, Eduardo Suplicy, está na vida política desde 1978 e atualmente é deputado estadual, e sua mãe, Marta Suplicy, já foi deputada federal, prefeita da cidade e senadora.
Inaugurar o repertório com O Charada Brasileiro deveria ter ajudado a cativar, a clássica Green Hair (Japa Girl) foi a única em que Supla tocou violão e a cereja do bolo foi encerrar a apresentação com Humanos e Garota De Berlim, ambas de seus tempos de Tokyo, com participação especialíssima de Clemente Nascimento, do Inocentes, recuperado de problemas de saúde que o levaram à internação na Santa Casa de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 11/12/25 [https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/01/16/clemente-da-plebe-rude-e-inocentes-retorna-para-casa-apos-cirurgia-de-emergencia-em-ms.ghtml]. Embora a massa não tenha “comprado a idéia” e dado o merecido suporte, ao menos neste redator Supla despertou a vontade de um dia testemunhá-lo exclusivamente frente a seus fãs.
Trinta e sete minutos de espera e, por falta de uma intro, o The Adicts lançou mão de três. Melhor dizendo, ao longo de quase cinco minutos, dispararam uma trinca de trechos de: I Do Like To Be Beside The Seaside, de The Teddybears; Ouverture De Guillaume Tell, de Gioachino Rossini – ambos com as cortinas cerradas; e Music For The Funeral Of Queen Mary, de Henry Purcell (com direito a um sucinto mash-up com Blitzkrieg Bop, do Ramones), em que o adeus começou a ser, de fato, visualmente experimentado.
Em suma, assistir aos caras é mergulhar em detalhes. Afinal de contas, impacta a quantidade de brincadeiras que se empilham, quase todas protagonizadas pelo vocalista Keith “Monkey” Warren. Papo sério: num piscar de olhos você pode perder alguma coisa, fora as associações mentais que o espectador pode passar a estabelecer. Vejamos:
A mencionada terceira intro é a trilha da cena de abertura de A Clockwork Orange (71), ou seja, o momento em somos apresentados a Alex DeLarge, narrador e protagonista do filme, e a seus “droogs” [https://www.youtube.com/watch?v=OP157WMfOqo], Pete, Georgie e Dim, certamente de onde o grupo de Ipswich tirou inspiração para suas roupas todas brancas ao vivo. Além disso, lembramos: sua base de fãs é conhecida como Droog Army e seu terceiro disco se chama Smart Alex (85).
Para uma casa lotada, sem dar sold out, e num calorão, Let’s Go foi uma explosão de alegria e papéis picados prateados. De costas, como uma espécie de “pavão misterioso, pássaro formoso”, da letra de Pavão Mysteriozo, de Ednardo, Monkey abriu suas asas pretas e vermelhas, das quais se desfez ao concluí-la. Cantada tão em uníssono quanto sua antecessora e em total consonância com os naipes em seu paletó branco, o vocalista distribuiu cartas de baralho em Joker In The Pack. Sem querer queimar a largada, mas, superior a estas duas em popularidade na cantoria, apenas Viva La Revolution, bem mais à frente, com um mar de celulares erguidos, fazendo a pista pegar fogo de vez.
E se você se recorda das menções ao filme de Stanley Kubrick dois parágrafos acima, foi de All The Young Droogs (12), penúltimo álbum do catálogo, que o The Adicts retirou Horrorshow, a terceira do set. O jogo de palavras vem de All The Young Dudes, orginalmente gravada pelo Mott The Hoople [https://www.youtube.com/watch?v=yNHdPPJGowY], porém escrita por David Bowie e posteriormente por ele lançada na coletânea Rarestonebowie (95) [https://www.youtube.com/watch?v=umMIvPJnS8o] e também por Bruce Dickinson em seu début solo Tattooed Millionaire (90) [https://www.youtube.com/watch?v=OMiAkdIcDiM], para ficarmos em três versões famosas.
Mais macaquices do vocalista? Em Tango, ele abriu uma sombrinha com serpentinas e papel picado laminado dourado e prateado. Após 4 3 2 1, afirmou: “Agora temos mais alguns números”, aludindo a Numbers, na qual se viu renovada chuva de papéis picados – a título de curiosidade, alguns pedaços caíam na pista conforme o show do Kadavar se desenrolava três dias depois! Preparando-se para Troubadour e sofrendo com o calor, entregou o paletó e a cartola a um roadie (a maquiagem da testa já tinha derretido) e pegou um boneco que, visto de longe, parecia uma imitação em fantoche dele mesmo, posteriormente arremessado a algum sortudo da galera a levar para casa uma lembrança deveras peculiar.
Durante I Am Yours, Monkey fez voar dez corações brilhantes vermelhos com os dizeres “I Am Yours AKC” para a platéia. Em Angel, ele simplesmente se esqueceu de voltar a cantar, perdendo três versos (“You are an angel / A messenger of peace / You are the beauty”) e chegando ao ponto de Pete Dee dele tirar sarro. O guitarrista, aliás, até para oferecer uma chance de respiro geral, deu o ar da graça vez por outra e anunciou You’re All Fools como sua favorita. Nela, Monkey tocou pandeiro, devidamente doado em seu final e antes tirado de uma caixa decorada com um coração e deixada estrategicamente perto da bateria, certamente com todas as bugigangas que ele poderia precisar ao longo da noite.
Ao contextualizar The Odd Couple, ele explicou: “Aí vai uma música antiga, mas rara. Ela é sobre mim e minha garota da França. Começamos um romance e éramos um casal estranho”. Encerrada, ainda sobre a faixa, sintetizou: “Sabem, faz muito tempo”. Chegando a Just Like Me, bastante ramoniana, aliás, o relógio batia em uma hora com incríveis vinte músicas, das quais seria impossível comentar todas para não alongarmos o texto em demasia.
Mais gracejos? No começo de Who Spilt My Beer?, Monkey extraiu uma grande garrafa da “caixa mágica” ao lado do bumbo, perguntou se alguém queria cerveja, pegou um canecão inflável fazendo todos crerem que nele havia o mais delicioso suco de cevada, sinalizou virá-lo em sua cabeça e o que despejou, na verdade, foram serpentinas amarelas e papel picado – outra relíquia para o povo.
Crazy foi tão maluca, com o perdão do trocadilho, que rolou nova chuva de papel picado prateado com direito a duas intervenções de Pete Dee: “Vocês gostam de Elvis Presley?” e “E quanto a Gene Vincent And His Blue Caps? Gostam deles? Nós os adoramos”, antes de snippets de Can’t Help Falling In Love e Be-Bop-A-Lula. Preparando terreno para Chinese Takeaway, Monkey soltou fitas verdes e amarelas para o alto tiradas da “caixa mágica” e houve quem garantisse ter visto alguém no palco traçando comida chinesa, melhor ambientando a faixa e entrando na zoeira. Está lembrado sobre piscar e perder detalhes? Este que vos escreve simplesmente não viu esta parte, mas acredita piamente no depoimento do amigo ao lado.
You’ll Never Walk Alone foi um espetáculo à parte, com um imenso coração arremessado, além de incontáveis balões e/ou bolas brancas jogados para o público se divertir, uma das quais este repórter levou embora como souvenir. Symphony No. 9 In D minor, Op. 125 – IV. Finale (Ode To Joy) foi o final apoteótico sob a derradeira chuva de papel picado com ela em andamento. E se foram três intros, não seria somente uma outro, mas duas: Bring Me Sunshine, tema da série Morecambe & Wise, sobrenomes dos atores Eric Morecambe e Ernie Wise; e The Thieving Magpie (Abridged), também da trilha sonora de A Clockwork Orange.
E como querer competir com registros de vídeo seria tremenda burrice, informamos que uma boa alma subiu o show inteiro para o YouTube [https://www.youtube.com/watch?v=0njQLVZImm4]. Agora, de coração? Ficou difícil de acreditar que eles nunca mais regressarão a São Paulo para alimentar nosso vício…
Setlists
Lixomania – 42’ (Programado: 19:30 / Real: 19:38 – 20:20)
Moreno (vocal), Ramon Guilherme (guitarra), Alan (baixo) e Bruno Mendes (bateria)
01) Realidade
02) Quero Ser Livre
03) OMR
04) Presidente
05) Gerente
06) Guerra Nuclear
07) Punk!
08) Escravo Moderno
09) Estado De Sítio
10) Delinqüentes
11) Buracos Suburbanos [Psykóze]
12) Vida Ruim
13) Grito De Ódio
14) Zé Ninguém
15) Massacre Inocente
16) Violência E Sobrevivência
17) Fugitivo
18) Os Punks Também Amam
19) O Punk Rock Não Morreu
Supla & Os Punks De Boutique – 43’ (Programado: 20:30 / Real: 20:33 – 21:16)
Supla (vocal), Henrique Cabreira (guitarra), Edu Hollywood (baixo), Mateus Schanoski (teclados) e Filipe Lima (bateria)
01) O Charada Brasileiro
02) As It Was [Harry Styles]
03) Suplaego
04) Dancing With Myself [Generation X]
05) Trip Scene [Psycho 69]
06) Você Não Vai Me Quebrar
07) Cenas De Ciúmes
08) São Paulo
09) Imagine [John Lennon]
10) Fuck Politics
11) Green Monsters
12) Green Hair (Japa Girl)
13) Ratazana De Iphone
14) Beat On The Brat [Ramones]
15) Porque Eu Só Quero Comer Você
16) Stand By Me [Ben E. King]
17) Humanos [Tokyo] [Com Clemente Nascimento]
18) Garota De Berlim [Tokyo] [Com Clemente Nascimento]
The Adicts – 1h36’ (Programado: 21:40 / Real: 21:53 – 23:29)
Keith “Monkey” Warren (vocal), Pete “Pete Dee” Davison e Highko Strom (guitarras),Kiki Kabel (baixo e estreando na banda), Michael “Kid Dee” Davison (bateria)
Intro 1: I Do Like To Be Beside The Seaside [The Teddybears]
Intro 2: Ouverture De Guillaume Tell [Gioachino Rossini]
Intro 3: Music For The Funeral Of Queen Mary [Henry Purcell]
01) Let’s Go
02) Joker In The Pack
03) Horrorshow
04) Tango
05) Don’t Exploit Me
06) Johnny Was A Soldier
07) How Sad
08) 4 3 2 1
09) Numbers
10) Troubadour
11) I Am Yours
12) Angel
13) Telepathic People
14) Daydreamers Night
15) Fucked Up World
16) You’re All Fools
17) Rockin’ Wrecker
18) The Odd Couple
19) My Baby Got Run Over By A Steamroller
20) Just Like Me
21) Who Spilt My Beer?
22) Fuck It Up
23) Crazy [Snippets De: Can’t Help Falling In Love, de Elvis Presley; e Be-Bop-A-Lula, de Gene Vincent And His Blue Caps]
24) Chinese Takeaway
25) Bad Boy
26) Viva La Revolution
27) You’ll Never Walk Alone [Rodgers & Hammerstein]
28) Symphony No. 9 In D minor, Op. 125 – IV. Finale (Ode To Joy) [Ludwig Van Beethoven]
Outro 1: Bring Me Sunshine [Morecambe & Wise]
Outro 2: The Thieving Magpie (Abridged) [Gioachino Rossini]


































