ENTREVISTA | Dregen: uma vida movida a rock’n’roll e energia

Guitarrista e fundador do Backyard Babies e The Hellacopters fala ao Sonoridade Underground sobre sua recuperação, a primeira turnê solo pela América do Sul, o novo álbum e os planos para o futuro

Entrevista por Jessica Valentim – @jessvlntm

Foto: Divulgação

Poucos artistas conseguem construir uma identidade tão imediatamente reconhecível dentro do rock quanto Dregen. Guitarrista, compositor, artista plástico e uma das figuras mais emblemáticas do rock sueco, ele ajudou a fundar duas bandas fundamentais para a cena escandinava: Backyard Babies e The Hellacopters. Ao longo da carreira, também passou por projetos como a banda de Michael Monroe e desenvolveu uma trajetória solo que lhe permite explorar sonoridades e ideias que nem sempre caberiam dentro de uma banda.

Agora, Dregen está de volta ao Brasil. O músico se apresenta no dia 11 de outubro, no Manifesto Bar, em São Paulo, em um show que marca sua primeira turnê solo pela América do Sul. E o momento não poderia ser mais significativo. O artista passou os últimos anos enfrentando um período particularmente difícil depois de sofrer um grave acidente que deixou sua mão fraturada em diversos pontos e exigiu três grandes cirurgias.

Em conversa exclusiva com o Sonoridade Underground, Dregen falou sobre a recuperação, a relação com a guitarra, os planos para um novo álbum solo, o futuro de Backyard Babies e The Hellacopters, suas influências e também sobre outras formas de expressão artística que passaram a ocupar um espaço ainda maior em sua vida.

“Estou escrevendo músicas para um novo álbum solo e me preparando para descer para a América do Sul para tocar para vocês. Estou realmente muito animado”, conta.

A empolgação tem uma razão especial. Para Dregen, voltar à América do Sul significa também retomar uma relação interrompida de maneira inesperada. A última passagem pelo Brasil aconteceu com The Hellacopters, em São Paulo, justamente no fim de semana em que a pandemia começou a mudar completamente a rotina do mundo.

Ele se lembra perfeitamente daquele momento. Pouco antes de a banda entrar no palco, o empresário da turnê chegou com a notícia de que as autoridades de saúde recomendavam que o show não acontecesse. O problema era que o público já estava ali, a casa estava pronta e ninguém sabia exatamente o que aconteceria nas horas seguintes.

“Todo mundo estava lá, a multidão estava lá, todo mundo estava pronto para ir. Eu não queria ser o único a dizer: ‘Ah, temos que cancelar o show’”, relembra.

O show aconteceu. No dia seguinte, porém, a realidade mudou completamente. A banda quase ficou presa no Brasil e precisou encontrar uma maneira de voltar à Europa, passando por Lisboa antes de finalmente chegar à Suécia. Depois disso, vieram quase dois anos sem shows. Agora, Dregen volta justamente ao cenário onde tudo isso aconteceu.

Estou de volta à cena do crime novamente”, brinca.

 (The Hellacopters ao vivo em São Paulo, 14 de março de 2020)

Mas o período longe dos palcos não terminou quando os shows voltaram a ser possíveis. Foi justamente nesse momento que outro obstáculo apareceu. O acidente com a mão fez com que ele precisasse interromper novamente as turnês e reaprender a lidar com um instrumento que toca praticamente desde a adolescência.

“Eu sempre toquei música. Nunca fiz outra coisa. Estou em turnê desde que tinha mais ou menos 16 ou 17 anos”, explica.

A recuperação foi longa e emocionalmente difícil. Depois da primeira cirurgia, veio a expectativa de que finalmente poderia voltar a tocar. Então veio a necessidade de uma segunda intervenção. Depois, uma terceira.

“É muito doloroso e acaba com a sua mente, porque parece uma história sem fim. Mas agora estou de volta. Eu diria que estou quase 90%”, afirma.

Ele ainda faz exercícios de reabilitação três vezes por semana e admite que a lesão mudou sua maneira de tocar. Dois dedos ainda não recuperaram completamente a sensibilidade, algo particularmente complicado para um guitarrista. Por enquanto, Dregen vem se adaptando à sua “nova mão” e modificando algumas de suas técnicas.

“Eu toco um pouco mais de guitarra rítmica hoje em dia do que solo. Só preciso mudar um pouco a maneira como estou tocando.”

A adaptação também aparece quando ele revisita músicas que gravou com Backyard Babies e The Hellacopters. Para quem conhece os discos, reproduzir determinados solos exatamente nota por nota ainda não é possível. Mas isso não parece necessariamente ser encarado por ele como um problema.

“Eu realmente não gosto de guitarristas que tocam exatamente a mesma coisa o tempo todo”, admite, deixando claro que talvez a própria limitação física também possa abrir espaço para novas interpretações.

É nesse ponto que sua carreira solo ganha importância. O novo álbum que está sendo preparado será mais uma oportunidade para o artista explorar caminhos diferentes daqueles associados às suas duas bandas mais conhecidas.

Ele cita “Flat Tyre on a Muddy Road”, de seu primeiro álbum solo, como um exemplo de algo que dificilmente imaginaria fazendo com Backyard Babies ou The Hellacopters. Blues, funk, R&B e jazz aparecem entre as influências que podem ser percebidas em seu trabalho individual.

“Nas coisas solo eu realmente não tenho limites. Eu simplesmente vou em frente.”

(Dregen – “Flat Tyre on a Muddy Road”)

E, apesar de não haver ainda um plano definitivo para Backyard Babies, Dregen deixa claro que a história da banda está longe de terminar. “Não acabou. Nunca vai acabar, graças a Deus”, afirma, antes de revelar que gostaria de voltar a excursionar com a formação original dentro de aproximadamente um ano e, quem sabe, trazer novamente a banda para a América do Sul.

Enquanto isso, sua primeira turnê solo sul-americana terá uma característica inédita: uma banda argentina será responsável por acompanhá-lo. Os músicos já cruzaram caminhos anteriormente, quando abriram shows do Backyard Babies, e agora passarão uma semana ensaiando antes do início da turnê. O repertório também promete funcionar como uma espécie de retrospectiva de sua trajetória.

“Vai ser como uma mixtape de melhores momentos”, resume.

A relação com Michael Monroe é, aliás, uma das muitas conexões que ampliam a trajetória de Dregen para além das duas bandas pelas quais se tornou mais conhecido. Quando questionado sobre possíveis colaborações futuras, ele mantém alguns nomes em segredo — há artistas que estarão envolvidos no próximo álbum solo, mas ainda não podem ser revelados. Entre os nomes com quem gostaria de trabalhar, porém, estão Dave Grohl e Josh Homme.

“Eu e Dave Grohl poderíamos fazer uma boa música juntos. Ou talvez eu e Josh Homme, do Queens of the Stone Age. Isso poderia funcionar bem também”, imagina.

Se pudesse montar uma banda dos sonhos sem qualquer limitação — com músicos vivos ou mortos — a escalação seria igualmente improvável: John Bonham na bateria, Keith Richards na guitarra, Joan Jett em uma terceira guitarra, Lemmy no baixo e Little Richard no piano. Os vocais e uma das guitarras ficariam, naturalmente, com o próprio Dregen. A escolha ajuda a explicar parte da personalidade musical que ele construiu ao longo das décadas. Quando perguntado sobre quais discos fizeram com que quisesse pegar uma guitarra e se tornar músico, dois álbuns aparecem imediatamente: “Nevermind the Bollocks”, dos Sex Pistols, e “Alive II”, do KISS. “Se não fosse o KISS, eu não estaria sentado aqui fazendo esta entrevista hoje. Eles significaram muito para mim quando eu era criança.”

A criatividade de Dregen, entretanto, não se limita à música. Nos últimos anos, enquanto enfrentava as limitações impostas pela lesão, ele também passou a dedicar mais tempo à pintura e à criação de móveis. E, para ele, essas atividades não estão separadas da composição. “Para mim, pintar é como escrever uma música ou escrever letras. Acho que tudo vai junto.”

Essa relação entre som e imagem parece especialmente importante para um artista que sempre esteve associado a uma estética tão marcante. Dregen acredita que a música e a arte que a acompanha precisam conversar entre si e que uma boa capa pode fazer parte da própria experiência de um álbum. Talvez seja justamente essa capacidade de transitar entre diferentes formas de expressão que ajude a explicar a longevidade de sua carreira. Depois de décadas entre Backyard Babies, The Hellacopters, Michael Monroe e seus trabalhos solo, ele ainda encontra novas maneiras de criar — seja com uma guitarra na mão, diante de uma tela ou construindo um sofá.

E, quando chega a hora de definir o que gostaria que permanecesse como sua contribuição ao rock, Dregen não escolhe uma música específica, um disco ou uma banda. A resposta é muito mais simples.

“Energia.”

É uma palavra que resume bem uma carreira construída em torno do rock’n’roll, mas também parece definir o momento atual de Dregen: depois de anos de interrupções, cirurgias e incertezas, ele está novamente compondo, tocando, criando e, finalmente, voltando à estrada.

Entrevista completa em vídeo:

Serviço – Dregen em São Paulo

11 de outubro – domingo

Local: Manifesto Bar – Rua Ramos Batista, 207 / Vila Olímpia

Abertura: Bastardz e Corazones Muertos

Ingressos: https://www.clubedoingresso.com/evento/dregendobackyardbabies-thehellacopters

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