Bloodbath, The Haunted, NervoChaos e Warshipper entregam noite de peso extremo em São Paulo.

Com estreia histórica do Bloodbath no Brasil, retorno do The Haunted após 18 anos e apresentações marcantes de NervoChaos e Warshipper, noite reuniu diferentes gerações e vertentes do metal extremo em São Paulo

Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)

O Carioca Club, em São Paulo, foi tomado pelo peso, pela velocidade e pela brutalidade do Death Metal na noite de 8 de setembro de 2026. Em uma terça-feira que poderia sugerir uma plateia mais contida, o que se viu foi justamente o contrário: quatro bandas entregaram apresentações intensas, enquanto o público respondeu com mosh pits, gritos e muita participação ao longo de toda a noite.

A programação reunia quatro momentos particularmente importantes para o metal extremo. O Warshipper apresentava material de seu próximo trabalho, Antagonist; o NervoChaos celebrava três décadas de carreira e preparava o lançamento de Chaosmongers; o The Haunted retornava ao Brasil depois de 18 anos; e, encerrando a noite, o Bloodbath finalmente fazia sua estreia em território brasileiro. A própria organização havia planejado horários antecipados justamente por se tratar de uma terça-feira.

O resultado foi uma noite que funcionou não apenas como uma sequência de shows, mas como uma espécie de panorama do Death Metal: a força da cena nacional abrindo caminho para dois nomes fundamentais da escola sueca.

Warshipper: brutalidade e precisão no início da noite

Quando o Warshipper subiu ao palco, às 18h30, o Carioca Club ainda estava longe de sua lotação máxima. Isso, entretanto, não impediu a banda de Sorocaba de entregar uma apresentação que rapidamente mudou a atmosfera do local.

Desde os primeiros minutos, ficou evidente que a quantidade de pessoas diante do palco não determinaria a intensidade da apresentação. O Warshipper entrou em cena com uma energia descomunal, sustentando um Death Metal agressivo, técnico e extremamente pesado.

A abertura com “Barren Black” funcionou como uma declaração de princípios. A música, lançada como uma homenagem ao próprio Death Metal e aos headbangers brasileiros, encontrou no palco um ambiente ideal para sua proposta. A banda não precisou de grandes recursos cênicos para chamar atenção: a força estava na execução.

Na sequência, “Glowworm Dragon” manteve a apresentação em alta rotação. O peso das guitarras e a intensidade da bateria deram continuidade ao clima brutal, enquanto a banda demonstrava segurança mesmo diante de uma plateia que ainda estava chegando ao clube.

“All Hail the Metal of Death”, outro destaque do repertório, reforçou uma das características líricas do Warshipper, marcada por uma perspectiva ateísta e materialista. Musicalmente, a faixa mostrou novamente como o grupo consegue combinar agressividade e construção instrumental sem transformar a técnica em mero exercício de virtuosismo.

Em “Numb – Pleasures of Possession”, a comunicação com o público ganhou ainda mais espaço. Mesmo com a brutalidade do som, o Warshipper não adotou uma postura distante. Pelo contrário: entre uma música e outra, havia agradecimentos, brincadeiras e interação, criando uma relação direta com quem estava diante do palco. Na sequência tivemos a brutal “Respect!”, mostrando que a banda não esta ali para brincadeira.

O encerramento com “Warshipper” sintetizou bem a proposta da apresentação. Foram apenas 35 minutos, mas suficientes para deixar uma impressão bastante clara: a banda está em um momento de grande maturidade e continua se consolidando como uma das forças do Death Metal brasileiro.

O show ainda teve um significado adicional por funcionar como pré-lançamento de Antagonist, próximo trabalho do grupo. A banda, que já acumula 15 anos de carreira, quatro álbuns de estúdio e passagens por importantes festivais e turnês internacionais, chega a essa nova fase demonstrando que ainda possui muito a oferecer.

NervoChaos: 30 anos de história celebrados com brutalidade

Se o Warshipper representava a força contemporânea do metal extremo nacional, o NervoChaos carregava para o palco três décadas de história.

Com Edu Lane nos vocais, Jean Forrer, da Laboratori, na bateria, Guiller Cruz e Marco Antonio Duarte, da Decomposed God, nas guitarras, e Daniel Funke no baixo, a formação apresentou uma banda que, mesmo após tantos anos de estrada, permanece disposta a avançar.

O repertório começou com “Necroccult”, estabelecendo imediatamente o caráter sombrio da apresentação. A música abriu espaço para “Demonic Juggernaut”, mantendo a velocidade e o peso que são marcas registradas do grupo.

“Ritualistic” e “Pazuzu Is Here” aprofundaram a atmosfera obscura, enquanto “Total Satan” levou a apresentação para um território ainda mais agressivo. O NervoChaos não tentou suavizar sua proposta para uma ocasião especial: pelo contrário, celebrou seus 30 anos fazendo exatamente aquilo que construiu sua reputação.

Em “Dragged to Hell”, a banda voltou a apostar na combinação de velocidade e peso. Já “Feast of Cain” manteve o ritmo elevado e ajudou a transformar o repertório em uma sequência praticamente ininterrupta de violência sonora.

“Shadows of Destruction” trouxe outro momento de intensidade, seguida por “The Mark of the Beast”, que reforçou o caráter sombrio do set.

A reta final veio com “For Passion Not Fashion”, “Moloch Rise” e “To the Death”. As três faixas funcionaram como uma conclusão coerente para um repertório que atravessou diferentes momentos da trajetória da banda sem perder sua identidade.

A banda esta para lançar o seu 14º álbum de estúdio, o “Chaosmongers” que será lançado dia 13 de Novembro Black Lion Records e no Brasil pela Tumba Productions. O disco reúne 12 faixas e expande a abordagem da banda para temas relacionados ao caos, transformação, ocultismo e resiliência humana, além de contar com uma homenagem ao Ratos de Porão.

O primeiro single, “Embrace Chaos”, lançado naquela semana, representa justamente essa nova etapa.

Mais do que simplesmente abrir caminho para as atrações internacionais, o NervoChaos ocupou seu espaço como um dos nomes históricos do metal extremo brasileiro. Trinta anos depois do início da trajetória, a banda continua encontrando maneiras de manter sua música relevante.

The Haunted: 18 anos depois, uma apresentação para ficar na memória

Às 20h10, com o Carioca Club já bastante cheio, chegava um dos momentos mais aguardados da noite.

O The Haunted retornava ao Brasil depois de 18 anos. Para muitos dos presentes, portanto, aquela apresentação carregava um peso diferente. Não era apenas mais um show internacional: era a oportunidade de reencontrar uma banda que marcou profundamente a história do metal extremo e que permaneceu longe dos palcos brasileiros por quase duas décadas.

A escolha de “Warhead” para iniciar o repertório foi certeira. A música colocou o público imediatamente em movimento e estabeleceu o padrão de intensidade que seria mantido durante toda a apresentação.

“In Fire Reborn” e “99” deram continuidade ao ataque, enquanto “Trespass” manteve a combinação de agressividade e groove característica do grupo.

O primeiro “Interlude” serviu como breve respiro antes de “The Flood”, seguida por “The Medication” e “D.O.A.”. A banda demonstrava estar completamente afiada, sem qualquer queda de energia.

“Time (Will Not Heal)” e “Hell Is Wasted on the Dead” mantiveram o repertório pesado e coeso. Em seguida, “To Bleed Out” voltou a colocar o público em movimento, preparando o terreno para pedrada “No Compromise”.

A comunicação entre palco e pista era impressionante. O vocalista Marco Aro estava sorridente, comunicativo e constantemente incentivava o público a abrir rodas de mosh. E os pedidos eram prontamente atendidos.

Patrik Jensen, Ola Englund e Jonas Björler, este último ex-integrante do At the Gates, demonstravam uma enorme interação com a plateia. Entre caras e bocas diante do público, os guitarristas ajudavam a transformar a apresentação em algo muito mais visual.

Atrás da bateria, Adrian Erlandsson, também ex-At the Gates, parecia uma máquina. Sua execução era precisa e extremamente vigorosa, sustentando as mudanças de velocidade e os momentos mais agressivos do repertório.

A sequência “In Vein”, “Death to the Crown”, “Undead” e “Hollow Ground” mostrou justamente essa capacidade da banda de alternar diferentes intensidades sem perder coesão.

Quando “Dark Intentions” começou, o público já estava completamente entregue. A música serviu como preparação para “Bury Your Dead” uma das minhas favoritas, e a rápida e pesada “Hate Song”, duas faixas que elevaram novamente o nível de agressividade.

Mas o The Haunted ainda tinha mais.

No encore, All Against All” a minha favorita da banda, trouxe uma explosão final de energia, antes de “Bullet Hole” encerrar a apresentação.

O que poderia ter sido apenas uma boa apresentação de uma banda que retornava ao país depois de quase duas décadas se transformou em um dos grandes momentos da noite.

As rodas de mosh não pararam. Para uma terça-feira, a resposta do público foi surpreendentemente intensa. E havia algo particularmente bonito na pista: fãs antigos cantando cada palavra ao lado de pessoas que provavelmente estavam descobrindo o The Haunted naquele momento.

O grupo apresentou músicas de diferentes fases da carreira, mas também mostrou por que continua relevante. O repertório contemplou o álbum mais recente, Songs of Last Resort, lançado em 2025 pela Century Media após oito anos sem um novo trabalho, sem abandonar músicas fundamentais de sua trajetória.

Para quem acompanha a banda há décadas, havia ainda uma dimensão emocional impossível de ignorar. Ver o The Haunted finalmente no Brasil era a realização de um desejo antigo. E, para quem estava diante do palco naquela noite, o sentimento era compartilhado: depois de 18 anos, a espera havia terminado.

Bloodbath: a estreia brasileira transforma o Carioca Club em um pesadelo

Se o The Haunted havia colocado o público em estado de ebulição, o Bloodbath tinha a missão de encerrar a noite. O álbum mais recente do grupo, Survival of the Sickest, lançado em 2022 pela Napalm Records, mantém justamente essa conexão com a tradição do Death Metal.

Às 21h50, pontualmente, as luzes baixaram. O palco foi tomado por uma iluminação vermelha e, pouco depois, o Bloodbath apareceu.

A atmosfera mudou completamente.

A banda transformou o Carioca Club em um cenário de horror, perfeitamente alinhado com o universo lírico do grupo. Não havia necessidade de grandes discursos: a combinação entre iluminação, som e presença de palco criava uma atmosfera sufocante.

E havia um elemento histórico naquela apresentação: o Bloodbath estava fazendo sua primeira apresentação no Brasil. Uma banda fundamental do Death Metal sueco, formada por músicos ligados a importantes nomes da cena extrema, finalmente estava diante do público brasileiro. A expectativa era enorme, e a resposta da banda correspondeu.

A formação que desembarcou no Brasil reúne alguns dos nomes mais respeitados do metal extremo. Nos vocais está Nick Holmes, também frontman do Paradise Lost, acompanhado por Anders Nyström, ex-Katatonia, na guitarra; Martin “Axe” Axenrot, ex-Opeth, na bateria; e Joakim Antman, do Lik, no baixo.

O caráter de “time de estrelas” atribuído ao Bloodbath não é por acaso. Ao longo de sua trajetória, a banda contou com músicos de enorme importância para o death metal e gêneros extremos, incluindo Mikael Åkerfeldt, do Opeth, Dan Swanö, do Edge Of Sanity, e Peter Tägtgren, do Hypocrisy.

“So You Die” abriu o repertório de maneira devastadora. A escolha não poderia ser mais direta. O Bloodbath entrou em campo sem concessões, entregando Death Metal old school com uma sonoridade pesada e agressiva.

“Breeding Death” manteve a velocidade, enquanto “Carved” reforçou o caráter sombrio da apresentação.

A sequência seguiu com “Soul Evisceration” e “Like Fire”, duas faixas que mantiveram o público em permanente movimento. A banda parecia completamente à vontade no palco.

Em “Outnumbering the Day”, o peso ganhou uma dimensão ainda mais arrastada e ameaçadora. Logo depois, “Putrefying Corpse” devolveu ao repertório a velocidade e a violência características da banda.

“Cancer of the Soul” e “Brave New Hell” mantiveram a apresentação em um nível altíssimo. Não havia espaços mortos: cada música funcionava como uma nova camada de brutalidade.

Então veio “Mock the Cross”, seguida por “Fleischmann” e “Let the Stillborn Come to Me”. Nesse momento, o Bloodbath já havia conquistado completamente o público.

No centro de tudo estava Nick Holmes, conhecido mundialmente como vocalista do Paradise Lost. Inicialmente mais tímido, Holmes foi se soltando progressivamente. Entre uma música e outra, revelou seu conhecido humor britânico e passou a interagir mais com os fãs.

Um dos momentos mais curiosos aconteceu durante “Cry My Name”. Holmes improvisou um avião de papel utilizando o setlist e o lançou para o público. O objeto, porém, voltou para o próprio palco, provocando risadas tanto do vocalista quanto da plateia.

Era um pequeno momento de descontração dentro de uma apresentação dominada pela escuridão.

Na bateria, Martin Axenrot parecia operar em outro nível. Seus blast beats eram executados com tamanha precisão que, em determinados momentos, pareciam fáceis. Mas havia uma enorme quantidade de técnica e controle por trás daquela aparente facilidade.

A apresentação chegou ao encore com “Cry My Name”, que proporcionou o episódio do avião de papel, e terminou com “Eaten”.

A escolha de “Eaten” para fechar a estreia brasileira foi praticamente perfeita. Uma das músicas mais conhecidas do catálogo do grupo encerrou uma noite que já havia atravessado diferentes gerações do Death Metal.

O show do Bloodbath não precisou de exageros para funcionar. A banda entregou exatamente aquilo que o público esperava: Death Metal pesado, sombrio, agressivo e tecnicamente impecável.

No palco, entretanto, o Bloodbath mostrou que sua força não está apenas na nostalgia. Existe uma identidade própria, uma atmosfera particular e uma capacidade impressionante de transformar uma casa de shows em um ambiente completamente diferente.

Ao final da noite, o público saiu do Carioca Club com a sensação de ter testemunhado algo especial.

Quatro bandas, quatro momentos distintos e diferentes gerações do metal extremo compartilhando o mesmo palco. Da experiência acumulada pelo NervoChaos à ascensão do Warshipper; do retorno aguardado do The Haunted à estreia histórica do Bloodbath.

E, acima de tudo, uma noite em que o público mostrou que, mesmo em uma terça-feira pós-feriado, ainda existe espaço, e muita disposição, para o Death Metal.

O Carioca Club não foi apenas palco de quatro shows.

Naquela noite, tornou-se território do metal extremo.

THE HAUNTED – SETLIST – CARIOCA CLUB – 08/09/26

  1. Warhead
  2. In Fire Reborn
  3. 99
  4. Trespass
  5. The Flood
  6. The Medication
  7. D.O.A.
  8. Time (Will Not Heal)
  9. Hell Is Wasted on the Dead
  10. To Bleed Out
  11. No Compromise
  12. In Vein
  13. Death to the Crown
  14. Undead
  15. Hollow Ground
  16. Dark Intentions
  17. Bury Your Dead
  18. Hate Song
  19. All Against All
  20. Bullet Hole

BLOODBATH – SETLIST – CARIOCA CLUB – 08/09/26

  1. So You Die
  2. Breeding Death
  3. Carved
  4. Soul Evisceration
  5. Like Fire
  6. Outnumbering the Day
  7. Putrefying Corpse
  8. Cancer of the Soul
  9. Brave New Hell
  10. Mock the Cross
  11. Fleischmann
  12. Let the Stillborn Come to Me
  13. Cry My Name
  14. Eaten
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