Sonoridade Entrevista: Sangue de Bode

Antes de mais nada, vamos começar pelo começo: qual a origem de vocês e da banda, de onde vieram? Contem-nos um pouco sobre o começo do Sangue de Bode e como surgiu a ideia de montarem a banda.

VERME: Fala galera! Primeiramente muito obrigado pelo convite e pelo espaço, simplesmente foda. Bom, começando pelo começo, a banda se iniciou através da iniciativa conjunta minha (Verme) e do Sinuê, que já participávamos juntos de outros projetos pregressos. O primeiro funcionamento da banda foi no formato de Duo, onde já compúnhamos e tocávamos, até a entrada do Nekrose em 2018 e a gravação do nosso primeiro trabalho oficial, já como trio. O projeto foi fundado em Miguel Pereira, cidade natal de 2 integrantes e ponto chave para que tudo aconteça. Hoje seguimos em quarteto com a entrada do Zé, e felizes por estrear nos palcos com esse formato. Todos já tocaram e tocam com outros projetos, juntos ou não, mas nós 4 como Sangue de Bode temos explorado uma forma de experimentar música que tem sido muito boa pra gente como grupo. Seguiremos.

Sabemos que o cenário carioca tem ótimas bandas dos mais variados segmentos musicais, compartilhem um pouco do contexto de onde vieram, contando sobre a cena, das bandas e a galera que vocês estão envolvidos.

VERME: Com certeza o RJ tem muita banda irada. Nekrose sempre foi o mais envolvido no movimento das bandas e dos roles, por morar na Capital. Eu já toquei por lá algumas vezes com outras bandas que tive quando era mais novo, mas não tenho muita propriedade para falar de uma cena em si. Sou bem caipira mesmo, não curto metrópole e nunca colei muito em nada por motivos pessoais. Porém, nos meus roles eu lembro de bandas que curti muito, e segundo o próprio Nekrose, a cena do RJ é muito diversificada. É difícil rolar algum evento de um só gênero musical, varias bandas como a Nefarioüs D-saster (Crust), Utsu (Grindcore), Clava (HC), Anguish From the Vanitas (Stoner/Doom), Loneshore (Death Progressivo) já dividiram o mesmo role e isso é bem massa, fora o Liträo que é outra banda do rio que eu curto demais e que o Nekrose também toca. Enfim, o Rio tá vivão.

De onde veio o nome “Sangue de Bode” para banda e como surgiu a ideia de fazer essa sonoridade de vocês?

VERME: O nome da banda na nossa visão é uma “expressão” de fácil entendimento, te remete diretamente a algo visceral e vermelho. Sangue de Bode não deixa de estar no imaginário e na memória como algo relacionado à bruxaria, paganismo, morte e etc. Todo esse universo é interessante, de certa forma inspirador, filmes são muito inspiradores, e no fim das contas foi o nome que soou verdadeiro pra nós. Ele foi pensado ainda na época do Duo. Quanto ao som da banda, sempre senti muito natural. Nós temos influências idênticas e ao mesmo tempo influências muito diferentes e o desespero do momento, das memórias, da forma como foi feito, acabou se agregando à nossa forma de compor e tocar. A gente gosta de experimentar e é muito satisfatório pra gente fazer esse som juntos.

Essa mescla de sons que vocês fazem, que traz elementos do Hardcore, do Grind, do Metal Extremo – e evidentemente do Black Metal, ajudou a banda ou chegou a atrapalhar vocês? Pois sabemos que têm pessoas de cabeça fechada em qualquer vertente.

VERME: Como eu comentei, acho que a nossa sonoridade e essa mescla rola de forma muito natural pra gente, por conta de tantas influências diversas, e também as que temos em comum, notoriamente o black metal é uma delas. Existem muitas formas de se expressar sonoramente através do metal, a música é algo que permite infinitas possibilidades, e nós sempre tentamos usufruir o máximo de todas elas. Isso tem sido algo que na minha visão tem ajudado mais do que atrapalhado, pelo menos pelo que eu vejo a galera teve uma receptividade legal com nosso som e isso deixa a gente feliz e realizado. Quanto á pessoas de “cabeça fechada”, a gente sempre espera que curtam nosso som né, mas se o som não for pra essa pessoa tudo bem também. Música é infinito e alguma coisa no mundo ela vai curtir.

Aproveitando que citei Black Metal ali propositalmente, agora é a hora de um pouco de polêmica. Temos visto nos últimos anos as máscaras caírem de alguns integrantes e bandas, onde vêm a público ligações com grupos racistas, o que dificulta ouvir estas bandas, afinal não rola dar ibope pra racista. Vocês têm algo pra compartilhar a respeito do assunto?

VERME: Ótima pergunta. Sim, o Black Metal é um gênero que carrega esse estigma desconfortável e intolerável. Falando pelo Sangue de Bode, a nossa influência obviamente explicita do Black Metal vem diretamente da sonoridade, e das possibilidades artísticas sonoras e visuais que o estilo carrega, totalmente alheia a qualquer ideologia imbecil que esse ou qualquer outro gênero possa carregar. Enfim, acho que a parte do BM que mais influencia a banda na questão temática é a depressão e o terreno que permite uma dissecação sincera e explícita sobre coisas escrotas e doença. O visual carregado obviamente também é uma influência forte, mas não necessariamente por esse movimento, mas por artistas que procuram explorar a arte além do som, como Kiss, Robert Smith ou até mesmo Slipknot. É uma forma de expressão que nos amarramos e não vemos motivo para não usar. Outro fator bacana de deixar registrado aqui é que muitos veículos tem divulgado e organizado curadorias e playlists de bandas de BM pra ouvir sem medo de papo torto, bandas depressivas ou antifascistas, ou os dois, enfim só procurar por ai.

Vocês lançaram o primeiro CD – “A Sombra que me acompanhava era a mesma do Diabo” – em Fevereiro de 2020, um mês antes de estourar a pandemia de verdade por aqui e o segundo – “Seja Bem-vindo de Volta pra Cruz” – em Novembro de 2021. Ou seja, não tiveram tempo de tocar, ir pra estrada divulgar os sons. Como tem sido a aceitação do público, uma vez que basicamente vocês usaram dos meios digitais pra divulgar o trabalho?

VERME: Exatamente, lançamos nosso primeiro trabalho sem imaginar que a coisa ia desandar dessa forma. E pelo mesmo motivo, estar numa situação de merda, vendo tudo na merda e as pessoas na merda, era meio inevitável não lançar um disco novo. Foi chato não ter a possibilidade de divulgar o som ao vivo por tanto tempo, mas só temos a agradecer. Nunca pensamos na receptividade foda e dos amigos brabos que fizemos com tudo isso. Mesmo em meio à pandemia não nos faltaram oportunidades de estar conectados com geral que se identificou, e ainda tivemos a honra de mostrar nosso trabalho ao vivo em 2 veículos fodas, a convite do Canal Scena e do Showlivre, podendo assim estar ao vivo com a galera de certa forma. Fora os festivais online que amigos nos convidaram e pudemos ter espaço. Agora a meta é tocar ao vivo, falta pouco, e estamos muito animados.

Acho muito interessante como conseguem intercalar as críticas sociais com a crítica a religião cristã em suas letras, uma vez que Igreja e Estado são constituintes na manutenção da dominação do Capital. Gostaria de destacar um trecho da música “A Praga Humana” do primeiro cd de vocês: “E se cristo voltar / Que volte preparado / Para ser assassinado / Pela praga humana”. Compartilhem um pouco sobre o processo de composição da banda e como funciona pra vocês.

VERME: Bom, eu como o mais responsável pela parte lírica da banda, confesso que não sou o cara mais ligado do mundo em muita coisa. Acho até interessante ver a galera comentando sobre o seu entendimento das letras e as vezes ate me ensinando algo sobre o que eu escrevi que nem mesmo eu havia interpretado. As críticas, seja ao Estado ou à Religião, e as faixas mais políticas da banda, assim como todo o resto é algo que sai naturalmente de mim. É tipo “se ta ali então é isso que eu penso”. Eu não sou o cara mais entendido de todos ou com propriedade pra explicar sociologicamente as mensagens, a cabeça é muito ocupada lidando com meus problemas, traumas e desesperos e é sobre isso que eu escrevo, e todo meu discurso sai no meio desse bolo da frustração. Na minha visão, a intenção é passar a mensagem e expurgar a aflição da forma mais explícita e chocante possível, se nasci imerso numa cultura cristã, o choque é ir contra isso. Se nasci pobre num país totalmente desigual, obviamente esse choque também estará no meio da zona das minhas ideias. Os brainstorm de palavras e títulos sempre ta rolando entre a gente, mas as letras em si nunca são pré pensadas em relação ao tema.

Aqui vai uma curiosidade: o primeiro cd de vocês – “A Sombra que me acompanhava era a mesma do Diabo” – tem 21m de duração e o segundo – “Seja Bem-vindo de Volta pra Cruz” – tem 42m. Falem um pouco sobre o processo de gravação, se foi a primeira vez de vocês em estúdio gravando e como foi essa evolução na proposta da banda nesse curto período de existência.

VERME: Tá vendo? Hahaha, mais uma coisa que acabei de descobrir, não sabia essa dos minutos. Não foi nossa primeira vez em estúdio não, todos nós já participamos e gravamos com outras bandas antes de nos juntarmos. O processo de gravação foi bem intenso e também agradável. Gravamos os dois álbuns com o mesmo time, a Carol Lippi e o Thomas Bernardes, e nos segundo também contamos com o amigo Lucas Alien, que co-produziu o disco e trabalhou nos samples junto com a gente. Somos todos amigos antigos, a cidade é bem pequena, então foi um clima bem legal e caseiro. Ficamos muito à vontade. O primeiro disco foi gravado quase que “desesperadamente”, devido ao momento, aos acontecimentos recentes da época e aos recursos que tínhamos, mas a recepção foi tão positiva e satisfatória que nos inspirou como banda, e dedicamos mais tempo e mais atenção para lapidar e descobrir nosso som no segundo disco.

No primeiro CD tivemos uma capa e título muito legais, no segundo também. Conte-nos um pouco sobre essas escolhas e desvendem para nós os olhares misteriosos do “Seja Bem-vindo de Volta pra Cruz”.

VERME: Obrigado pelo elogio, também adoramos as capas e as escolhemos com muita atenção. Ambas são mérito de duas mulheres brabíssimas, a responsável pela fotografia do primeiro álbum é a Clara Ribeiro e a modelo é a Fernanda Ladislau, que nos cederam amistosamente o direito de usar, e seremos eternamente gratos. O segundo é uma montagem com artes de Linda H. Syvertsen, com quem fizemos uma grande amizade, e que possui um talento visível aos olhos, dispensa comentários. Assim como na música, a gente sempre Dá muita atenção à parte visual da banda, desde fotos, vídeos, capas etc. É algo importante pra nos no trabalho, sempre queremos procurar o que julgamos melhor e mais fora do esperado. Nossas influências musicais vão além do metal tradicional e nossas influências visuais e temáticas também vão além do metal tradicional, não vemos problema nisso, pelo contrário, adoramos e as possibilidades são lindas.

Percebemos que vocês prezam pelo visual da banda, o que deve gerar comparações ao Black Metal inclusive. O que isso representa pra vocês no palco e na proposta da banda como um todo?

VERME: Bom, é como eu comentei anteriormente, pra nós isso representa exercer possibilidades que vão além da música. Algo que particularmente curtimos como espectadores e também no nosso trabalho. Obviamente é uma pegada visual influenciada pelo Black Metal mas não somente por ele. Eu sempre amei isso desde criança com o Kiss, todos nós curtimos muito artistas que criam visuais e que experimentam transmitir sua mensagem ou energia juntando duas coisas maravilhosas, Visual e Música. Post Punk também influência a gente de certa forma, e também é um gênero bem visual. E na minha visão uma coisa leva à outra, isso também acaba se aplicando às capas, flyers, vídeos e tudo que é visual e que uma banda acaba por ter. A gente troca muito ideia sobre a banda, o que certamente nos ajuda a estarmos sempre alinhados sobre o clima que queremos transmitir.

Nessa pandemia doida que estamos passando, cada um buscou algo pra poder suportar um pouco mais as coisas, onde e em quê buscaram refúgio? Aceitamos recomendações inclusive.

VERME: Momento muito difícil (ainda) que estamos passando. Pra nós pegou de surpresa como para todos e ainda mais por termos um disco recém-lançado. Mas é aquilo, não podemos reclamar e a gratidão é eterna por todo suporte. Na vida pessoal ficou aquele clima lisérgico estranho até porque o momento já não era dos melhores antes da pandemia. O refúgio principal para nós creio que foi o som mesmo. Ter onde focar, criar, trabalhar a mente, isso ajuda muito. Apesar de todas as dificuldades, conseguimos usar da situação pra estudar a banda, aliviar tudo através de música e busca por inspirações.

O quê esperam pra esse ano eleitoral de 2022 e para o futuro do país, no que talvez podemos chamar de 2020 parte III?

VERME: Bem, o que esperamos é o que imagino e espero que seja o que todos aqui querem. A queda necessária e urgente desse governo elitista, negacionista e amedrontador comandado por um tiozão fascista, esperamos muita vacina e muita saúde para todos, e responsabilidade para que essa merda toda possa tentar se resolver com o mínimo de danos possíveis.
Que geral se cuide, se lembre e tenha consciência de que muita gente ainda sofre pela pandemia e que temos que nos ajudar. E fora Bolsonaro, pau no cu desse arrombado, tu vai cair!

E já chegando nos finalmente, agradeço por essa entrevista, desejo força para todos nós e deixo o espaço livre pra vocês falaram sobre os próximos passos da banda e o que mais tiverem a fim de compartilhar, nosso muito obrigado!

VERME: Antes de mais nada, muito obrigado pelo convite e pelo espaço! Sensacional fazer parte disso e foi um imenso prazer. Em relação à banda, agora estamos vendo quais são as possibilidades de tocar ao vivo, finalmente divulgar melhor nossos 2 discos, mas por aqui ta sempre rolando criação, debate, ideia. Qualquer hora a gente pode soltar algo quem sabe, ta tudo funcionando! Um grande abraço pra geral, se cuidem, e muito obrigado!

LINKS DA BANDA: linktr.ee/Sanguedebode

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About André Fagundes

Designer de formação e músico por paixão e teimosia, cresci indo na Galeria do Rock atrás de zines para ler, além de flyers de shows e namorar as guitarras das lojas da Santa Ifigênia no Centro de São Paulo.

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