Ira!, Blitz, Legião Urbana, Marina Lima e um tributo a Cazuza encerraram a primeira edição do festival no Parque Ibirapuera
Fotos por Raíssa Corrêa – @showww360 – Gentilmente cedidas pela Rarozine
O segundo dia do C6 no Rock, no último dia 23, começou com um cenário mais favorável. Ainda havia sol, mas o calor já não tinha a mesma agressividade do sábado, e isso pareceu suficiente para convencer o público a ocupar o gramado desde cedo.
Se no primeiro dia havia uma dispersão maior durante os shows iniciais, com boa parte da plateia procurando abrigo sob as árvores do Ibirapuera, no domingo a pista em frente ao palco já estava cheia desde a primeira atração. Era como se, passada a curiosidade inicial da estreia, o festival tivesse encontrado seu ritmo.
A programação voltou a orbitar em torno de discos fundamentais da música brasileira dos anos 1980, mas apresentou um recorte mais variado em sonoridade, presença de palco e relação com o próprio passado.
Ira! entra em campo com o público já aquecido
O dia começou com Ira! revisitando Vivendo e Não Aprendendo (1986), um dos discos mais sólidos do rock brasileiro daquela década.
Diferentemente da abertura do sábado, a banda encontrou um público já disposto a participar. A grade estava cheia, e as músicas foram recebidas com familiaridade por uma plateia que, em muitos momentos, parecia conhecer os versos tão bem quanto a própria banda. O entusiasmo variava ao longo do repertório, o que já era de se esperar e que é comum em um festival, mas nunca desapareceu completamente.
“Dias de Luta” foi um dos momentos mais divertidos, especialmente pelo refrão extraoficial criado pelo próprio público ao longo dos anos. Quem sabe, sabe.
Fez falta a faixa “Pobre Paulista”, que já não aparece nas setlists da banda há algum tempo, mas a ausência não comprometeu o conjunto. O show foi consistente do começo ao fim, sem grandes desvios.
O Ira! não pareceu interessado em reinventar o próprio repertório nem em transformar a apresentação em um grande evento conceitual. Em vez disso, confiou na força das músicas e na relação já estabelecida com o público. No final, funcionou super bem.
A Blitz faz do excesso parte do charme
Era uma das apresentações mais aguardadas justamente porque parecia deslocada, de forma muito bem-vinda, dentro de uma programação dominada por guitarras mais sisudas e pela mística do rock oitentista.
Com uma estética colorida, solar e carregada de neon, o palco parecia atravessado por referências de histórias em quadrinhos, televisão e cultura pop – um universo visual que combina perfeitamente com As Aventuras da Blitz (1982), que é quatro anos mais velho que a maior parte dos discos homenageados no festival.
Evandro Mesquita continua sendo um performer extremamente carismático, isso é inegável. Existe uma leveza no modo como ocupa o palco que não depende apenas de nostalgia. Ele trabalha com humor, timing e uma teatralidade muito própria, algo que sempre esteve no DNA da Blitz.
Na segunda metade do show, Fernanda Abreu apareceu como convidada para cantar faixas como “Betty Frígida”, “Você Não Soube Me Amar” e “Geme Geme”. O encontro naturalmente elevou a temperatura.
Ainda assim, havia uma questão de dinâmica que nem sempre funcionava com total clareza, e isso não é exclusivo da apresentação que ocorreu no C6 no Rock. As backing vocals, por vezes ultrapassavam a função de sustentação e acabavam, vez ou outra, excedendo o protagonismo de Evandro Mesquita e até mesmo de Fernanda Abreu.
Em alguns momentos, surgia uma sensação estranha de indefinição sobre quem conduzia quem em cena, mas nada grave o suficiente para desestabilizar a apresentação.
O resultado foi um show divertido, solar e assumidamente nostálgico.
Um reencontro improvável cercado de expectativa e contenção
O fim da tarde trouxe um dos momentos mais simbólicos de toda a edição.
Acompanhados por um belo pôr do sol, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subiram ao palco para revisitar Dois (1986), da Legião Urbana, com André Frateschi nos vocais.
O simples fato de aquela formação existir ali já carregava peso. Isso porque, nos últimos anos, o universo em torno da Legião Urbana passou a ser atravessado não apenas pela memória de Renato Russo, mas também por disputas jurídicas, desencontros e uma série de conflitos que tornaram qualquer reunião ligada ao nome da banda cada vez mais carregada de expectativa.
Mas, por algum motivo, eles estavam ali. E o clima no palco foi surpreendentemente bom.
André Frateschi tinha uma tarefa difícil e desempenhou seu papel com competência. Não tentou transformar a apresentação em um exercício de imitação de Renato Russo, fator fundamental para que o show encontrasse alguma identidade própria. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, por sua vez, demonstraram sintonia suficiente para fazer o reencontro funcionar musicalmente.
A abertura trouxe ainda uma escolha curiosa: a releitura de “Juízo Final”, composição de Nelson Cavaquinho eternizada por diferentes vozes da música brasileira e que chegou a ser considerada para o repertório de Dois (1986), antes de dar lugar a “Índios”.
Esse é o tipo de detalhe que interessava especialmente a quem conhece a história do álbum para além de seus singles. Curiosamente, porém, o público – talvez o mais ansioso do dia – respondeu de forma menos intensa do que se poderia esperar.
Era difícil olhar para algum canto do festival sem encontrar uma camiseta, um disco ou algum símbolo ligado à Legião Urbana. Ainda assim, boa parte da apresentação foi recebida com uma atenção quase contemplativa.
“Eduardo e Mônica” e “Tempo Perdido” naturalmente provocaram reações mais fortes, mas os momentos de explosão foram breves. Talvez faltasse vigor. Talvez houvesse uma espécie de concentração coletiva diante de um reencontro que, durante muito tempo, pareceu improvável.
O show foi bom. Musicalmente seguro, emocionalmente significativo e sustentado por uma sintonia que nem sempre parecia garantida antes de começar. Mas também ficou nisso.
Fullgás reaparece intacto, vivo e absolutamente contemporâneo
Quando a noite finalmente caiu sobre o Ibirapuera, o festival encontrou seu ponto alto. Marina Lima subiu ao palco para apresentar Fullgás (1984) em um show sensual, elegante e visualmente impecável. Foi a apresentação mais forte não apenas do domingo, mas de toda a primeira edição do C6 no Rock.
Desde os primeiros minutos, havia uma preocupação muito evidente com a construção da atmosfera. As projeções, que já haviam sido um dos principais recursos visuais do festival na noite de sábado, ganharam aqui uma dimensão muito maior. Para o show de Marina Lima, foram produzidos visuais específicos, pensados para acompanhar o repertório e dialogar diretamente com a estética das músicas.
No início, Marina surgiu mais afastada, quase escondida entre sombras e névoa. Aos poucos, avançou pelo palco. Foi se aproximando do público, relaxando os movimentos e encontrando uma liberdade que parecia crescer conforme o próprio show se desenvolvia.
Um dos maiores méritos da apresentação foi o cuidado com os arranjos originais, preservando aquilo que torna Fullgás (1984) tão particular.
Existe sempre o risco de um show comemorativo transformar o álbum em uma espécie de fotografia de época, tentando reproduzir artificialmente aquilo que já passou. Aqui, aconteceu o contrário: o disco foi tratado como obra viva.
Ouvir aquelas músicas na íntegra, respeitando sua identidade e ao mesmo tempo permitindo que soassem plenamente contemporâneas, foi um dos grandes presentes do festival.
Liminha e Lobão, figuras fundamentais na história artística de Marina Lima – assim como ela também é na trajetória de ambos -, participaram da apresentação e ajudaram a tornar o encontro ainda mais especial. Um dos melhores momentos veio em “Me Chama”, com Marina nos vocais e Lobão assumindo a bateria.
“Fullgás”, que abriu a apresentação, voltou no bis, fechando uma dobradinha que funcionou quase como moldura do show. “Ainda É Cedo” também ganhou uma leitura particularmente potente.
Tudo funcionava: repertório, banda, iluminação, imagens e presença. O problema, mais uma vez, estava menos no palco do que em parte da plateia.
É um comportamento já conhecido de algumas apresentações mais clássicas dentro do universo do próprio C6 Fest: uma parcela do público trata o show como pano de fundo para a própria experiência social.
Cazuza continua na boca do povo
Com participações de Arnaldo Antunes, Johnny Hooker, Maria Gadú, Leo Jaime, Lobão, Leoni e Frejat, o espetáculo deixou evidente algo que talvez não precise mais ser provado, mas ainda impressiona quando se manifesta diante de milhares de pessoas: Cazuza continua presente.
Seu repertório permanece na boca do público, atravessa gerações e sobrevive para além da moldura histórica do rock dos anos 1980.
“Bete Balanço”, que talvez parecesse uma escolha óbvia para Frejat, acabou aparecendo em um dueto entre Leo Jaime e Johnny Hooker. Maria Gadú, por sua vez, entregou uma versão bonita de “Quase Um Segundo”, enquanto Leoni protagonizou um dos momentos mais espontâneos da noite durante “Exagerado”.
Arnaldo Antunes inovou e apresentou uma leitura bastante particular de “Malandragem”. Curiosa talvez seja a palavra mais precisa. Era diferente o suficiente para dividir opiniões, mas também justamente por isso escapava da armadilha de transformar o tributo em uma sequência de reproduções respeitosas demais.
E talvez um show dedicado a Cazuza precise mesmo de algum grau de risco. Afinal, ser comportado demais nunca combinou muito com ele.

Anos 80 de novo, mas diferente
Assim terminou a primeira edição do C6 no Rock.
Fazer um festival dedicado majoritariamente ao rock brasileiro dos anos 1980 poderia facilmente resultar em um enorme exercício de nostalgia previsível. Afinal, não faltam eventos construídos ao redor dessas mesmas músicas e turnês comemorativas. Não faltam reencontros, reedições, especiais e celebrações.
O mérito do C6 no Rock foi entender que simplesmente colocar essas bandas lado a lado não seria suficiente. Os discos completos deram outra lógica à programação. Os convidados criaram cruzamentos inesperados e os tributos encontraram artistas de diferentes gerações. E, sobretudo, houve espaço para perceber que nem toda lembrança envelhece do mesmo jeito.

































