Swallow the Sun traz frio finlandês para São Paulo em noite de doom

Abrindo a turnê que fecha o ciclo de seu último álbum, Shining, o quinteto passou pela capital paulista nesta última terça-feira

Texto e Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)

Dentro do metal, especialmente das vertentes mais extremas, poucos estilos conseguem expressar emoções de forma tão visceral quanto o doom metal. Olhando apenas para o doom metal, poucas bandas conseguem trazer o desespero, luto e melancolia de um jeito tão único e característico como o Swallow the Sun. Retornando ao Brasil três anos após sua última apresentação por aqui (que curiosamente também foi em uma terça-feira), desta vez, marcaram presença no icônico Hangar 110, verdadeiro templo da música underground, trazendo alguns presentes para os fãs de longa data no repertório.

Muitos artistas, especialmente europeus, reclamam do calor da américa latina, clima completamente diferente do que estão acostumados, mas não seria o caso dos finlandeses, que chegaram em São Paulo em um dia que viu os termômetros presos nos 13 graus. Apesar disso e do fato de ser uma terça-feira, chegando perto das 21h, horário marcado para a subida da banda no palco, a casa já se encontrava com centenas de pessoas devidamente agasalhadas e prontas para sofrer com um pouco do bom e do melhor do rock triste.

A entrada deles foi pontual, assim que o relógio deu sua nona badalada, as cortinas do palco se abriram, enquanto “Velvet Chains” tocava pelo sistema de PA. Os integrantes encapuzados chegaram um a um, e o público vibrava mais e mais, e sem nem dar boa noite, Mikko Kotamäki e companhia iniciaram logo “Innocence is Long Forgotten”, música que abre Shining (2024). Estavam enganados aqueles que acharam que ficariam nas faixas novas, pois alguns segundos após os acordes finais da primeira, emendaram logo “Descending Winters” (de seu segundo disco, Ghosts of Loss), ainda sem dizer nada aos fãs, apenas deixando a galera sentir a música.

Passando de uma era da banda à outra, veio na sequência a densa e atmosférica New Moon, do álbum que leva seu nome. Contando com uma verdadeira parede sonora de guitarras e camadas mais melódicas embalando os vocais de Mikko, que alternam entre limpos e guturais. Faixas como ela mostram a especialidade do Swallow the Sun, trazer um som pesado sem precisar ser agressivo 100% do tempo. Diferente de outras bandas do estilo, que soam como ser enterrado vivo por uma montanha de lama, o som dos finlandeses consegue ser tão triste quanto, mas é como se afogar lentamente em um lago sem uma única onda, sob um céu estrelado. Você chora, sem dúvidas, mas chora sorrindo.

Mantendo a temática lunar, passaram para “Under the Moon & Sun”, que voltou para o álbum mais novo. Mesmo assim, ela já foi recebida tão calorosamente quanto os clássicos, como “Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)” e “Out of This Gloomy Light”, esta última introduzida pelo vocalista como “uma música velha pra caralho”. Entre os guturais e graves que adornam as antiguidades e a sensibilidade mais acessível das recentes – “November Dust”, a próxima, um ótimo exemplo disso – o show era absurdamente dinâmica, mesmo sem estripulias e pirotecnias no palco, ou piadinhas entre uma música e outra.

A curtição continuou à todo vapor com “Hope”, que viu uma fala simples, antes de começar, mas que incendiou quem estava no show: “Swallow the fucking Sun”, sem mais nem menos. Àquela altura, já haviam feito praticamente uma jora de show, mas nem a banda, nem o público demonstrava sinal algum de cansaço, passando para “MelancHoly” sem nem muito tempo para respirar. Apesar de ter sido lançada apenas há dois anos, um coro de fãs cantou cada verso a plenos pulmões. Durante o refrão, que repetia “melancholy, melancholia”, era praticamente impossível diferenciar o que era a banda cantando e o que eram os fãs; era emoção em uma só voz.

Aquele último gás da noite veio com uma dobradinha de Hope, álbum que completa 20 anos de lançamento no ano que vem. A sequência de “Falling World” e a impetuosa “These Woods Breathe Evil” já seriam, por si só, uma maneira incrível de fechar a noite, evidenciando de diversas maneiras a evolução da banda em seus mais de 25 anos de carreira, mas ainda tivemos direito a um bis. O bis, desta vez, foi absolutamente especial, contando com duas faixas do primeiro disco, “The Morning Never Came”. Primeiro, voltaram com “Deadly Nightshade”, uma das joias de sua coroa, mas que não aparecia constantemente ao vivo desde antes da pandemia, e para fechar para valer, não podia ser outra: “Swallow (Horror, Part 1)”.

Em praticamente uma hora de show, o Swallow the Sun provou que o doom metal, mesmo gélido e ermo, tem a capacidade de esquentar o coração dos fãs, trazendo quase um acolhimento, uma catarse emocional coletiva. Além das faixas do disco novo, o resto do setlist foi composto apenas pelos primeiros 4 álbuns, uma verdadeira avalanche nostálgica para aqueles que acompanham a banda desde seu início. Prestes a iniciar uma nova fase, um novo ciclo, escolheram fazer uma retrospectiva, um “retorno às raízes”, de certa forma, e apostar nos clássicos, destacando o valor que dão às conexões de longo-prazo.

Vale lembrar que quem quiser matar a saudade do Mikko poderá vê-lo à frente do My Dying Bride, que vem para cá no final de novembro, com o Necrot, fica a dica!

Setlist Swallon the Sun – Hangar 110 – 12/08/2026:


Innocence Was Long Forgotten
Descending Winters
New Moon
Under the Moon & Sun
Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)
Out of This Gloomy Light
November Dust
Hope
MelancHoly
Falling World
These Woods Breathe Evil

Bis
Deadly Nightshade
Swallow (Horror, Part 1)

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