Em apresentação intimista, o cantor sueco equilibrou clássicos, covers e faixas menos conhecidas, provando que sua trajetória vai muito além de “Save Tonight”.
Fotos por Ísis Trindade – @isistrindadefotografia
No último sábado (25), em apresentação promovida pela Top Link Music, Eagle-Eye Cherry subiu ao palco do Tokio Marine Hall, em São Paulo, disposto a desafiar a própria imagem construída ao longo de quase três décadas de carreira. Para muitos, seu nome permanece inevitavelmente associado a “Save Tonight”, um dos hinos radiofônicos do fim dos anos 1990. Ao vivo, porém, o cantor e compositor sueco deixa claro que é muito mais do que isso. Mesmo sem conseguir encher o Tokio Marine Hall, a apresentação foi muito divertida e de uma excelente qualidade técnica oferecida ao longo de cada faixa.
E para acompanhá-lo, a atração convidada de abertura foi a banda norte-americana Velvet Chains, que tem um estilo um tanto quanto diferente de Eagle-Eye Cherry. O Velvet Chains é uma banda de hard rock moderna formada em Las Vegas, Nevada, em 2018. Embora ainda não seja um nome de primeira linha, o grupo vem conquistando espaço na cena internacional ao combinar hard rock contemporâneo, post-grunge e rock alternativo.
Formado por Chaz Terra (vocal), Phillip Paulsen (guitarra), Von Boldt (guitarra), Jason Hope (bateria) e Nils Goldschmidt (baixo), idealizador do projeto e único integrante remanescente da formação original, o Velvet Chains entregou uma apresentação consistente, mostrando personalidade e competência. No entanto, a banda acabou esbarrando em um cenário pouco favorável, quando subiu ao palco, boa parte do público ainda chegava ao local, o que resultou em uma plateia espalhada durante grande parte do show.
Outro fator que influenciou a dinâmica da apresentação foi o próprio formato da casa para aquela noite. Com mesas ocupando a área da pista, o ambiente naturalmente limitava a interação e a intensidade que um show de hard rock costuma provocar.
Ainda assim, o quinteto soube aproveitar o tempo em cena para apresentar seu trabalho com segurança e energia. O repertório passeou por faixas como “Stuck Against the Wall”, do EP Last Rites, e “Hurt Me”, do álbum How the Story Ends, além de uma vigorosa releitura de “Suspicious Minds”, clássico eternizado por Elvis Presley e também presente em Last Rites. Mesmo ficando bastante evidente que o público presente na noite estava lá para prestigiar o artista principal, a banda conseguiu fazer uma boa apresentação.
Eagle-Eye Cherry
Sem recorrer a grandes efeitos visuais ou produções grandiosas, o artista apostou naquilo que sempre foi sua maior característica: boas canções, uma voz marcante e interpretações sinceras. A simplicidade da produção acabou funcionando como um complemento perfeito para um show que privilegiou a música acima de qualquer espetáculo visual. Com quatro minutos de atraso do horário divulgado de 22:00, a banda sobe ao palco com “She Didn’t Believe” e mesmo com o público sentado, em formato mais intimista, dava pra sentir a empolgação dos fãs já desde o início.
Ainda no comecinho, Cherry traz “Death Defied By Will”, faixa que faz parte do seu álbum de estreia Desireless (1997), mesmo disco que trouxe o enorme sucesso mundial de “Save Tonight”. No entanto, dentro desse repertório, essa é uma faixa interessante porque contrasta com o lado mais conhecido do artista, mostra que ele também é capaz de explorar um lado mais introspectivo.
Acompanhado de músicos de extrema qualidade, emenda “Falling in Love Again” que é um pouco mais animada e também um de seus maiores hits. Cherry, no violão, faz parecer que o que a gente está ouvindo ali ao vivo é exatamente a gravação de estúdio. E essa é uma canção que traz movimento e bastante fluidez, ele consegue apresentar tudo isso com muita naturalidade e faz parecer ser fácil, com 58 anos e um controle vocal impressionante ele traz o público para uma camada ainda mais conectada enquanto todo mundo canta junto.
Além de seu trabalho ao longo das últimas décadas, Eagle traz também alguns covers e faz desses momentos uma pausa para além de interagir com o público, também contar um pouco a história do que motivou a escolha dessas canções para seu setlist e do significado delas.
O primeiro cover é “Golden” de Peg Parvenik, a música foi apresentada por Eagle-Eye Cherry no programa sueco Så mycket bättre (2023), em que artistas interpretam canções uns dos outros. A versão dele de “Golden” foi lançada oficialmente em 2023 e entrou no EP Så mycket bättre 2023 – Tolkningarna.
Entre momentos autorais e releituras, Eagle-Eye Cherry apresentou “Strong Enough”, composição originalmente gravada por Sheryl Crow, em uma interpretação que trouxe sua assinatura acústica e intimista. O cover surgiu no intervalo entre “Top of the World” e “Streets of You”, ambas extraídas do álbum Streets of You, lançado em 2018. Cherry relembra de quando esteve em turnê com Crow e por isso a escolha de trazer uma canção que nem era tão aguardada para aquele setlist.
A reta final do show começou com “Are Still Having Fun?”, última música antes de Eagle e sua banda deixarem o palco sob os aplausos do público. O retorno veio em menos de dois minutos depois para um breve, mas certeiro, encore. Primeiro, uma releitura de “Atlantic City”, clássico de Bruce Springsteen, interpretada de forma intimista e que também teve seu contexto e significado explicados por Cherry. Ele conta que essa é uma música que traz uma narrativa do que acontecia em Nova Iorque e Nova Jersey no início da década de 80, quando pessoas comuns passavam por dificuldades com o aumento do crime organizado na cidade, em circunstâncias da chegada dos cassinos.
Na sequência, sem espaço para qualquer outro desfecho, veio “Save Tonight”, o maior sucesso de sua carreira. Cantada em coro do início ao fim por um público que foi convidado a se levantar e se aproximar do palco, a canção transformou o Tokio Marine Hall em uma só voz e encerrou a apresentação de maneira que todos esperavam.
Apesar da qualidade da performance e da competência dos músicos que o acompanharam, ficou a sensação de que o espetáculo terminou cedo demais. Dono de uma discografia consistente, diversos sucessos e mais de três décadas de carreira, o sueco apresentou um repertório enxuto, com pouco menos de uma hora e vinte de duração. Em comparação ao que artistas de trajetória semelhante costumam entregar em turnês internacionais, o formato acabou parecendo modesto, deixando a impressão de que ainda havia espaço para revisitar outras faixas marcantes de seu catálogo e proporcionar uma experiência mais abrangente ao público brasileiro.
Mas mesmo com a sensação de um show curto, o público demonstrou ter ficado satisfeito com o que viu naquela noite. Se durante a apresentação, Eagle-Eye Cherry já havia demonstrado uma conexão genuína com o público, o carinho pelos fãs ficou ainda mais evidente após o encerramento do show. Mesmo depois de deixar o palco, o cantor e a banda fizeram questão de atender dezenas de pessoas que os aguardavam, dedicando tempo para fotos, autógrafos e breves conversas.
Eagle-Eye Cherry – Tokio Marine Hall – 25/07/2026
- She Didn’t Believe
- Been Here Once Before
- I Like It
- Death Defied by Will
- Falling in Love Again
- Golden (Peg Parnevik cover)
- Top of the World
- Strong Enough (Sheryl Crow cover)
- Streets of You
- Down and Out
- Rainbow Wings
- Remember What You Did Last Night
- Go Simmer Down
- One of Those Days
- Are You Still Having Fun?
Encore:
- Atlantic City – (Bruce Springsteen cover)
- Save Tonight




























































