Entre clássicos e faixas do novo álbum, rodas e lágrimas, os australianos se reafirmaram como os reis do metalcore triste contemporâneo
Texto e Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)
É comum as bandas terminarem seus shows com um “nos vemos em breve, amamos vocês”, e como sabemos bem, especialmente com as bandas de metalcore, nem sempre é o caso. O Amity Affliction até prometeu voltar logo em seu último show, no ano passado, mas sendo uma banda da Austrália, as chances não eram altas. Mesmo assim, não fizeram desfeita com os fãs, e pouco mais de um ano depois, lá estavam, de volta no Carioca Club, desta vez, apresentando seu novo álbum, House of Cards, lançado um mês antes da data do show.
Para quem não conhece, o Amity é aquela banda perfeita para tocar num domingo à noite, abordando temas de saúde mental, depressão, morte e superação, com músicas cheias de refrães tristes para ouvir enquanto têm crise existencial, ou enquanto chora no banho. Formados no começo do milênio, se tornaram um dos pilares da cena australiana do post-hardcore, emplacando discos icônicos como Let the Ocean Take Me, de 2014.
Quando vieram da última vez, estavam passando por uma época turbulenta com sua formação, vista a saída do vocalista, baixista e membro-fundador Ahren Stringer. Para substituí-lo em turnê, contaram com os serviços de Jonathan Reeves, que de acordo com nossa repórter Melissa Buzzatto, em sua cobertura do show do ano passado: “trouxe o peso emocional necessário para cada faixa”. Desde então, sua entrada na banda foi oficializada, aparecendo, inclusive, no novo álbum, que seria o foco do show.
Chegando na casa perto do horário de abertura, o frio (perfeito pra chorar mesmo) não impedia uma fila de se formar na porta da casa. Passando para o lado de dentro, o clima de irmandade e amizade que marcou o show do ano passado permanecia, com o público majoritariamente composto de grupos de amigos cantando junto, mas a quantidade de gente não era a mesma do ano passado. O Carioca estava longe de estar vazio, porém, não estava lotado como da última vez – provavelmente por conta da proximidade entre os shows.
Isso pareceu não afetar a banda, que pontualmente às 20h já subia no palco ao som de “Vida Nueva”, faixa introdutória de House of Cards. Esperadamente, o setlist do show seria completamente ancorado nas faixas novas, e “Kickboxer” logo no começo já ditou como seria a energia. Uma das mais pesadas do disco, a música foi como uma pedrada no pé do estômago logo de cara, o que trouxe um contraste interessante com “Like Love”, mais tradicionalmente melancólica, que veio na sequência.
Quem não estava com os olhos ao menos marejados certamente chorou com “Drag the Lake”, que viu uma cantoria em massa, com a galera realmente gritando à plenos pulmões, um descarrego coletivo. Quando boa parte das luzes do palco se apagaram, deixando apenas as silhuetas dos integrantes visíveis, uma energia indescritível tomou a casa. Estes shows de música triste sempre trazem uma energia muito diferenciada, como se fossem realmente uma sessão de terapia. Mantendo a energia lá no alto, veio “Heaven Sent”, uma das joias da coroa de House of Cards, recebida como se fosse figurinha carimbada do repertório do Amity.
Antes de passar para a música seguinte, Joel, o vocalista, ressaltou a conexão da banda com o público brasileiro, dizendo que a próxima era especial, já que foi tocada pela primeira vez no show do ano passado. “All That I Remember”, primeiro single com Reeves no vocal limpo, foi adicionado no repertório daquele show como surpresa, e desde então, apareceu na maioria dos seguintes. Como já era de se esperar, a reação do público foi para lá de calorosa. Seguindo nesta mesma linha, a próxima sequência foi uma enxurrada de hits, misturando material antigo com coisas novas;”It’s Hell Down Here”, “House of Cards”, “Chasing Ghosts” e “Open Letter”, que contou com um “fuck no” em uníssono.
Para realmente testar se o antidepressivo estava em dia, tocaram também “All Fucked Up”, faixa acústica, que claro, teve aquele momento de “limpar janela” passando a mão de um lado para o outro, além do Carioca ficar iluminado por centenas de lanternas de celular e isqueiros – momento lindo, no geral. Passando por House of Cards uma última vez, vieram com “Bleed”, mistura perfeita de peso e melodia. Foi nessa hora que a roda do meio da pista duplicou de tamanho, sendo um verdadeiro liquidificador humano.
Fechando com chave de ouro, ou melhor, chave de choro, emendaram logo “Death’s Hand”, com seu riff grandioso, perfeito para cantar junto e seu grito libertador de “hey death, get fucked”, expressão do luto à flor da pele, e a mais que icônica “Pittsburgh”. Para a última, Joel até mandou um “quem sabe canta junto”, mas não precisou, nos primeiros acordes, a galera já gritava a letra tão alta quanto ele. Catarse emocional é o melhor jeito de descrever o que rolou no final. Estava claro que não só “Pittsburgh”, mas o repertório todo, tinha um significado especial (e diferente) para cada um dos fãs que estavam lá no dia.
Sem surpreender ninguém, a banda voltou para um bis, depois de menos de 2 minutos fora do palco. Que nem no ano passado, fechariam para valer com “Soak Me In Bleach”, que também foi cantada palavra por palavra pelo público, que já estava incendiado pela banda, mas também já estava desidratado de tanto chorar. Interagindo com a banda uma última vez, Joel pediu para todos sentarem antes do último refrão, com aquele último pulo selando o clima lá em cima.
Fizeram um show curto, de apenas uma hora, contemplando em peso o disco novo, mas ficou óbvio que todos que estavam lá eram realmente fãs do Amity Afflction. Parece que as bandas que falam mais abertamente sobre emoções e temas pesados – como é o caso dos australianos – conseguem estabelecer uma conexão mais profunda com o público, e isso foi demonstrado perfeitamente no Carioca Club. Já está mais do que óbvio que o Brasil pode ser uma segunda casa do Amity, então, só falta esperar eles voltarem.
The Amity Affliction – setlist – 23/05/2026 – Carioca Club
- Kickboxer
- Like Love
- Drag the Lake
- Heaven Sent
- All That I Remember
- It’s Hell Down Here
- House of Cards
- Chasing Ghosts
- Open Letter
- All Fucked Up
- Bleed
- Death’s Hand
- Pittsburgh
- Soak Me In Bleach

























