O retorno do The xx e a apoteose do Wolf Alice | Confira os destaques que justificaram o sábado esgotado do C6

Com ingressos esgotados, público fiel e uma curadoria cada vez mais certeira, o C6 Fest provou novamente que encontrou seu espaço entre os festivais mais interessantes do país. 

Fotos por Andre Santos (@andresantos_mnp)

Na onda dos eventos atuais de empilhar nomes e marcas de patrocinadores em um gramado e gritar aos quatro ventos que possui uma “curadoria exclusiva”, é esperado que alguns fiquem meio céticos ao ver este termo estampado em praticamente todos os textos sobre C6 Fest. No entanto, ao caminhar pelas alamedas do Parque do Ibirapuera sob a chuva implacável deste último sábado (23), é impossível fugir dessa afirmação. O C6 Fest, em sua quarta edição, operou um pequeno milagre no saturado mercado de festivais brasileiros: colocou a música de volta no centro da experiência.

Enquanto o ecossistema dos grandes eventos parece focado em vender fundos instagramáveis e tirolesas, entregando line-ups idênticos e engessados no mainstream, o C6 constrói pontes que vão fundo no que há de novo e diferente na música. O festival desenha uma jornada em que o espectador transita entre o artista que ama e a descoberta daquilo que nem sabia que precisava. Sob as árvores do Ibirapuera, o público fiel, que esgotou os ingressos para ambos os dias, moveu-se sem grandes perrengues logísticos. Até a água que caía do céu foi mitigada por uma distribuição gratuita e eficiente de capas de chuva. É o reflexo de um festival que parece mais preocupado em fidelizar sua comunidade pelo respeito à música do que em inflar margens de lucro a qualquer custo.

Nem tudo são flores, contudo. Se a estrutura, os restaurantes e o fluxo de bebidas funcionaram com precisão impressionantes, a engenharia de som falhou e entregou um grave estourado e indomável nas caixas. Na Tenda Metlife, quem se posicionou nas primeiras fileiras não apenas ouviu a música, mas sentiu o impacto físico de frequências graves que pareciam derreter o rosto e fazer o coração saltar do peito. O calcanhar de Aquiles da noite acabou prejudicando desde a delicadeza minimalista do The xx, na Arena Heineken, até o peso de Baxter Dury. Um detalhe frustrante para um festival tão refinado em praticamente todos os outros aspectos. 

Com muitos (muitos mesmo!) mais altos do que baixos, o balanço do dia foi, mais uma vez, positivo. Abaixo, elegemos os 5 shows que definiram a narrativa do sábado:

5. Horsegirl

A chuva acabou empurrando muita gente para dentro da Tenda MetLife mais cedo, e talvez tenha sido exatamente isso que ajudou o Horsegirl a conquistar novos ouvintes quase por osmose. Quem chegou cedo para garantir lugar na Tenda Metlife para os shows seguintes acabou se abrigando da chuva sob a lona e encontrou um indie rock redondo, leve e extremamente coerente com a atmosfera úmida e cinza do parque. 

Divulgando canções inéditas e calcadas nas referências do rock alternativo noventista, as garotas entregaram um set seguro, charmoso e executado com aquele descompromisso típico de quem está começando, mas sabe exatamente o que está fazendo. Teve um frescor, mas faltou a urgência e o peso dramático das atrações que viriam a seguir. 

4. Mano Brown

Escalado aos 45 minutos do segundo tempo para substituir o cancelamento de Dijon, Mano Brown não entrou para preencher tabela; ele deslocou o eixo do festival. A apresentação mergulhou profundamente na estética de Boogie Naipe (2016), seu primeiro disco solo, celebrando os bailes black dos anos 70 e 80 com groove sofisticado, metais elegantes e uma sensualidade urbana que contrastava lindamente com o restante do sábado mais indie. 

Acompanhado por uma banda impecável, o show foi um manifesto político e estético. E como se a aula de ritmo não bastasse, ele ainda soltou a bomba antes de se despedir: o sucessor de Cores & Valores (2014), novo disco do Racionais MCs, chega (finalmente!) no segundo semestre deste ano.

3. Baxter Dury

Sensual, caótico, deliberadamente bizarro e absolutamente magnético. Filho do lendário Ian Dury, o músico britânico Baxter Dury trouxe ao Brasil um repertório equilibrado, que contempla seus lançamentos ao longo dos últimos anos e mistura talk-singing hipnótico, beats secos e linhas de baixo colossais. 

No palco, Dury entregou uma das performances mais viscerais do festival e agiu como um “taradão elegante”: com seu charme torto, abria e fechava botões da camisa, pulava, desafiava a gravidade de seu zíper que insistia em abrir e comandava a plateia mista de velhos e novos indies com uma maestria teatral. O som estourado da Tenda Metlife quase sabotou o show, mas Dury usou isso a seu favor, incitando o público a gritar ainda mais alto que as caixas de som.

2. Wolf Alice

Se a apresentação do Wolf Alice no Rio de Janeiro havia sofrido com a falta de tração de um público menos conectado à proposta da banda, a estreia em São Paulo foi uma apoteose. A sinergia entre o quarteto londrino e a Tenda Metlife foi instantânea. 

Ellie Rowsell, alternando entre vocais angelicais e gritos rasgados, sorria de orelha a orelha, visivelmente impactada pelo coro ensurdecedor que vinha da pista. Theo Ellis, por sua vez, entregava um show paralelo de carisma e presença de palco. 

O público cantava absolutamente tudo. Do começo ao fim. Sem exceção. E a banda claramente sentia isso com uma alegria contagiante. A canção “Bros” ganhou até um trecho à capella emocionante, enquanto “Play The Greatest Hits” trouxe um caos coletivo. 

Outros clássicos como “How Can I Make It OK?” e “Play the Greatest Hits” transformaram a tenda em uma massa fervilhante de corpos. Mas o grande momento da noite veio com “Lipstick On The Glass”: os fãs brasileiros haviam feito uma campanha massiva comprando a faixa no iTunes para chamar a atenção da banda, que retribuiu o carinho incluindo a música no setlist após tuitar um charmoso “batom no vidro” na véspera. 

As músicas de The Clearing (2025), um dos discos mais sólidos do rock alternativo recente, também funcionaram perfeitamente ao vivo. Um show daqueles que cria um vínculo instantâneo entre artista e público. Catártico e impecável.

1. The xx

Talvez ainda seja cedo para chamar os anos 2010 de nostalgia. Mas bastou The xx subir ao palco para perceber que existe, sim, algo emocionalmente muito específico naquela geração que cresceu ouvindo aquelas músicas.

A noite de sábado foi reencontro com uma banda que moldou a estética minimalista daquela década e que sobreviveu a um hiato de oito anos, período em que Jamie, Romy e Oliver testaram com sucesso suas próprias pernas em carreiras solo.

O show na foi um exercício de elegância e contenção. Mesmo com o volume mais baixo do que deveria e os graves novamente comprometendo parte da mixagem, o trio conseguiu construir uma atmosfera quase íntima dentro da Arena Heineken lotada. Um feito raro.

Entre fãs antigos, pessoas que acompanharam as carreiras solo dos integrantes durante o hiato e uma geração mais nova descobrindo a banda agora, o show virou uma espécie de celebração coletiva, mostrando que a química entre os três permanece intacta. Como se 2010 tivesse acontecido semana passada. Foi o desfecho sofisticado e maduro que um sábado acidentado pela chuva precisava.

Menção honrosa: É preciso lamentar o isolamento de Amaarae. Escalada em um horário ingrato na Arena Heineken, quando o público ainda se protegia da tempestade fora do parque, a artista entregou seu pop global e inventivo para um espaço esvaziado. O palco imenso engoliu sua proposta e os problemas técnicos de áudio soterraram suas nuances vocais. O C6 acertou ao trazê-la, mas errou o cálculo de sua engrenagem na grade de horários.

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