O RETORNO DA BANDA AO BRASIL FOI MARCADO POR UMA APRESENTAÇÃO INTENSA E MEDITATIVA, ENCERRANDO A TURNÊ LATINO-AMERICANA COM UMA RECOMPENSA AOS FÃS
Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)
Muitos shows, especialmente os de black metal, são descritos em resenhas como “verdadeiros rituais”. Porém, são poucas as bandas que realmente buscam transmitir essa experiência usando adereços de palco ou trajes. O que foi visto no show do Cult of Fire no dia 20 de maio, na Burning House, foi algo além de um mero “ritual”.
Sem ato de abertura, o público já estava aglomerado em frente ao palco quando, pontualmente às 20h, as cortinas que ocultavam o altar se abriram — conforme exigido pelo Cult of Fire. Uma introdução longa e meditativa deu início à apresentação.
INCENSO, SILÊNCIO E CONTEMPLAÇÃO ENVOLVERAM O ESPETÁCULO
O Cult of Fire mergulhou imediatamente na atmosfera de The One, Who Is Made of Smoke (2025), executado integralmente e em ordem durante a primeira parte do set. A escolha fez total sentido dentro da proposta visual e conceitual atual da banda, transformando o show em um verdadeiro ritual sensorial. Entre músicas como “Anger”, “Dhoom” e “There is More to Lose”, o público parecia menos interessado em reagir fisicamente e mais em absorver tudo aquilo de forma quase contemplativa.
O silêncio predominava entre as faixas, enquanto o palco era tomado por fumaça, ornamentos, líquidos e simbolismos conduzidos pelo vocalista Vojtěch Holub, que vestia uma máscara Citipati do budismo tibetano e entoava vocais profundos com muita clareza. Com isso, o público estava completamente entregue à performance transcendental dos tchecos.
Os guitarristas Marek Opatrný e Vladimír Pavelka executaram todo o set com as pernas cruzadas em posição de yoga, portando as guitarras como sítaras, sob estátuas de serpentes que traziam um aspecto de proteção e força. Já o baterista Peter Heteš, mesmo escondido atrás do kit e de toda a cenografia, executava técnicas precisas com uma destreza anormal debaixo de uma túnica vermelha.
CLÁSSICOS ENVOLTOS DE DEVOÇÃO E UMA HOMENAGEM INESPERADA
Na segunda metade do show, o Cult of Fire passou a revisitar momentos importantes de sua discografia, com destaque para “Satan Mentor”, “Závěť Světu”, além das celebradas “Khanda Manda Yoga” e “Kali Ma”, em um mantra verdadeiramente hipnótico retirado do clássico Ascetic Meditation of Death (2013).
Ao vivo, essas músicas ganham uma dimensão ainda mais intensa, equilibrando perfeitamente o black metal atmosférico com a estética espiritual e esotérica que define o grupo. O encerramento do set principal veio com “Buddha 5”, mas ainda havia uma última surpresa: o vocalista Vojtěch Holub quebrou o silêncio protocolar para anunciar uma homenagem a um falecido amigo brasileiro chamado Leo Feckoff. “Reach Out the Sky and Die” foi executada ao vivo pela primeira — e provavelmente única — vez.
Uma canção de sonoridade incomum dentro da proposta do Cult of Fire, porém extremamente pesada e emocional, arrancando uma reação imediata do público e encerrando a noite sob forte comoção.
UMA VERDADEIRA COMUNHÃO ESPIRITUAL DO METAL EXTREMO
O impacto de presenciar uma apresentação do Cult of Fire é imediato — e inevitável. Pouquíssimas bandas dentro do metal extremo contemporâneo conseguem transformar um show em algo tão sensorial, hipnótico e espiritualmente carregado quanto o que foi apresentado naquela noite na Burning House. Não se trata apenas de música ou performance: existe uma dimensão quase transcendental em tudo que envolve a banda, desde os cânticos ritualísticos até a construção visual tomada por fumaça, símbolos e movimentos cuidadosamente calculados.
A espiritualidade que emana das composições do Cult of Fire ganha uma força ainda maior ao vivo, criando uma atmosfera difícil de comparar com qualquer outro nome do gênero atualmente. Cada detalhe parece pensado para provocar algum tipo de reação — visual, emocional ou até física — fazendo com que os cinco sentidos sejam constantemente estimulados durante toda a apresentação. O público deixa de ser apenas espectador e passa a fazer parte daquele ritual coletivo.
E talvez seja justamente esse o maior diferencial do Cult of Fire: a capacidade de transformar agressividade, contemplação e espiritualidade em uma experiência única. Por alguns instantes, em meio ao incenso, aos mantras e ao peso esmagador das músicas, a sensação realmente se aproxima de um breve estado de “nirvana”.
Cult of Fire setlist – 20/05/2026 – Burning House
- Loss
- Mourning
- Anger
- Dhoom
- Blessing
- Joy
- There Is More to Lose
- Závěť Světu
- Kālī mā
- Untitled 1
- Khaṇḍa maṇḍa yōga
- (ne)Čistý
- Satan Mentor
- Buddha 5
- Reach The Sky and Die!

























