Draconian entrega show surpreendente e emociona os fãs em São Paulo

Execução de músicas novas e antigas ao vivo marcaram uma apresentação única para os fãs brasileiros.

Fotos por Amanda Sampaio – @amandasampaio.ph

A passagem do Draconian pelo Brasil no último dia 16 de maio carregou um peso diferente. Três anos após sua estreia em território brasileiro, a banda retornou promovendo In Somnolent Ruin, álbum que consolida ainda mais uma identidade que, há décadas, transita entre o doom metal, a melancolia gótica e reflexões profundamente existenciais.

O palco escolhido foi o Carioca Club, em São Paulo, numa noite produzida pela Mirror AM. E, apesar do cronograma incomumente cedo para os padrões nacionais — muito provavelmente por conta do show do Korn, que aconteceria mais tarde no Allianz Parque —, isso em nenhum momento afetou a entrega do público. A casa já estava completamente tomada antes mesmo do início do show de abertura.

EMMA RUTH RUNDLE ENTREGA INTIMISMO EM MEIO AO PESO DA NOITE

Anunciada como convidada especial (um tanto inconvencional) para as aberturas da turnê, a cantora americana Emma Ruth Rundle fez uma apresentação com uma proposta minimalista e profundamente introspectiva.

Sozinha, apenas com o violão no colo, Emma entoou suas canções folk carregadas de melancolia e densidade emocional. Sua estética sonora conversa diretamente com aquilo que o gothic doom absorveu ao longo dos anos: contemplação, tristeza e espiritualidade sombria.

Ainda assim, a sensação que ficou é que seu show talvez funcionasse melhor em outro contexto — um teatro, um evento mais intimista ou até mesmo uma performance solo, sem a expectativa de uma noite voltada ao peso extremo. Isso, porém, não diminui a qualidade da apresentação.

Durante os cerca de 40 minutos de set, músicas como “Living with the Black Dog”, “Citadel”, “Blooms of Oblivion” e “Marked for Death” criaram uma atmosfera bastante particular dentro da casa. E havia muita gente ali, inclusive, exclusivamente para vê-la.

O RITO ABSOLUTO DO GOTHIC DOOM METAL

Quando o Draconian finalmente tomou o palco, ficou evidente que aquela não seria apenas mais uma apresentação da turnê. Lisa Johansson entrou proferindo os primeiros versos de “I Welcome Thy Arrow” antes da explosão instrumental da banda; o show já começava com uma sensação quase cinematográfica. Bastaram poucos minutos para entender que aquela seria uma experiência muito acima da média.

A segunda música da noite, “The Wretched Tide”, apareceu como uma surpresa extremamente significativa. Ausente dos sets desde 2019, a faixa ganhou ainda mais impacto por ser interpretada ao vivo por Lisa pela primeira vez — e funcionou perfeitamente.

Na sequência, “The Last Hour Ancient Sunlight” aprofundou ainda mais o caráter raro daquela apresentação. Outra música pouco executada ao vivo, recebida com evidente emoção pelos fãs mais antigos.

DEVOÇÃO EMOCIONAL DE VÁRIAS ERAS DA BANDA

O riff de “Heavy Lies the Crown” atingiu como uma bola de chumbo de mil toneladas, trazendo toda a identidade clássica do doom metal do álbum Sovran (2015). O Carioca Club já estava completamente entregue à Draconian.

Mas talvez um dos momentos mais emocionantes da noite tenha vindo com “A Scenery of Loss”, do seminal Arcane Rain Fell (2005). Foi impossível não perceber pessoas visivelmente emocionadas enquanto cantavam cada verso.

Logo depois, “The Face of God”, do novo álbum, trouxe uma energia mais agressiva e esotérica — algo profundamente recorrente dentro da sonoridade do Draconian, sempre orbitando temas ligados à espiritualidade, questionamentos de fé e decadência existencial. As guitarras de Niklas Nord e Johan Ericsson soavam como uma orquestra distorcida, com melodias elegantes e afiadas, unidas à monstruosa e pesada “cozinha dos Daniels” — Daniel Arvidsson no baixo e Daniel Johansson na bateria.

O breve interlúdio etéreo de “Asteria Beneath the Tranquil Sea” serviu como a introdução perfeita para “Cold Heavens”, primeiro single de In Somnolent Ruin. Ao vivo, a música ganha outra dimensão: intensa, grandiosa e absurdamente emocional.

UM EXEMPLO DE APRESENTAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIO

O grande mérito da apresentação esteve justamente na construção do repertório.

Ao invés de apostar apenas em “hits seguros”, o Draconian escolheu montar um set profundamente voltado aos fãs mais dedicados — e isso transformou o show em algo especial.

“Lustrous Heart”, do excelente Under a Godless Veil (2020), teve um dos refrões mais cantados da noite e exibiu a entrega emocional e espiritual do vocalista Anders Jacobsson. Já “Misanthrope River” mostrou como o material novo já soa familiar ao público, mesmo sendo recente.

Em seguida, “Heaven Laid in Tears” trouxe talvez o ápice emocional do show, com o Carioca Club inteiro acompanhando os vocais quase em estado de devoção coletiva.

Mas a maior surpresa veio com “Claw Marks on the Throne”, executada ao vivo pela primeira vez na carreira do Draconian. Um momento histórico para quem estava presente.

E o encerramento não poderia ter sido diferente: “Seasons Apart” e “The Sethian” selaram uma apresentação monumental, encerrando a noite em absoluto estado de catarse.

UMA BANDA QUE NAO PRECISA PROVAR NADA — MAS CONTINUA PROVANDO

O Draconian claramente atravessa um de seus melhores momentos.

Depois de mais de três décadas de existência, o Draconian já não precisa validar sua importância dentro do doom metal moderno. Ainda assim, continua entregando trabalhos extremamente inspirados — e In Somnolent Ruin talvez seja uma das maiores provas disso.

O show em São Paulo reforçou exatamente essa sensação: uma Draconian madura, segura de sua identidade e completamente consciente da experiência que proporciona ao vivo.

Nem tudo foi perfeito. A iluminação, por exemplo, parecia excessivamente monocromática em alguns momentos e poderia valorizar muito mais a presença dos músicos no palco. Porém, isso pouco afetou a experiência geral, especialmente porque o som do Draconian estava impecável.

E talvez esse seja o ponto principal: o Draconian não depende de excesso visual ou espetáculo grandioso. A força da banda continua estando na atmosfera que constrói.

Uma atmosfera pesada, melancólica e devastadoramente humana.

SETLIST DRACONIAN CARIOCA CLUB (16/05/2026) LATIN AMERICA TOUR

I Welcome Thy Arrow

The Wretched Tide

The Last Hour of Ancient Sunlight

Heavy Lies the Crown

A Scenery of Loss

The Face of God

Asteria Beneath the Tranquil Sea

Cold Heavens

Lustrous Heart

Misanthrope River

Heaven Laid in Tears (Angels’ Lament)

Claw Marks on the Throne

Seasons Apart

The Sethian

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