Texto por Vagner Mastropaulo e Fotos por Andre Santos (@andresantos_mnp)
O saudoso Warrel Dane estampou a capa da Roadie Crew 24 (novembro e dezembro/00) e a principal entrevista da edição, concedida por ele a Claudio Vicentin em matéria de quatro páginas, acabava com uma resenha de Dead Heart In A Dead World, também elaborada pelo jornalista, dando nota dez ao disco recém-lançado e por ele eleito o melhor do ano. Assim se deu o primeiro contato deste repórter com o grupo de Seattle e, feita a leitura, adquirir uma cópia do álbum virou obsessão. O próximo passo foi naturalmente conferir as duas datas na A1 em outubro/01 [https://www.youtube.com/watch?v=cXszF1fu86E], com abertura de luxo do Krisiun.
O tempo voou e, de lá para cá, ainda houve o retorno à cidade como parte do line-up do Live ‘N’ Louder de 2006 [https://www.youtube.com/watch?v=s8sm-vmH5pk] no Anhembi (doeu ver os caras tocarem apenas nove músicas) e, com fim das atividades em 2011, para quem se sentiu órfão, as opções passaram a ser assistir a Jeff Loomis no Arch Enemy na Audio em novembro/18 e novembro/22 e/ou contar com eventuais shows solo de Dane, como em: abril/14, no Hangar 110; março/15, no Inferno Club; e janeiro/16, novamente no Hangar 110 – dos quais este redator tem lembranças vívidas do último, por ter coincidido com seu aniversário.
Com o falecimento do frontman em solo paulistano em dezembro/17, pareciam sepultadas as chances de um dia ver o Nevermore reunido novamente. Eis que Jeff deixou o conjunto capitaneado por Michael Amott e, junto ao baterista Van Williams, decidiu reativar o quinteto recrutando o guitarrista norte-americano Jack Cattoi e os turcos Semir Özerkan, membro do Oceans Of Slumber, para o baixo e Berzan Önen para o vocal.
Ironicamente, o regresso a São Paulo no segundo dia do Bangers Open Air se deu no mesmo bairro da Barra Funda em que Warrel perdera a vida devido a um ataque cardíaco fulminante e, despedindo-se no Ice Stage no Memorial da América Latina, Berzan cravou: “Amamos vocês, Brasil. Vemos vocês na terça!”. De fato, viram, pois a resposta da galera foi super positiva, enchendo a casa e faminta por pancadaria, no melhor sentido do termo.
Sem abertura, restava, a rigor, um minuto em relação ao horário oficialmente divulgado de 20:30, e quem foi ao Carioca Club esperando intro e as duas primeiras tocadas no festival idênticas se surpreendeu com as mudanças: Precognition substituiu Ophidian; e Narcosynthesis e Enemies Of Reality, verdadeiras bolas de segurança do curto set de dois dias atrás, foram preservadas para logo adiante, cedendo lugar a Beyond Within e My Acid Words, encarregadas de mandar tudo pelos ares. Na segunda delas, o frontman pegou o celular de um afortunado no gargarejo e continuou sua performance e a filmagem olhando fixamente para a telinha. Encerrada a faixa de This Godless Endeavor (05), surgiram os primeiros gritos de “Ne-ver-more! Ne-ver-more!”.
No palco, não houve brecha alguma para respiro e a banda mandou bala com a citada Enemies Of Reality, com seu refrão cantado bem alto. Concluída e já sem a “amarelinha” de nossa Seleção, também parcialmente usada no domingo, o vocalista deu uma divertida, breve e gratuita aula de aquecimento vocal, dos tons graves aos agudos, pedindo para que o povo o imitasse. Tudo isso como preparação para Engines Of Hate, com uso da parte treinada previamente e inserção da repetição do refrão no final, ampliando a versão registrada originalmente em estúdio.
A próxima trouxe uma revelação de Berzan: “Talvez esta seja minha música favorita do Nevermore em todos os tempos. Vamos ver se vocês sentem o mesmo” – e citou o quinto verso de Sentient 6, “I am the new awakening of different eyes”, terminada com linda contribuição de Semir no coro. Next In Line, por sua vez, foi outra com refrão vociferado e Moonrise (Through Mirrors Of Death) tornou-se o único resgate de The Obsidian Conspiracy (10).
Comunicativo, o frontman apostou: “Acho que todos vocês vão se lembrar desta. E quero que todos vocês me mostrem o que têm e pulem pra cacete!” – Inside Four Walls, bem cantada, mas com algum erro de sincronia no início de sua execução, fazendo com que ela soasse um pouco alternativa e dificultasse a identificação imediata. Em seguida, ocorreu o momento possivelmente mais tocante da noite em meio a agradecimentos de Berzan:
“Obrigado, São Paulo! Vocês são sensacionais. Isso era o que eu estava esperando da platéia brasileira. Era meu sonho vir aqui e vocês não me decepcionaram de forma alguma! Agora…”, forçado a interromper a fala com o povo gritando seu nome. Emocionado, ele retomou: “Vocês vão me fazer chorar! Muito obrigado! Agora esta é uma música muito especial. Então esta é para tudo que todos nós perdemos, especialmente o Warrel. Esta música é para o poderoso Warrel Dane”, a belíssima The Heart Collector, culminando num trecho da letra de Enemies Of Reality, de modo similar a como Dane a eternizara no ao vivo The Year Of The Voyager (08).
Chegando a uma hora no relógio, Born teve pedido por wall of death da parte do vocalista, gerou uma mega roda e, exatamente como no mencionado This Godless Endeavor, Final Product a sucedeu, muitíssimo bem “berrada” pelo público. Visando instigar, o frontman disparou: “São Paulo, no que vocês acreditam? Eu disse: ‘No que vocês acreditam?’”, aludindo a Believe In Nothing.
Grato, ele deu a notícia que não se queria ouvir: “Saúde! Obrigado, São Paulo! Vocês são sensacionais! Esta é a platéia que eu estava esperando. Obrigado por não me desapontarem. Agora, esta é nossa última música da noite”, This Godless Endeavor, embora um pouco abaixo do que as anteriores, foi outra a surpreender pela cantoria. Para o encore, Jeff sucintamente deu o ar da graça:
“Ei, muito obrigado a cada um de vocês! Obrigado! É ótimo estarmos de volta e amamos vocês! Obrigado!”. Foi sua única interação antes de detonarem com Narcosynthesis e The River Dragon Has Come. Despedindo-se, Berzan abriu o coração: “Obrigado, São Paulo! Amamos vocês! Vocês são sensacionais! Obrigado!”. E enquanto Emerald, do Thin Lizzy, rolava como outro fazendo a apresentação beirar uma hora e quarente e três minutos, nos dávamos conta de que todas as pedradas do Bangers foram mantidas no repertório, exceto a referida troca de intro.
Na prática, não teve nada do début Nevermore (95) e dele poderiam ter incluído What Tomorrow Knows. Para o gosto deste escriba, faltaram We Desintegrate, Ambivalent e especialmente a sensacional balada Dreaming Neon Black. E seria demais sonhar com Poison Godmachine um dia? Há quem tenha sentido a ausência de The Seven Tongues Of God, presente em Santiago, sempre confiando na veracidade dos dados contidos no site Setlist.fm.
Por fim, ninguém prometeu nada, nenhum membro oficialmente sequer cogitou a hipótese, mas a amostragem foi tão significativa que não seria absurdo criarmos a expectativa por material inédito futuramente. Ou não? Por ora, desfrute da gravação integral que uma boa alma subiu para o YouTube [https://www.youtube.com/watch?v=ZkAGLDJPlWY] e reflita: indo além de uma mera cópia, Berzan foi ou não foi a escolha perfeita?
Setlist
Intro: Ophidian
01) Beyond Within
02) My Acid Words
03) Enemies Of Reality
04) Engines Of Hate
05) Sentient 6
06) Next In Line
07) Moonrise (Through Mirrors Of Death)
08) Inside Four Walls
09) The Heart Collector
10) Born
11) Final Product
12) Believe In Nothing
13) This Godless Endeavor
Encore
14) Narcosynthesis
15) The River Dragon Has Come
Outro: Emerald [Thin Lizzy]






















