Finlandeses equilibraram faixas recentes e clássicos dos anos 1990 em apresentação marcada por atmosferas densas, vocais versáteis e forte conexão com o público
Fotos por Andre Santos (@andresantos_mnp)
O Amorphis retornou a São Paulo no domingo (18), para uma apresentação no Carioca Club, em Pinheiros, reunindo diferentes fases de sua trajetória em um repertório que percorreu o metal melódico, passagens sombrias e elementos de folk. Na sexta passagem pelo Brasil, a banda finlandesa mostrou como consegue renovar sua identidade sem abandonar as características que marcaram seus primeiros discos.
A abertura ficou por conta dos paulistas do Throw me to the Wolves. Com cerca de 40 minutos de apresentação, o quarteto apresentou músicas de seu repertório e duas composições inéditas, “Angels Fall” e “Forsaken Fears”, antecipando material que estará no próximo álbum. O principal obstáculo foi a mixagem: os graves da bateria encobriram parte dos instrumentos, prejudicando a definição dos arranjos e a compreensão das nuances do grupo. Mesmo com as tentativas do vocalista Diogo Nunes de envolver a plateia, a resposta foi discreta.
Amorphis: entre a fase atual e os clássicos
A entrada dos finlandeses aconteceu com “Bones”, faixa de Borderland (2025), que abriu o show com uma condução firme e cadenciada. Na sequência, “Light and Shadow” destacou o diálogo entre os teclados de Santeri Kallio e as guitarras de Esa Holopainen, combinação fundamental para a sonoridade mais atmosférica da banda.
Com “Silver Bride”, o público começou a cantar em peso, acompanhando o refrão da música de Skyforger (2009). O embalo continuou em “Wrong Direction”, de Queen of Time (2018), e “Death of a King”, de Under the Red Cloud (2015), duas faixas que evidenciaram a força das melodias e a capacidade do grupo de alternar passagens elaboradas com momentos de impacto.
Em “Fog to Fog”, a cadência mais leve abriu espaço para uma mudança de clima. A introdução de “Thousand Lakes”, reproduzida pelas caixas de som, preparou o terreno para o retorno ao material de Tales from the Thousand Lakes (1994), um dos trabalhos mais importantes da discografia dos finlandeses.
“The Castaway” trouxe melodias de inspiração folk, acompanhadas por pausas que permitiram à plateia responder com gritos e manifestações coletivas. A aparente leveza da composição contrastou com seu conteúdo melancólico, característica que ajudou a definir a personalidade musical do Amorphis desde os primeiros anos.
Na sequência, “The Lantern” desacelerou o andamento e aprofundou o clima sombrio. “The Moon” reforçou essa atmosfera com sua abordagem introspectiva, enquanto “Sampo” e “The Smoke” destacaram o papel dos teclados na construção de paisagens sonoras densas. Nesse trecho, ficou evidente como a banda transformou as raízes extremas em uma linguagem mais melódica e sofisticada, sem abrir mão da intensidade.
A interpretação de Tomi Joutsen foi um dos pontos altos da apresentação. Há mais de duas décadas à frente do grupo, o vocalista alternou guturais agressivos e linhas limpas com naturalidade, transitando entre a brutalidade e a emoção sem perder o controle da performance. Sobre uma pequena plataforma no palco, conduziu a plateia enquanto os músicos sustentavam os arranjos com precisão.
A passagem pelos anos 1990 ganhou seu momento mais expressivo com “Black Winter Day”, recebida com entusiasmo pelos fãs. Antes dela, um trecho de “Magic and Mayhem” recuperou a energia de Tales from the Thousand Lakes. Já a execução parcial de “My Kantele”, clássico de Elegy (1996), trouxe uma lembrança importante de outra etapa da carreira, embora o repertório não tenha se concentrado na celebração dos 30 anos desse álbum.
Depois da imersão nos clássicos, “Dancing Shadow” apresentou uma sonoridade mais próxima do industrial, funcionando como contraponto às passagens anteriores. A música ajudou a conduzir o show de volta à fase contemporânea, antes de “House of Sleep” assumir o encerramento do repertório principal.
Lançada em Eclipse (2006), a faixa se transformou em um dos grandes momentos da noite. A cada refrão, a banda interrompia o instrumental para que o público cantasse sozinho, criando uma interação que cresceu até os últimos versos. A participação coletiva também veio acompanhada de gritos e brincadeiras com a pronúncia do nome do grupo.
Após uma breve pausa, o Amorphis retornou para o bis com “The Bee”, de Queen of Time. Em vez de apostar em uma despedida acelerada e festiva, a banda escolheu uma composição de estrutura elaborada, mudanças de dinâmica e atmosfera dramática.
Enquanto Holopainen e Kallio conduziam os trechos instrumentais, Joutsen dividia os vocais com uma plateia que acompanhou o refrão em uníssono. A escolha encerrou a apresentação de maneira coerente com a proposta do grupo: combinar peso, melodia e complexidade sem recorrer a fórmulas previsíveis.
Após um show longo, mas bem coeso, o Amorphis demonstrou que sua evolução não significou abandonar o passado, mas ampliar as possibilidades de sua música. Entre a força das composições recentes e a profundidade dos clássicos, a apresentação no Carioca Club reafirmou a identidade singular de uma banda que encontra na tensão entre agressividade e melancolia sua principal marca.
Setlist – Amorphis – Carioca Club – 18/10/26
- Bones
- Light and Shadow
- Silver Bride
- Wrong Direction
- Death of a King
- Fog to Fog
- Thousand Lakes (introdução)
- The Castaway
- The Lantern
- The Moon
- Sampo
- The Smoke
- Magic and Mayhem (trecho)
- Black Winter Day
- My Kantele (trecho)
- Dancing Shadow
- House of Sleep
Bis:
18. The Bee





























































