Com performance ritualística de Spellgoth e atmosfera obscura, banda finlandesa fez apresentação intensa em São Paulo, com abertura do Carpatus
Fotos por Thais Ferreira Nascimento (@thais.f.n)
A Burning House, em São Paulo, foi tomada pela escuridão na noite de quarta-feira, 21 de outubro, com a passagem do HORNA pela capital paulista. Parte da turnê latino-americana do grupo finlandês, a apresentação teve contornos de ritual, com atmosferas densas, passagens agressivas e uma performance de palco que transformou o show em uma experiência quase cerimonial.
Carpatus abre a noite com black metal visceral
Pontualmente as 19:30, o Carpatus deu início à noite, representando a força do black metal nacional. Formada em 1999, em Santo André, no ABC Paulista, a banda liderada por Dizruptor encontrou uma casa já relativamente cheia para apresentar sua sonoridade crua e sombria. Com raízes fincadas na escola dos anos 1990, o grupo apostou em riffs agressivos e passagens angustiantes, criando uma atmosfera de desolação que dialoga diretamente com as temáticas de suas composições.
O repertório também serviu para destacar Magna Umbra, álbum lançado em 2023, trabalho que mantém a identidade extrema do grupo. Sem rodeios, o Carpatus entregou uma abertura coerente com a proposta da noite, preparando o público para a chegada dos finlandeses e reafirmando a presença do underground brasileiro em um evento dedicado às vertentes mais obscuras do metal.
HORNA: uma missa negra em pleno palco
Com o ambiente preparado, o HORNA assumiu o palco e mergulhou a Burning House em uma atmosfera sufocante. Formada em 1994, na Finlândia, a banda carrega décadas de dedicação ao black metal tradicional, mas foi a presença de Spellgoth que deu uma dimensão particular à apresentação paulistana. Seus gestos, expressões e movimentos iam além da interpretação vocal convencional: em vários momentos, parecia estar tomado por uma entidade, conduzindo o público por um ritual sombrio.
A apresentação começou com “Muinaisten alttarilta”, estabelecendo desde os primeiros acordes a sonoridade crua e hostil que caracteriza o grupo. Na sequência, “Kun synkkä ikuisuus avautuu” manteve a atmosfera carregada, enquanto Spellgoth alternava a entrega vocal intensa com gesticulações que reforçavam o caráter teatral da apresentação.
Com “Hymni I” e “Yhdeksän yö”, a banda aprofundou a imersão em seu universo obscuro. Os riffs cortantes e a agressividade instrumental sustentavam o clima, enquanto a postura do vocalista parecia transformar cada passagem em parte de uma cerimônia. Em alguns momentos, Spellgoth pronunciava frases em finlandês e tocava um sino, acrescentando elementos que aproximavam a apresentação de uma encenação ritualística.
“Haudattujen tähtien yönä” deu continuidade à sequência sombria, seguida por “Hymni III”, mantendo a tensão que atravessava o espetáculo. Não se tratava apenas de executar as músicas: a presença de palco de Spellgoth conferia uma dimensão visual e simbólica ao repertório, como se cada gesto fizesse parte de uma liturgia obscura.
O momento mais marcante dessa proposta veio com “Baphometin siunaus”. Durante a música, Spellgoth utilizou uma espécie de defumador, espalhando ainda mais a atmosfera cerimonial pelo palco. A combinação do objeto com sua interpretação, os gestos e o ambiente já estabelecido reforçou a impressão de que o público acompanhava um ritual de black metal, com referências visuais e simbólicas que evocavam uma missa negra.
Na sequência, “Kuoleva lupaus” manteve a intensidade, antes de “Hymni V” retomar o caráter quase litúrgico da apresentação. A cada intervenção vocal, o finlandês parecia assumir um papel diferente dentro daquela encenação, alternando momentos de agressividade com ações que tornavam sua performance imprevisível e hipnótica.
Já “Tappakaa Kristus!” levou o espetáculo novamente à sua faceta mais provocadora, sustentada pela sonoridade extrema e pela postura de Spellgoth. Para encerrar, “Örkkivuorilta” concluiu o repertório com mais uma descarga de black metal, mantendo a atmosfera obscura que dominou a noite.
A apresentação do HORNA na Burning House foi marcada pela combinação entre a agressividade sonora do black metal finlandês e uma performance de palco que explorou símbolos, gestos e elementos ritualísticos. Spellgoth foi o grande destaque, especialmente pela maneira como incorporou esses recursos à interpretação, transformando o palco em um espaço de encenação sombria.
Com o Carpatus cumprindo seu papel de abertura e o HORNA entregando um espetáculo intenso, a noite de 21 de outubro reafirmou a força do black metal underground e sua capacidade de criar experiências que vão além da música. Por alguns momentos, a Burning House pareceu menos uma casa de shows e mais o cenário de uma missa negra conduzida sob o signo da escuridão.
O HORNA conta atualmente com Shatraug (Ville Pystynen), guitarrista e um dos integrantes fundadores, na linha de frente desde 1994; Infection (Mynni Luukkainen), responsável pela guitarra desde 2008; LRH (Lauri Rytkönen), na bateria desde 2016; e VnoM (Ville Markkanen), no baixo desde 2018. Ao longo das décadas, a formação passou por mudanças, mas Shatraug permanece como principal referência do projeto, conduzindo a trajetória da banda finlandesa dentro do black metal underground.
HORNA SETLIST – 21/10/2026 – BURNING HOUSE:
- Muinaisten alttarilta
- Kun synkkä ikuisuus avautuu
- Hymni I
- Yhdeksän yö
- Haudattujen tähtien yönä
- Hymni III
- Baphometin siunaus
- Kuoleva lupaus
- Hymni V
- Tappakaa Kristus!
- Örkkivuorilta




















