Moonspell: O Retorno dos Lobisomens Lusitanos

O grupo português entregou um show sólido no Carioca Club, equilibrando nostalgia, densidade e presença de palco em uma noite marcada por um misticismo romântico

Fotos por Ísis Trindade (@isistrindadephotos)

A noite do dia 22 de março, no Carioca Club, não se desenhou como apenas mais uma passagem internacional pela capital paulista. Desde a abertura, o ambiente já indicava um direcionamento claro: atmosfera carregada, público engajado e uma expectativa que ia além do entretenimento — havia ali uma predisposição para o ritual.

Com a proposta da turnê “Wolfheart and Other Stories”, celebrando três décadas de um dos trabalhos mais emblemáticos da banda, o Moonspell chegava com a responsabilidade de não apenas revisitar seu passado, mas também reafirmar sua relevância dentro de uma cena que mudou drasticamente ao longo dos anos.

Abertura impactante e bem selecionada

A banda Sinistro foi encarregada de aquecer a nossa “missa de domingo”. Formada também em Lisboa, em 2011, o grupo mescla o peso soturno do doom metal com a melancolia do fado — um estilo musical português do século XIX.

Com letras exclusivamente em português, o quarteto formado por Ricardo Matias e Rick Chain (guitarras), Paulo Lafaia (bateria) e Priscila da Costa apresentou emoção e riqueza sonora com canções do álbum Vértice (2024). Mesmo sem a presença do baixista Pedro do Vale, o peso das guitarras servia como um véu de chumbo, sustentado pelas batidas profundas da bateria e pela voz intensa de Priscila.

A música “Templo das Lágrimas” evidenciou a riqueza poética e um arranjo esplendoroso — particularmente mais impactante que a proposta sonora da banda anfitriã.

O feitiço da lua toma conta do recinto

Pontualmente às 20h, a banda subiu ao palco. O impacto não veio necessariamente pela velocidade ou agressividade imediata, mas pela construção. Houve uma preocupação evidente em estabelecer o clima antes de explodir — algo que acompanha o Moonspell desde seus primeiros registros.

O setlist se apoiou fortemente no material de Wolfheart, mas não se limitou a ele. Há uma costura entre fases que funciona como uma narrativa de carreira, alternando momentos mais crus e outros mais lapidados, refletindo a evolução estética do grupo ao longo das décadas.

A abertura com “Wolfshade (A Werewolf Masquerade)” funciona como um chamado. Não é só uma música — é um portal. A partir dali, o show se desenha como uma narrativa cuidadosamente estruturada.

Faixas clássicas surgem não apenas como fan service, mas como pilares estruturais da apresentação. O público responde com intensidade, especialmente nos momentos em que o peso encontra o lado mais melódico e melancólico da banda.

A sequência com “Love Crimes” e “Vampiria” estabelece o equilíbrio entre o lado mais cru e o mais teatral do grupo, enquanto “An Erotic Alchemy” e “Alma Mater” (com participação especial de Jairo Guedz, do Troops of Doom) reforçam o peso histórico do repertório — aqui, já com o público completamente entregue.

Presença, estética e controle de palco e performances intocáveis

Se existe um elemento constante ao longo dos anos, é a presença de palco de Fernando Ribeiro. Mais do que vocalista, ele atua como condutor da experiência, alternando entre momentos quase introspectivos e outros de maior teatralidade.

Faixas como “Extinct”, “Breathe (Until We Are No More)” e “Everything Invaded” mostram essa maturidade: menos sobre provar habilidade, mais sobre sustentar a atmosfera.

Não se trata de exagero performático, mas de controle. Cada movimento, cada interação e cada pausa parecem pensados para manter o público imerso. Em um cenário como o do Carioca Club, mais íntimo e direto, esse tipo de condução se torna ainda mais evidente — e eficaz.

A banda, por sua vez, opera com precisão. Sem excessos técnicos ou exibicionismo, o foco permanece na entrega coletiva e na construção de atmosfera, algo que sustenta o show mesmo nos momentos menos conhecidos do repertório.

Quando chegam “Opium” e “Full Moon Madness”, não há mais distinção entre palco e plateia. O Carioca Club vira um corpo único, reagindo em sincronia.

Um set que equilibra, mas não arrisca tanto

Apesar da solidez, o setlist também mostrou uma certa zona de conforto. A escolha por equilibrar diferentes fases funciona bem do ponto de vista narrativo, mas, em alguns momentos, deixa a sensação de que a banda poderia ter ido além — seja resgatando faixas menos óbvias ou explorando com mais profundidade determinados períodos da carreira.

Mais do que nostalgia, uma reafirmação

No fim, o que se vê não é uma banda presa ao próprio legado, mas uma que entende exatamente como utilizá-lo. O Moonspell não tenta soar moderno à força, nem se apoia exclusivamente na nostalgia — transita entre esses dois pontos com segurança.

A passagem por São Paulo funciona, portanto, como uma reafirmação. Não de inovação, mas de consistência. Em um cenário em que muitas bandas veteranas se perdem entre a repetição e a tentativa de atualização, o Moonspell segue firme naquilo que sempre soube fazer: construir atmosferas densas, conduzir experiências e manter uma identidade clara.

E, no contexto atual, isso já diz muito.

SETLIST MOONSPELL CARIOCA CLUB (22/03/2026)

Tour: Wolfheart and Other Stories: The Best of Moonspell Tour 2026 

01 – Wolfshade (A Werewolf Masquerade)

02 – Love Crimes

03 – …of Dream and Drama (Midnight Ride)

04 – Tenebrarum Oratorium (Andamento I)

05 – Lua d’Inverno

06 – Trebaruna

07 – Ataegina

08 – Vampiria

09 – An Erotic Alchemy

10 – Alma Mater

(with Jairo Guedz)

11 – Lanterna dos afogados

(Os Paralamas do Sucesso cover)

12 – Opium

13 – Awake!

14 – In tremor dei

15 – Extinct

16 – Scorpion Flower

17 – Everything Invaded

18 – Full Moon Madness

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