Em um Hangar 110 tomado por calor, corpos em colisão e uma juventude faminta por catarse, Orchid faz sua estreia no Brasil após mais de duas décadas de espera.
Fotos por Daniel Agapito (@dhpito)
Se existe uma palavra capaz de sintetizar o primeiro show da Orchid no Brasil, ela é “caos”. Caos físico, emocional e, sobretudo, necessário. Pleno verão, um calor tropical daqueles que grudam na pele, pouca luz e um Hangar 110 abarrotado até o limite do possível. O tipo de noite em que o ar parece rarear conforme o relógio avança, e cada acorde empurra os corpos presentes mais para perto do colapso – ou da libertação.
Uma das primeiras surpresas da noite estava fora do palco. O público. Confesso: esperava uma plateia majoritariamente formada por trintões e quarentões, gente que viveu o impacto da Orchid nos anos 90 e início dos 2000. Mas o que se viu foi outra coisa. Muita gente jovem, muito jovem mesmo. Pessoas que mal pareciam ter chegado aos 20 anos, misturados a scene kids de estética confirmada, atitude afiada e uma fome evidente por pertencimento.
Doçura e intensidade com Magnólia
Antes da catarse principal, a noite foi construída com inteligência. Infelizmente, por problemas de organização, não foi possível acompanhar quase metade do set de abertura da Magnólia. Ainda assim, deu para entender o porquê da escolha. Liderada por Caru, a banda define seu som como “screamo fofo”, mas o rótulo não dá conta, nem de perto, da complexidade do que entregam. Misturando estilos e abordando temas como melancolia, traumas, dores do crescimento e nostalgia, a Magnólia representa uma nova geração que entende a música como espaço de acolhimento e posicionamento. Altamente engajada com a cena indie e com pautas de diversidade e inclusão de pessoas trans, a banda trouxe uma abertura coerente, tanto estética quanto politicamente. Em tempos como os atuais, ver jovens usando sua energia para defender valores é mais do que necessário, e isso dialoga diretamente com o espírito da Orchid.
Uniform: som direto e reto
A Uniform, por sua vez, trouxe uma ruptura sonora que funcionou justamente por não ser óbvia. O duo nova-iorquino não conversa diretamente com o screamo da noite, mas encontra um terreno comum quando o assunto é potência e posicionamento. Sem rodeios, subiram ao palco e despejaram um set pesado, barulhento e caótico. E se existe desordem nos acordes, há coesão absoluta no discurso.
O público começou tímido, ainda se adaptando à agressividade industrial do som, mas tudo mudou após uma fala do vocalista Michael Berdan condenando as atitudes do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra as minorias. Ali, o sangue latino falou mais alto e ferveu. As rodinhas punk (finalmente) começaram a se formar e a pista entrou em ebulição. Não é um som para todos, mas quem estava ali entendeu o chamado. Direto e reto.
O ápice da noite: Orchid
O desfecho da noite já estava escrito para ser histórico. Quando a banda finalmente subiu ao palco, qualquer tentativa de contenção se dissolveu instantaneamente. Desde os segundos iniciais, o público começou a se amontoar e disputar cada centímetro à frente do palco. Pequenos moshs surgiam e desapareciam como ondas, os stage dives aconteciam de forma quase contínua e vários crowd surfing, alguns bem-sucedidos, outros interrompidos pela gravidade e pelo excesso de corpos. Tudo parecia muito urgente, latente.

A reação enlouquecida fazia sentido. A Orchid é uma banda profundamente politizada, que nunca teve medo de nomear as feridas abertas do mundo. Capitalismo, opressão, ciclos de exploração que se repetem geração após geração… Tudo isso atravessa sua obra. E é justamente por isso que ela segue dialogando tão diretamente com a juventude de hoje. As dores cantadas ali não envelheceram. Pelo contrário: se tornaram e continuam se tornando ainda mais reconhecíveis.
O que se viu no Hangar foi um encontro entre indivíduos que, dentro de suas experiências particulares, encontraram um coletivo possível, tangível. Pessoas que usam a arte como ferramenta de sobrevivência, de extravasamento e de resistência. Música como força para seguir lutando e gritos que não pretendem consolar, mas fortalecer.

O contexto tornava tudo ainda mais simbólico. O Hangar 110 é quase um território sagrado da música underground paulista. Receber ali uma banda considerada pioneira do emoviolence e do screamo, responsável por moldar grande parte do que viria a ser produzido nos anos 90 e 2000, já seria especial por si só. Mas aquela noite foi além de qualquer expectativa razoável. Foi um começo de 2026 marcado por exorcismo coletivo, pela sensação de que algo precisava ser colocado para fora antes de seguir adiante.
Com uma mistura nada comportada de emo, punk, post-hardcore e barulho em estado bruto, a Orchid mostrou por que seu legado permanece tão vivo. Após alguns anos de atividade intensa, a banda entrou em hiato em 2002. Mais de duas décadas depois, retorna como entidade pulsante, disposta a reencontrar um público que nunca deixou o fogo se apagar, mesmo à distância, mesmo sem promessas de retorno.
O último sábado (24) fica, portanto, como um lembrete de que certas bandas não pertencem a uma fase ou época específica, mas sim a um estado de espírito que segue pulsante. Agora, resta torcer para que esse não seja um encontro único, porque há amor demais, identificação demais e verdade demais para caber em uma noite só.
Abaixo, você confere a setlist completa do show. Foto por @ratodeshow.





























