Três shows de Eric Martin no mesmo local em 367 dias! Que venham o quarto, o quinto, o sexto…

Texto: Vagner Mastropaulo / Fotos: Gabriel Gonçalves

Estréias costumam ser tensas, porém a prazerosa tarefa de debutar em colaborações com o
Sonoridade Underground foi em muito facilitada pelos próprios artistas, afinal de contas, tratava-se
da terceira passagem da lenda do Mr. Big pelo Stones Music Bar. As anteriores? Em 20/03/22,
também com Jeff Scott Soto fechando a noite; e em 15/11/22, com abertura da RF Force. Assim a
rota até lá era familiar: curta distância a pé a partir da estação Oratório, Linha-15 Prata do
“monotrilho”, uma além da última na Linha-2 Verde do metrô, a Vila Prudente.


Divulgado para as 20:30, Eric Martin veio ao palco às 20:50 ao som de um trecho de Woke Up
This Morning, do Alabama 3 e tema da série The Sopranos, novamente em companhia dos
competentíssimos músicos da Rolls-Rock: Edu Costa (guitarra), Mau Seliokas (baixo), Cris Ribeiro
(teclados) e Francis Lima (bateria). Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)
efetivamente abriu os trabalhos, com direito a um rápido: “São Paulo, como vocês estão? Olá, meus
irmãos e irmãs!”.
Colada veio a ótima Alive And Kickin’ e assim ele apresentou sua sucessora:
“Sabem? Acreditem em mim, é assim que me sinto agora mesmo: Superfantastic”. E enquanto
observávamos a decoração consistindo apenas do nome do norte-americano destacado na pele do
bumbo e o da banda bem pequenininho, o quinteto mandou Fragile.


Encerrada, surgiu a primeira interação mais elaborada do dono da festa, um tanto resumida
abaixo em virtude dos gritos misturados ao som embolado: “Lindo! Estamos bem? Que dia da
semana é hoje? É uma sexta? Terça? Quinta? Vou chamar de sábado! Sou de fora da cidade, então
sou um cliente e o cliente está sempre certo. O que acontece comigo? Continuo voltando aqui…
Como me permitem vir ao Brasil três vezes seguidas? Como isso é possível? Esta é uma turnê legal e,
a todo lugar que vou, parece que eles vão junto comigo! Não podem nos matar, somos como um
vírus: Edu, Mau, Cris e o adorável Francis – eles simplesmente estão colados a mim. Mas chega desta
besteira!”
– e fizeram Temperamental.


Como se estivesse disposto a fazer a resenha para este escriba, ele permaneceu anunciando:
“Estamos bem? Vamos tocar agora uma música do …The Stories We Could Tell (14) do Mr. Big. Ela se
chama Gotta Love The Ride”.
E se você aceita uma breve aula sobre agradecimentos, aí vai: “Muito
obrigado! Já que tenho vindo ao Brasil por todos esses anos, posso dizer ‘Obrigado!’. Sabem, no
Japão, eles dizem: ‘Dōmo arigatōgozaimasu!’ – é longo e tem que ser perfeito. É a mesma coisa na
Alemanha: ‘Danke schön!’. E no Brasil, vocês dizem: ‘Obrigado!’. Ou melhor, hoje estava num
pequeno coquetel e disseram: ‘Brigado!’. É tão simples, adoro isso!”.

Tudo precedendo uma introdução criada por Edu e Cris incluindo uma citação a Black Dog, do
Led Zeppelin, para o pacotão contínuo de Take A Walk, Rock & Roll Over e a belíssima Promise Her
The Moon, esta antecipada pelas cinco notas características de Wild Signals, vigésima quarta faixa da
trilha sonora criada por John Williams para Close Encounters Of The Third Kind (77), feitas por Cris
como introdução, e por um sutil pedido do membro do Mr. Big: “Ajudem-me com esta canção!”.


Quer um pouco de emoção? “Então, isso se tornou um ritual… Não sei se vocês me viram da
última vez, mas, ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, quando toco esta música em particular,
não consigo não pensar em Pat Torpey, ok? Obrigado! Sim! Não é chique, mas apenas uma coisa
espiritual toda vez que toco esta música – ou que o Mr. Big a tocará ano que vem, ou na última vez
que a tocamos juntos… Mas, esta noite, ela vai para Pat e esta é Take Cover”
– única de Hey Man (96)
no set e sempre maravilhosa. O respeito ao saudoso baterista é tamanho que Eric retomou o assunto
ao concluí-la: “Obrigado! Foi lindo! Em todo lugar… E tocamos muito esta música ao vivo ao longo
dos anos, transpiro demais, fica muito quente e me arrepio. Então, muito obrigado”.


Lembrando-se de outro parceiro, prosseguiu: “Antes de continuarmos, só quero dizer que
liguei para meu querido amigo Billy Sheehan outro dia por seu aniversário
[nota: o septuagésimo, em
19/03]. Eu estava em Nashville, cantamos ‘Parabéns A Você’. Se vocês pudessem levantar seus
celulares com câmeras para mostrarmos a todo mundo, vamos apenas cantar ‘Parabéns A Você’ para
o Billy de todo modo. E, vejam: até onde sei, a festa dele foi outro dia, mas a festa nunca termina e
isso é parte do trabalho”
. Mantendo a energia lá em cima, a sensacional Shine representou Actual
Size (01) e, batendo em uma hora de espetáculo, fizeram Electrified. E se você conhece a carreira do
Mr. Big, sabe qual é seu maior sucesso. Seu frontman contextualiza:


“Venho fazendo esta música em particular há uns quinze mil anos. Eu me lembro de compor
esta próxima música quando tinha uns dezesseis, dezessete anos, para impressionar as amigas da
minha irmã porque, vocês podem me entender: eu não tinha como competir. Quando tinha quinze
anos, minha aparência era ok, pesava umas dez libras e todos os garotos no meu colégio tinham
aparência melhor. Eu parecia aquele cara magrelo na praia que teria a bunda chutada e levaria uns
socos na cara. Eu tinha um rosto bem bonito de garoto, mas eu mesmo socaria aquele garoto na cara
lá atrás no colégio… Eu tinha cabelo escorrido, comprido e dividido ao meio. Enfim, escrevi esta
música especialmente para uma mulher que não gostava de mim e, quando a escrevi, a idéia era que
muitas mulheres transassem comigo… Até hoje, nada! Mas escrevi uma música de sucesso em
quinze países, incluindo o Brasil!”.

É desnecessário relatar a comoção provocada e, para mais detalhes, os versados em inglês
podem se divertir acessando “The Story Behind The Song: Mr. Big – To Be With You”
[https://www.loudersound.com/features/the-story-behind-the-song-mr-big-to-be-with-you],
postagem de Paul Lester no site da Classic Rock em 09/11/17. E como o agito não poderia parar: Addicted To That Rush acelerou a festa; Just Take My Heart reacalmou os ânimos; e Colorado Bulldog
tornou a explodir tudo novamente.

Há de se ressaltar o bom público para o set de uma hora e trinta e quatro minutos,
especialmente levando-se em conta: a brutal competição de shows na cidade na semana do
Lollapalooza; ser uma quarta-feira; haver outras datas para ver a dupla; e não existir a meia-entrada
promocional do quilo de alimento. Só não levou nota dez porque faltou Green-Tinted Sixties Mind e,
por curiosidade, o repertório preteriu composições de Defying Gravity (17) e What If… (10), embora,
deste, Undertow estivesse no setlist de palco após a saideira, possivelmente como coringa, caso
sobrasse tempo, bem como Road To Ruin, até marcada com um ponto de interrogação.


A pergunta final é: ele retorna ao recinto ainda este ano? Provavelmente não, pois já há datas
asiáticas em julho e agosto para a “The Big Finish”, a turnê de despedida de sua banda principal. Só
nos resta aguardar a passagem do super quarteto pela América do Sul em 2024…

Setlist
Intro: Woke Up This Morning [Alabama 3]
01) Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)
02) Alive And Kickin’ *
03) Superfantastic *
04) Fragile *
05) Temperamental
06) Gotta Love The Ride
07) Take A Walk
08) Rock & Roll Over
09) Promise Her The Moon *
10) Take Cover *
11) Shine *
12) Electrified
13) To Be With You *
14) Addicted To That Rush
15) Just Take My Heart *
16) Colorado Bulldog

*Com Eric Martin ao violão

Talisman, W.E.T., Soto, Spektra, Malmsteen e muito Queen – tudo em apenas duas caipiroskas!

Pelo adiantar da hora e mantidos os vinte minutos de atraso, houve quem partisse assim que
se encerrou o set anterior. Sinceramente, azar de quem esteve lá e não ficou para ver Jeff Scott Soto,
Leo Mancini (guitarra), BJ (guitarra e teclados), Henrique “Baboom” Canale (baixo) e Edu Cominato
(bateria) pisarem no palco às 22:50 utilizando It’s A Beautiful Day como intro e enfileirando clássicos,
a começar por: One Vision (com breve saudação inicial: “Aqui vamos nós! São Paulo? Oi, São
Paulo!”
); Another One Bites The Dust (consumindo a primeira caipiroska, sem acusar o golpe: “Esta é
apenas a música número dois… Ok, estou no Brasil!”
); e I Want To Break Free (com o elogio do meio
em nossa língua: “Vamos nos divertir? ‘Vocês são foda!’. São Paulo, deixem-me ouvi-los cantar!”).


Comunicativo, mandou sua primeira interação mais elaborada: “‘Obrigado, São Paulo! Do
caralho! Puta que pariu!’. Estou aprendendo português, agora sei ‘coxinha’, ‘vocês são foda!’. Aprendi mais português nesta viagem. Mas o que sei, de fato, é que, quando faço esses shows, e foi
anunciado que seria um tributo ao Queen, recebo um monte de mensagens negativas: ‘Não
queremos apenas Queen! Queremos ouvir JSS, Talisman… Queremos ouvir tudo!’. Então adivinhem o
que vamos fazer esta noite. Vamos fazer tudo!”.
Senha dada para Livin’ The Life, do Steel Dragon, e
Mysterious Ways (This Time Is Serious), do Talisman – já pensou se ele tocasse exclusivamente os
hinos do grupo sueco um dia, até como homenagem aos falecidos Marcel Jacob e Mats Olausson?


Voltando ao Queen, após agradecer a todos por fazerem com que se sentisse em casa há vinte
e um anos, cantou Crazy Little Thing Called Love e Fat Bottomed Girls, porém a versão completa de
Jazz (78), ao invés da editada do Greatest Hits (81), e com uma ressalva: “Sei que o Queen escreveu
esta música para todas as mulheres do Brasil!”.
Tornando a variar, focou numa trinca solo: de
Complicated (22), Last To Know, pela primeira vez ao vivo e, talvez pelo ineditismo, de lembrete, a
letra aparecia num tablet posicionado no retorno com ativação da troca de página feita no pé pelo
próprio Jeff; de Beautiful Mess (09), 21 st Century; e, de Lost In Translation (04), Drowning – já dando o
spoiler e com o perdão do trocadilho, ele não se afogou em sua segunda e definitiva caipiroska.


Quer mais? Ele explana: “Sabem, toda vez que pouso em Guarulhos, penso: ‘Estou fodido!’.
Porque sei que, assim que pousar, vou ficar bêbado do primeiro ao último dia em que estiver aqui,
pois é o Brasil! Duas coisas que aprendi a dizer, assim que pouso, são: ‘caipiroska’ e ‘coxinha’. Não
quero uma, duas, três, dez, quinze… Quero todas e quero agora!”
, aludindo ao refrão I Want It All,
emendada a Stone Cold Crazy, até Jeff temporariamente deixar o palco para rolar Overload, única do
Spektra, com BJ no vocal e Baboom finalmente tendo mais espaço ao descer do degrau onde se
posicionava perto de Edu.

Retornando para um medley aos sessenta minutos no relógio, observamos as munhequeiras:
roxa no pulso esquerdo e amarela no direito, em clara referência ao Lakers – bem como seu All Star também roxo com detalhes em amarelo e o escudo do time de basquete de Los Angeles. Melhor dar
a palavra ao anfitrião: “Alguém aqui esta noite já ouviu uma banda que atende por W.E.T.? Ok,
quatro pessoas a conhecem… Ótimo! Cinco! Seis, sete, oito, nove, dez! Bem, todo ano me dizem: ‘Ei,
cara, toque algo do W.E.T.!’. E respondo: ‘Qual música?’. Espere um minuto: temos quatro álbuns!
Por que não tocar quatro músicas tiradas dos quatro álbuns? Então vamos do disco mais recente até
o primeiro. Aqui vamos nós!”
. Na prática, um medley de Big Boys Don’t Cry, Watch The Fire, Learn To
Live Again e One Love, curiosamente faixas um de Retransmission (21) e Earthrage (18) e dois de Rise
Up (13) e W.E.T. (09) – assim cumprindo a promessa e percorrendo a discografia. Da mesma forma, já
pensou como seria uma apresentação contendo somente canções do conjunto?

E como o melhor a fazer é (quase) sempre deixar o próprio artista se expressar, “Ok, gente,
preciso de ajuda na próxima música. Não apenas a de vocês, mas da banda e do Sr. Eric Martin!”
, e se
você sentiu a falta de Wild World, ela foi propositadamente deixada de lado para um dueto trazendo
Edu nos backing vocals e Mau no lugar de Baboom. Vai mais Queen aí? Numa só tacada, Under
Pressure, Radio Ga Ga e Bohemian Rhapsody, esta com leve erro na hora do “Nothing really
matters”, assim justificado pelo vocalista, esbanjando bom humor: “Vocês me ferraram, mas agora
vamos cantar juntos, certo?”,
em menção ao derradeiro “Anyway the wind blows”.

Rápida saída do palco e um novo medley, agora de Yngwie Malmsteen. Em síntese: I Am A
Viking e I’ll See The Light Tonight. A saideira? I’ll Be Waiting, do Talisman, com snippets de: Livin’ On
A Prayer, do Bon Jovi; Don’t Stop Believin’, do Journey; e The Final Countdown, do Europe –
arrematando a noite em uma hora e quarenta e quatro minutos de um puta show! Só para registrar,
o setlist de palco ainda incluía: Now I’m Here, The Prophet’s Song e Love Of My Life, antes do medley
do W.E.T.; e The Show Must Go On, após Bohemian Rhapsody. Ficaram para a próxima, que seja em
breve, e que Deus salve a Rainha, o Rei, o Queen, Eric Martin e Jeff Scott Soto!!!

Setlist
Intro: It’s A Beautiful Day [Queen]
01) One Vision [Queen]
02) Another One Bites The Dust [Queen]
03) I Want To Break Free [Queen]
04) Livin’ The Life [Steel Dragon]
05) Mysterious Ways (This Time Is Serious) [Talisman]
06) Crazy Little Thing Called Love [Queen]
07) Fat Bottomed Girls [Queen]
08) Last To Know [Jeff Scott Soto]
09) 21 st Century [Jeff Scott Soto]
10) Drowning [Jeff Scott Soto]
11) I Want It All [Queen]
12) Stone Cold Crazy [Queen]
13) Overload [Spektra]
14) Medley: Big Boys Don’t Cry / Watch The Fire / Learn To Live Again / One Love [W.E.T.]
15) Wild World [Cat Stevens] [Com Eric Martin, Edu Costa E Mau Seliokas]
16) Under Pressure [Queen + David Bowie]
17) Radio Ga Ga [Queen]
18) Bohemian Rhapsody [Queen]
Encore
19) Medley: I Am A Viking / I’ll See The Light Tonight [Yngwie Malmsteen]
20) I’ll Be Waiting [Talisman] [Com Snippets De: Livin’ On A Prayer (Bon Jovi), Don’t Stop
Believin’ (Journey) e The Final Countdown (Europe)]

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About Gustavo Diakov

Idealizador disso aqui, Fotógrafo, Ex estudante de Economia, fã de música, principalmente Doom/Gothic/Symphonic/Black metal, mas as vezes escuto John Coltrane e Sampa Crew.

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