Iron Maiden faz de São Paulo palco para uma viagem épica por cinco décadas

Texto por Jessica Valentim (@jessvlntm) – Foto da capa por Gustavo Diakov (@xchicanox) – Fotos do texto por Stephan Solon / Divulgação

O Iron Maiden deu início à sua passagem brasileira da Run For Your Lives Tour no domingo (25), no Nubank Parque, em São Paulo. A turnê celebra os 50 anos de história de uma das bandas mais influentes do heavy metal e chega ao Brasil para três apresentações: além do primeiro show, o grupo retorna ao mesmo palco na terça-feira (27) antes de seguir para Curitiba, onde se apresenta na quarta-feira (28), na Arena da Baixada.

A passagem brasileira marca a estreia de Simon Dawson diante do público do país como baterista do Iron Maiden, após assumir o posto de Nicko McBrain, que se despediu da banda em 2024 (ao menos das apresentações ao vivo). O músico, que já dividia os palcos com Steve Harris no British Lion, projeto paralelo do baixista, passa agora a integrar a formação que celebra os 50 anos do Maiden. A noite de abertura ficou por conta do Alter Bridge, responsável por preparar o público para o reencontro com os britânicos.

Alter Bridge: competência e um público dividido

Formado em 2004 por três ex-integrantes do Creed — Mark Tremonti (guitarra), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria) —, o Alter Bridge tem em Myles Kennedy (vocal e guitarra) a peça que completa a formação. O vocalista também integra a banda solo de Slash, guitarrista do Guns N’ Roses. Com uma sonoridade que transita entre o hard rock e o metal alternativo, com riffs pesados, melodias marcantes e refrões grandiosos, o grupo tem uma identidade musical bastante diferente do heavy metal clássico do Iron Maiden.

A apresentação foi pautada por músicas importantes da trajetória da banda e encontrou uma plateia que, embora ocupasse boa parte do estádio, parecia dividir a atenção entre o palco e os celulares. Em meio à apuração das eleições presidenciais, muitos acompanhavam os resultados com evidente apreensão. Nem mesmo o volume alto do som foi capaz de afastar os olhares das telas, e o público alternava entre as atualizações políticas e o show.

Ainda assim, o Alter Bridge conseguiu conquistar seu espaço. A banda tem uma base de fãs consolidada, e é provável que parte significativa da plateia estivesse ali também para prestigiá-la. Os músicos demonstraram satisfação com a oportunidade de abrir para o Iron Maiden, e Myles Kennedy fez questão de agradecer antes de “Silver Tongue”. Após a primeira música, o vocalista brincou que havia passado o dia inteiro treinando um “boa noite” em português. Apesar da tentativa de aproximação, as interações com o público foram pontuais.

Sem grandes produções ou discursos prolongados, o grupo entregou uma apresentação direta e eficiente. Entre os destaques, “Metalingus” trouxe um dos momentos mais reconhecíveis do repertório, enquanto “Blackbird” evidenciou o lado mais melódico e emocional da banda. Para encerrar, “Isolation” elevou a energia com seus riffs incisivos e refrão marcante, fechando o set com a intensidade necessária para preparar o estádio para a atração principal.

Setlist — Alter Bridge

  1. Silent Divide
  2. Addicted to Pain
  3. Cry of Achilles
  4. Fortress
  5. Silver Tongue
  6. Metalingus
  7. Blackbird
  8. Isolation

Iron Maiden: uma viagem por cinco décadas de história

Como anunciado, a Run For Your Lives Tour percorre o repertório dos primeiros anos do Iron Maiden, contemplando músicas do álbum de estreia, Iron Maiden (1980), até Fear of the Dark (1992). A seleção funciona como uma viagem no tempo para os fãs de longa data, mas também deixa algumas lacunas que podem causar estranhamento. É o caso de No Prayer for the Dying (1990), completamente ausente do setlist — uma espécie de sacrilégio para quem considera o disco parte importante da trajetória da banda.

Depois de tantas passagens pelo Brasil, o Iron Maiden ainda encontra maneiras de renovar a experiência ao vivo. Desta vez, além da mudança na bateria, a turnê aposta em uma abordagem visual diferente. Em vez dos tradicionais painéis de fundo e de uma superprodução baseada em elementos cenográficos físicos, o palco ganha vida por meio de telões com animações que acompanham os temas, as narrativas e a identidade visual dos álbuns representados em cada música.

A escolha não diminui o impacto do espetáculo. Pelo contrário: as imagens digitais criam uma ambientação própria para cada faixa e reforçam a proposta de revisitar diferentes fases da discografia. Para quem acompanha a banda há décadas, é uma oportunidade de reencontrar músicas que marcaram diferentes momentos da vida, agora reunidas em um mesmo repertório. Há nostalgia, emoção e a sensação de estar diante de uma história que continua sendo escrita mesmo depois de meio século.

E, claro, não poderia faltar Eddie. O mascote do Iron Maiden, talvez o boneco de Olinda mais metal que o mundo já viu, surge em dois momentos da apresentação. Em “Killers”, aparece com o visual característico da capa do álbum homônimo, de 1981. Já em “The Trooper”, retorna com a figura do soldado britânico e a bandeira do Reino Unido em seu uniforme, em uma das imagens mais emblemáticas da banda. A música, aliás, parece ter conquistado um lugar cativo no repertório ao vivo de onde não pretende sair tão cedo.

Bruce Dickinson conduz a viagem pelo repertório

Foram pouco mais de duas horas de apresentação, com Bruce Dickinson assumindo o papel de mestre de cerimônias e conduzindo a noite com presença de palco e domínio do repertório. À frente dele, cinco monumentos do heavy metal: Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith, Janick Gers e o estreante Simon Dawson.

A ausência de Nicko McBrain, após décadas de história com a banda, naturalmente deixa saudades. Dawson tem uma abordagem própria, com uma execução mais contida, que contrasta com a personalidade rítmica de seu antecessor. Ainda assim, sua atuação não compromete a força do conjunto. Ao longo do show, algumas músicas apareceram com mudanças de andamento e houve pequenos deslizes de execução, sem comprometer o resultado. Afinal, é justamente a natureza de uma apresentação ao vivo, sem depender de faixas de apoio para corrigir cada detalhe, que preserva parte da imprevisibilidade do rock.

Após a tradicional introdução com “Doctor Doctor”, do UFO, a base gravada de “Murders in the Rue Morgue” anunciou o início do espetáculo com uma explosão de energia — e fez boa parte do público deixar os celulares de lado para acompanhar o que acontecia no palco. “Wrathchild”, “Killers” e a épica “Phantom of the Opera” completaram esse primeiro mergulho nos anos iniciais da banda.

Antes de “Phantom of the Opera”, uma das primeiras composições extensas do repertório do Iron Maiden da noite, Bruce contextualizou a história por trás da música, reforçando a dimensão narrativa que acompanha a trajetória do grupo. A fase inicial só seria retomada no encerramento do set regular, com “Iron Maiden”, executada em um andamento visivelmente mais lento do que o habitual.

Clássicos e epopeias: o peso dos 50 anos

“The Number of the Beast”, sombria e teatral, foi cantada em coro pelo público, assim como outros grandes clássicos da noite. Entre eles, porém, a banda intercalou composições mais longas, começando por “Infinite Dreams”, um dos momentos mais aguardados da apresentação. A faixa de Seventh Son of a Seventh Son (1988), apontada por Bruce Dickinson como sua favorita em entrevista à Kerrang!, voltou aos palcos após quase 38 anos fora do repertório ao vivo. Em São Paulo, ganhou um significado especial: foi apresentada pela primeira vez no Brasil, e Bruce comentou acreditar que a banda nunca havia tocado a música no país. Com sua atmosfera introspectiva e passagens instrumentais velozes, a canção trouxe um raro momento de contemplação ao repertório.

Na sequência, “Powerslave”, grandiosa e hipnótica, ganhou ainda mais força com Bruce usando sua tradicional máscara, em sintonia com a temática egípcia da música. Já “2 Minutes to Midnight”, contundente e incendiária, trouxe ao telão a figura de Eddie como soldado, acompanhando a atmosfera bélica da faixa, que aborda a ameaça nuclear e a lógica da guerra.

A expectativa, no entanto, estava voltada para “Rime of the Ancient Mariner”. Com cerca de 14 minutos, a épica composição de Powerslave transformou o palco em um espetáculo à parte, combinando narrativa, interpretação teatral e fantástica de Bruce com um instrumental hipnótico, capaz de prender a atenção do público do início ao fim. Foi uma das grandes experiências da noite, reafirmando a capacidade do Iron Maiden de transformar uma composição extensa em uma jornada musical e visual.

Depois dessa viagem, “Run to the Hills”, urgente e explosiva, devolveu o show à sua energia mais imediata. Bruce deu mais uma demonstração de presença de palco, conduzindo o público em um dos momentos mais intensos da apresentação. Em seguida, “Seventh Son of a Seventh Son”, também em versão estendida, teve uma recepção mais contida, como se a plateia precisasse de um respiro após a sequência anterior. O resultado das eleições presidenciais, já conhecido naquele momento, também parecia pesar no ambiente.

“The Trooper”, com Bruce alternando entre a bandeira britânica e a brasileira, reacendeu os ânimos. Na sequência, “Hallowed Be Thy Name” manteve a intensidade: como de costume, Bruce cantou de dentro de uma cela cenográfica, enquanto os telões foram muito bem aproveitados. Os efeitos visuais criavam uma impressionante sensação de profundidade, com uma figura fantasmagórica perseguindo o vocalista em meio à fumaça até a forca, reforçando o clima dramático de um dos maiores clássicos da banda.

Um final entre guerra, sombras e nostalgia

O set regular terminou com “Iron Maiden”, executada em um andamento visivelmente mais lento do que o habitual. Foram poucos minutos de espera até o bis, anunciado pelo discurso de Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhado por imagens de arquivo. A introdução abriu caminho para “Aces High”, com um Eddie piloto no telão, em uma sequência de manobras, piruetas e disparos sincronizados com a música. Ao final, Bruce ainda soltou um sonoro “fuck the Nazis” — ou, em bom português, um recado nada amigável aos nazistas.

A épica “Fear of the Dark”, uma das favoritas do público brasileiro, transformou o estádio em um mar de lanternas de celulares, enquanto Bruce voltou a explorar seu lado teatral. Para encerrar, “Wasted Years” trouxe a nostalgia de volta, com um visual que remetia à última turnê e uma mensagem que parecia especialmente adequada à ocasião: o tempo passa, mas certas músicas continuam acompanhando gerações.

Para quem lotou o Nubank Parque na primeira noite paulistana da turnê, a despedida veio acompanhada da expectativa de mais um reencontro. Após mais de duas horas de show, Bruce Dickinson deixou no ar a promessa de retorno, alimentando a esperança dos fãs de que a história do Iron Maiden com o Brasil ainda esteja longe de terminar. Afinal, aos 50 anos, a Donzela de Ferro segue provando que sua jornada está longe de chegar ao último capítulo.

Setlist — Iron Maiden

  1. The Ides of March (Intro) + Murders in the Rue Morgue
  2. Wrathchild
  3. Killers
  4. Phantom of the Opera
  5. The Number of the Beast
  6. Infinite Dreams
  7. Powerslave
  8. 2 Minutes to Midnight
  9. Rime of the Ancient Mariner
  10. Run to the Hills
  11. Seventh Son of a Seventh Son
  12. The Trooper
  13. Hallowed Be Thy Name
  14. Iron Maiden

Bis:

  1. Churchill’s Speech (Intro) + Aces High
  2. Fear of the Dark
  3. Wasted Years
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