De lenda do rock ao pop futurista: C6 Fest encerra edição histórica com domingo plural e elegante 

Último dia do festival reuniu veterano do rock, estrelas cult do pop contemporâneo e uma geração nova de artistas experimentais – tudo isso diante de um público cada vez mais fiel à proposta do C6 Fest.

Fotos por Andre Santos (@andresantos_mnp) e Ísis Trindade (@isistrindadephotos)

O último dia da edição de 2026 reforçou algo que o festival vem consolidando desde sua estreia: o C6 talvez seja hoje o único grande festival brasileiro capaz de reunir públicos completamente diferentes sem transformar isso numa guerra de fandom ou numa experiência cansativa para quem sai do conforto de casa para ver música ao vivo. Enquanto alguns estavam ali exclusivamente por Robert Plant, outros contavam os minutos para Oklou, Lykke Li ou Magdalena Bay, mas ninguém parecia disputar espaço de maneira predatória.

Havia millennials nostálgicos do indie dos anos 2010, geração Z obcecada pelo pop experimental da internet, fãs históricos de classic rock e até curiosos transitando entre tudo isso. O mais interessante é justamente como o festival consegue costurar esses universos sem parecer artificial.

Mas se no sábado o principal problema foi o excesso de graves, no domingo o defeito foi exatamente o oposto: o som absurdamente baixo da Arena Heineken, prejudicando apresentações importantes.

Magdalena Bay talvez tenha sido o caso mais gritante. Nem quem estava na grade conseguia escapar disso em alguns momentos. Os fãs chegaram a brincar nas redes que a banda tinha sido “sabotada”: além do volume baixíssimo, o duo ainda acabou escalado cedo demais para um espetáculo que claramente combinaria mais com a noite, cheio de visuais digitais, projeções e atmosferas futuristas que perderam parte do impacto sob a luz da tarde cinzenta, mas clara, de São Paulo.

Paralamas do Sucesso também sofreu bastante com isso. Até Robert Plant, embora menos afetado, ainda teve momentos em que o som parecia tímido demais para a grandiosidade do repertório.

Curiosamente, a Tenda MetLife teve exatamente o movimento oposto: os problemas técnicos do sábado pareceram resolvidos. E foi justamente na tenda que aconteceram alguns dos momentos mais fortes do domingo. 

Abaixo, confirma considerações gerais sobre os shows que conferimos de pertinho no último dia de C6 Fes 2026. 

Oklou tira introvertidos de casa e carrega genZ para a Tenda Metlife

Fritação para introvertidos? É com ela mesmo. Em sua primeira passagem pelo Brasil, a francesa Marylou Mayniel, mais conhecida como Oklou, entregou facilmente uma das melhores apresentações de toda esta edição do C6 Fest.

Minimalista sem ser fria, delicada sem perder seu impacto, Oklou subiu ao palco acompanhada por Casey MQ e Gil Gharbi em uma apresentação que transformou a Tenda MetLife numa espécie de rave melancólica e etérea. O repertório passou principalmente pelo excelente choke enough (2025), disco que consolidou ainda mais sua mistura muito particular de hyperpop, ambient e eletrônica experimental. 

Faixas de Galore (2020), trabalho fundamental daquele “pop nebuloso pandêmico”, também apareceram e foram recebidas como hinos por boa parte do público. Dentro da atmosfera contemplativa, também havia espaço para explosão. “harvest sky” virou um dos momentos mais intensos do domingo inteiro, com a tenda inteira pulando. 

Entre frases em português lidas de um caderninho e sorrisos claramente emocionados, Oklou parecia tão impactada quanto o público brasileiro ao final da apresentação. Que ela volte logo, porque tem demanda! 

Lykke Li e o pop nórdico como experiência sensorial

Se Oklou transformou a introspecção em euforia, Lykke Li apostou no mergulho total na melancolia. E faz sentido, porque essa sempre foi a estética dela.

O problema é que, do fundo da Tenda MetLife, assistir ao show virou quase um exercício de abstração. A quantidade de fumaça espessa no palco era tão exagerada que em muitos momentos simplesmente não dava para enxergar absolutamente nada. Mas, honestamente? Tudo bem, pois era parte da proposta.

Lykke construiu uma apresentação elegante, soturna e extremamente emocional, passeando por diferentes fases da carreira enquanto promovia o recém-lançado The Afterparty (2026). O repertório foi inteligente ao equilibrar momentos delicados e contemplativos com faixas mais sensuais e pop. 

“Possibility”, eternizada pela trilha de Crepúsculo, arrancou uma reação imediata do público, enquanto “I Follow Rivers” segue funcionando como um daqueles hits capazes de atravessar gerações indie sem perder força. “sex money feelings die” trouxe o lado mais sensual da cantora, enquanto “Lucky Again” ofereceu um momento mais astral, de leveza. 

Ainda teve espaço na setlist para o cover de “Sozinho”, composição de Peninha eternizada na voz de Caetano Veloso. A música já vinha aparecendo nos compromissos da artista no Brasil – inclusive cantada à capella nas ruas do Rio ao encontrar fãs -, mas ouvi-la ali, dentro daquele ambiente enevoado e melancólico, ganhou outra dimensão.

Magdalena Bay merecia mais

Poucas bandas representam tão bem esse novo pop alternativo hiperconectado quanto Magdalena Bay. Justamente por isso, foi frustrante perceber como o contexto inteiro acabou trabalhando contra a dupla. O show em si era ótimo, a execução também… Mas tudo ao redor parecia não-tão-certo.

Horário cedo demais, público ainda disperso, volume baixíssimo e apenas 60 minutos para uma apresentação que claramente poderia durar muito mais. Para quem estava realmente esperando pelo show, ficou uma sensação inevitável de experiência incompleta.

Ainda assim, Mica Tenenbaum, Matthew Lewin e banda fizeram o possível para transformar a Arena Heineken num universo próprio. O repertório focou principalmente em Imaginal Disk (2024), disco que consolidou a dupla como um dos nomes mais interessantes do indie pop contemporâneo.

“Image” abriu o show já lá em cima, enquanto “Death & Romance” entregou o momento mais forte da apresentação. No palco, Mica trocava figurinos constantemente, recriando referências visuais dos clipes da era recente: virou anjo, girassol e várias outras personagens que fazem parte desse universo único.

Futurista e nostálgico ao mesmo tempo, Magdalena Bay mistura internet, misticismo, synthpop retrô e ansiedade tecnológica de um jeito muito próprio. Mereciam um slot noturno, mais tempo e um som muito melhor.

Robert Plant prova que reinventar-se é muito rock and roll

Mesmo diante de um line-up tão plural e contemporâneo, Robert Plant ainda carregava naturalmente o peso de “grande acontecimento” do domingo. E como era de se esperar, ele não decepcionou. 

Ao lado do projeto Saving Grace e acompanhado da excelente Suzi Dian, o ex-Led Zeppelin – mas eterno Led Zeppelin – apresentou um show muito mais interessado em explorar folk, blues e música de raiz do que simplesmente revisitar glórias do hard rock setentista. 

Claro que clássicos como “Ramble On”, “Four Sticks” e “Rock and Roll” provocaram catarse coletiva, mas bonito mesmo era perceber como Plant parecia genuinamente confortável em mostrar outras facetas da própria trajetória. Aos 77 anos, segue curioso, elegante e artisticamente inquieto.

Num festival do tamanho do C6, que mesmo esgotado ainda preserva certa sensação de proximidade e organização, vê-lo nessa configuração quase intimista foi um privilégio raro.

No meio de tanta emoção, ainda teve cena inusitada: uma fã conseguiu furar a grade e subir ao palco, ajoelhando-se diante de Plant antes de ser retirada pelos seguranças. Gentil, o cantor agradeceu o carinho antes da remoção. 

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Paralamas do Sucesso com Nação Zumbi celebram a força da música brasileira

Chega a ser doloroso ver uma instituição do rock nacional e um dos pilares do manguebeat serem impactados pelo problema de som baixo que persistiu durante quase todo o domingo. O encontro dos Paralamas com a Nação Zumbi tinha tudo para ser uma uma celebração da potência rítmica brasileira, mas esse obstáculo do som drenou, significativamente, a energia que deveria emanar do palco.

Houve momentos bonitos, de arrepiar e unir gerações que cantavam os clássicos para compensar a falta de volume das caixas. No entanto, a entrada da Nação Zumbi, que deveria ser um soco no estômago em termos de peso e percussão, acabou perdendo força pela timidez técnica da PA. Uma pena, porque o legado ali presente merecia o volume no talo.

Ainda assim, C6 Fest encerrou mais uma edição com maestria, mostrando que dá pra focar em música e ainda possibilitar boas experiências com marcas, e que, acima de tudo, ecletismo numa lineup não precisa virar bagunça. 

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