Segundo dia do festival reúne nomes que atravessam gerações e estilos – da delicadeza melancólica de Lykke Li ao peso histórico de Robert Plant, passando pela psicodelia brasileira de Samuel de Saboia e o pop futurista de Magdalena Bay
Entre shows históricos, apostas contemporâneas e o recém-chegado C6 Lab ampliando o espaço para artistas da nova cena alternativa, o festival volta ao Parque Ibirapuera e reafirma seu compromisso com música boa.
No domingo, 24 de maio, a programação da Arena Heineken, Tenda MetLife e Pacubra talvez represente o melhor retrato dessa identidade. Em um mesmo dia, o público poderá assistir ao encontro explosivo entre Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi, mergulhar no indie pop melancólico de Lykke Li, dançar ao som futurista de Magdalena Bay e encerrar a noite diante de um dos maiores artistas da história do rock: Robert Plant.
Entre lendas e nomes que estão redefinindo os rumos da música alternativa atual, selecionamos seis apresentações que prometem marcar o último dia do festival.
Lykke Li
A estreia de Lykke Li no Brasil já seria suficiente para transformar esse show em um dos momentos mais aguardados do festival. Mas existe algo ainda mais interessante acontecendo agora na carreira da artista sueca: ela parece novamente confortável em habitar as próprias contradições.
No recém-lançado The Afterparty, divulgado no último dia 8, Lykke Li mergulha mais uma vez naquele território emocional que se tornou assinatura de sua discografia, mas agora com uma maturidade diferente. Sua música continua delicada, mas nunca frágil.
Para muita gente, o primeiro contato com a cantora veio ainda em 2009, quando “Possibility” apareceu na trilha sonora de Lua Nova, da saga Crepúsculo. Depois, com “I Follow Rivers” em Azul é a Cor Mais Quente. Mas reduzir Lykke Li a esses momentos seria ignorar uma artista que ajudou a moldar boa parte do indie pop melancólico dos últimos quinze anos.
Sua passagem pelo C6 Fest acontece poucos dias depois de outro show importante: a apresentação no Vivo Rio, no dia 22, ao lado do Wolf Alice, banda que também integra o line-up do festival. Com os ingressos do domingo já esgotados, o show carioca acabou virando uma alternativa valiosa para quem não quer perder uma estreia brasileira que demorou tantos anos para finalmente acontecer.
Magdalena Bay
Formado por Mica Tenenbaum e Matthew Lewin, o projeto chega ao C6 Fest embalado pelo enorme impacto de Imaginal Disk (2024), álbum que rapidamente se consolidou como um dos trabalhos mais comentados da música alternativa recente. Misturando synthpop, eletropop, glitch, referências Y2K e uma estética quase delirante dos tempos modernos hiperestimulantes, Magdalena Bay faz músicas que parecem ao mesmo tempo nostálgicas e futuristas.
Nos últimos anos, eles se transformaram em um dos nomes mais requisitados nos line-ups de festivais com curadoria mais alternativa, especialmente aqueles atentos à nova geração de artistas que transitam entre o pop experimental e a cultura digital. Ao vivo, a expectativa é de um dos shows mais enérgicos e marcantes do domingo.
Paralamas do Sucesso + Nação Zumbi
De um lado, uma das bandas mais importantes da história do rock brasileiro. Do outro, um grupo fundamental para entender os desdobramentos do manguebeat e da música brasileira contemporânea. Juntos, eles entregam uma combinação que atravessa gerações e que vai marcar a edição 2026 do C6 Fest.
É difícil imaginar alguém no público que não vá cantar pelo menos uma música desse show. Mais do que nostalgia, existe uma força muito viva em ambas as bandas. Os Paralamas seguem impressionando pela capacidade de transformar qualquer apresentação em celebração coletiva, enquanto a Nação Zumbi continua carregando um peso rítmico e performático que poucas bandas brasileiras conseguem reproduzir ao vivo.
Dentro de um festival como o C6, que costuma equilibrar descobertas e nomes consagrados, esse encontro, que não é o primeiro entre as bandas, funciona quase como ponto de convergência e provavelmente será um dos shows mais catárticos do fim de semana.
Oklou
Existe uma delicadeza muito particular no trabalho de Oklou. Com choke enough (2025), o primeiro álbum lançado sob este nome artístico, a artista Marylou Mayniel finalmente transformou anos de pesquisa sonora e construção artesanal em um trabalho coeso, íntimo e profundamente atmosférico. O disco fala sobre mudanças, relações, tensão emocional e deslocamento, sempre através de um pop eletrônico etéreo que parece suspenso no tempo.
Sua presença no C6 Fest reforça uma característica interessante da curadoria deste ano: a atenção aos artistas que estão redefinindo os limites do pop experimental contemporâneo. Oklou trabalha em uma frequência diferente da maioria dos shows de festival. Sua música cria um ambiente próprio, nebuloso e envolvente, e dentro da atmosfera já naturalmente contemplativa do Parque Ibirapuera, a apresentação tem tudo para se transformar em um daqueles momentos silenciosamente hipnotizantes que ficam na memória.
Robert Plant
Encerrar o C6 Fest com Robert Plant é simbólico não apenas pelo tamanho de sua história, mas porque poucos artistas conseguiram atravessar tantas décadas sem se tornarem reféns do próprio legado. Mesmo após o fim do Led Zeppelin, Plant nunca parou de experimentar e nunca ficou preso apenas à nostalgia.
Seu projeto mais atual, Robert Plant’s Saving Grace, talvez seja uma das provas mais bonitas disso. Ao lado de uma banda extremamente refinada, o músico mergulha em folk, blues, country e releituras que revelam um artista ainda profundamente apaixonado pela música.
Claro que existe uma dimensão histórica inevitável em assistir Robert Plant ao vivo. Afinal, estamos falando de uma das vozes mais marcantes do rock. Porém, o mais interessante é perceber como ele continua encontrando novas formas de existir artisticamente sem precisar competir com o próprio passado, inquieto e curioso, fazendo com que sua presença soe muito coerente com a proposta do C6 Fest.
Samuel de Saboia
Entre tantos nomes internacionais e artistas já consolidados, Samuel de Saboia surge como uma das presenças mais interessantes e simbólicas do domingo.
Com o lançamento recente de As Noites Estão Cada Vez Mais Claras (2025), o multiartista pernambucano aprofunda sua relação com a música como extensão natural de sua linguagem artística. Sua obra mistura, de forma orgânica, poesia, rock nordestino, psicodelia, performance e uma forte bagagem das artes plásticas.


