Entre retornos aguardados, discos fresquinhos e uma curadoria que sabe exatamente onde mirar, o sábado no Ibirapuera reafirma o C6 Fest como o festival de quem escuta música de verdade
Já em sua quarta edição, não é equivocado dizer que existe um tipo específico de público que orbita o C6 Fest. Não é exatamente sobre hype, nem sobre nostalgia pura, mas sim sobre repertório. Sobre saber o que ouvir, mas também estar disposto a descobrir.
Em 2026, essa sensação volta com força: a curadoria segue afiada, equilibrando nomes consolidados com apostas certeiras da cena alternativa global, num ambiente que privilegia a escuta atenta e uma experiência mais confortável.
Entre tantas opções, selecionamos quatro shows imperdíveis que acontecem no sábado (23) e que ajudam a traduzir bem o espírito do dia: artistas que não só fazem sentido dentro da proposta do C6 Fest, como também dizem muito sobre o momento atual da música alternativa.
Horsegirl
Ainda não temos o cronograma do dia, mas se existe um horário perfeito para o som da Horsegirl, ele provavelmente acontece ali no meio da tarde – quando o sol ainda bate suave e o festival encontra seu ritmo mais confortável. O trio de Chicago chega ao C6 Fest em um momento particularmente interessante da carreira, embalado pelo lançamento de Phonetics On and On (2025), disco que vem consolidando o nome da banda entre os mais comentados da nova geração indie.
Há algo de encantador na forma como elas constroem suas músicas: minimalistas, levemente tortas, com uma sensibilidade que flerta tanto com o lo-fi quanto com uma tradição mais clássica do indie rock dos anos 90. É um som que cresce aos poucos, quase despretensioso, até que você percebe que já está completamente dentro dele.
No contexto do sábado, a Horsegirl funciona como um ponto de equilíbrio.
Baxter Dury
Quem é cool ai, meo? Se a Horsegirl convida à contemplação, Baxter Dury chega com outra proposta: movimento. Filho de Ian Dury – figura central do punk e da new wave britânica -, Baxter construiu ao longo dos anos uma identidade própria que passa longe de qualquer sombra óbvia da herança familiar.
Seu trabalho mais recente, Albarone (2025), reforça essa persona meio blasé, meio sedutora, que transita entre o spoken word e batidas eletrônicas com uma elegância digna de C6 Fest, o festival mais chique do Brasil. É música para dançar, mas também para observar.
Dentro da dinâmica do sábado, o show de Baxter surge como uma virada de chave. Depois de momentos mais introspectivos, é ele quem puxa o público para um estado mais físico.Um respiro necessário e estiloso na programação.
The xx
Poucos retornos recentes carregam tanto peso simbólico quanto o do The xx. Desde 2017 sem se apresentar no Brasil, o trio britânico volta ao país em um momento que mistura celebração e redescoberta em sua própria dinâmica. Em 2023, Romy passou pelo C6 Fest em carreira solo, acendendo uma pequena chama de expectativa que agora se transforma em algo maior.
A recente versão deluxe do icônico xx (2009), lançada no ano passado, ajudou a reposicionar o disco dentro de um novo contexto. Mais do que um marco de uma geração (nação Tumblr), o álbum hoje soa como um registro atemporal de intimidade e silêncio.
Ao vivo, o The xx sempre operou nessa lógica do essencial: poucos elementos, muita atmosfera, uma conexão profunda com o público. Para o sábado do C6 Fest, a apresentação carrega essa aura de reencontro. Não só com a banda, mas com um certo jeito de sentir música que marcou uma época de descobertas na vida de tanta gente.
Wolf Alice
Com The Clearing (2025), o grupo britânico reafirma sua posição como um dos nomes mais relevantes do indie rock contemporâneo e traz um dos shows mais aguardados da edição 2026.
O disco expande ainda mais o alcance sonoro da banda, alternando entre momentos de fúria controlada e passagens delicadas com uma naturalidade impressionante. Ellie Rowsell, que vai te encantar no segundo em que soltar a voz, segue como uma das frontwomen mais interessantes da atualidade, conduzindo as músicas com uma intensidade de tirar o fôlego.
A presença do Wolf Alice no lineup reforça uma das principais qualidades do C6 Fest: a capacidade de dialogar com o presente sem abrir mão de consistência.
Coisa boa para ouvir o dia inteiro
Além dos destaques deste texto, o sábado, que já está com ingressos esgotados, ainda se desdobra em uma seleção que reforça o ecletismo elegante do C6 Fest. Nomes como Aline Rocha e AMAARAE ampliam o espectro sonoro com personalidade, enquanto o BaianaSystem, em parceria com Makaveli e Kadilida, injeta peso e pulsação brasileira no meio da programação.

Tem também o olhar refinado de Mabe Fratti, – que toca só as 23h, no C6 Lab – Dijon, Marten Lou e Matt Berninger, que ajudam a costurar o dia com diferentes camadas de sensibilidade e intensidade.
No fim das contas, em um cenário tão dominado pelos algorítmos, o grande diferencial aqui, e torna o C6 Fest um evento tão particular, não é só sobre os nomes, mas também sobre a forma como tudo se organiza em torno da música – a grande protagonista. Sem pressa, sem excesso, sem a sensação constante de que você está perdendo algo.
O sábado de 2026 exemplifica bem isso. Entre a delicadeza da Horsegirl, o charme torto de Baxter Dury e a carga emocional do retorno do The xx, o dia se desenha como um convite à escuta – no sentido mais amplo possível.


