Speed chega ao Brasil impulsionada por autenticidade, expansão global do hardcore e fome de conexão real

Em entrevista, os irmãos australianos Jem Siow e Aaron Siow falam sobre o crescimento da banda, o momento mundial do hardcore e a expectativa para a estreia no país como atração principal do 2º NDP Fest, domingo (15/03), em São Paulo

Por Erick Tedesco | Tedesco Mídia

A estreia da banda australiana Speed no Brasil neste 15 de março, em São Paulo (Espaço Usine, antigo Clash), como atração principal do 2º NDP Fest, marca a chegada de uma das bandas mais faladas do hardcore contemporâneo a um território historicamente receptivo à intensidade, ao senso de comunidade e à fisicalidade do gênero.

Formado em Sydney pelos irmãos Jem Siow e Aaron Siow, o grupo australiano construiu sua ascensão em um momento de expansão global do hardcore, mas atribui o próprio crescimento menos a fórmulas e mais a intenção, identidade e entrega total.

Na leitura da dupla, em entrevista exclusiva à Tedesco Mídia, o avanço do Speed está ligado, em parte, a uma mudança maior no cenário após a pandemia.

“Houve um grande boom do hardcore no mundo todo. Então, sim, existe um elemento de estar no lugar certo, na hora certa”, resume um dos irmãos. Mas, para eles, isso não explica tudo. A diferença, argumentam, está no modo como a banda nasceu e no que representa.

“Chegamos a isso mais tarde na vida, muito puros nas nossas intenções, querendo ser uma banda de hardcore que representa quem somos, a nossa identidade e o lugar de onde viemos.”

Essa combinação entre contexto favorável e discurso genuíno parece central para entender a recepção do Speed. Para Jem e Aaron, o hardcore vive hoje um momento de reafirmação justamente por se contrapor a uma cultura mais artificial. “As pessoas estão procurando autenticidade”, dizem.

“Há muitas coisas na cultura hoje que não parecem reais, ou parecem muito fabricadas. E o hardcore trabalha contra isso.” A observação ajuda a explicar por que o grupo, mesmo vindo de uma cena geograficamente distante do eixo tradicional do gênero, conseguiu repercussão internacional em tão pouco tempo.

Os irmãos também associam esse crescimento à disposição de transformar oportunidade em movimento. “Nós colocamos tudo nisso. Fizemos turnês pelo mundo basicamente porque a oportunidade estava ali”, afirmam.

“Nós amamos essa música e queremos explorar o mundo, encontrar pessoas e criar conexões através do hardcore.” É uma resposta que ajuda a dimensionar o Speed não apenas como banda em ascensão, mas como um projeto moldado pela experiência de estrada, pela circulação global e por um forte entendimento do hardcore como cultura de encontro.

Ao falar sobre o atual momento do estilo, Jem e Aaron enxergam uma mudança importante de perspectiva. Durante muito tempo, dizem, a América do Norte foi tratada como centro absoluto de validação do hardcore. Agora, isso parece ter se ampliado.

“Talvez este seja o momento mais global que o hardcore já viveu”, avaliam. “Pela primeira vez, o mundo todo está olhando para bandas de outros lugares.” Nesse mapa ampliado, a Austrália vive fase especialmente forte, mas não está sozinha: “A Ásia está maior do que nunca, a Europa está maior do que nunca, e tenho certeza de que a América do Norte também está maior do que nunca para o hardcore.”

A internet, evidentemente, tem papel decisivo nessa transformação. A dupla lembra que, anos atrás, o acesso à música dependia de lojas físicas, catálogos específicos e importações difíceis. Hoje, a lógica é outra.

“Agora eu posso entrar no YouTube e assistir a bandas do mundo inteiro quando eu quiser”, comentam. “É muito mais fácil descobrir coisas e ir fundo nelas.” Para os músicos, essa disponibilidade amplia não só o consumo, mas o envolvimento do público com a cultura hardcore em um nível mais profundo.

A lembrança da antiga cena de Sydney passa também por esse contraste. Aaron cita a Resistance Records como um ponto vital para a formação de sua geração, uma loja que concentrava discos, referências e circulação de bandas ligadas ao hardcore local e internacional. O espaço já não existe, mas o gênero cresceu ainda mais desde então.

“Isso mostra como o comportamento mudou nos últimos 20 anos”, observam. “Hoje tudo vive na internet. É triste de certa forma, mas, enquanto a cultura continuar sendo incubada de alguma maneira, ela ainda existe.”

No caso do Speed, esse salto internacional também foi favorecido por timing e exposição. A banda havia começado antes da Covid-19 e já tinha algumas apresentações relevantes registradas em vídeo.

Durante a pandemia, esse material circulou bastante, ao lado de lançamentos que mantiveram o nome do grupo em movimento. Um dos marcos lembrados pelos irmãos é “We See You”, faixa curta lançada naquele período e vista por eles como decisiva para colocá-los “no radar de muita gente”.

Outro ponto citado foi um show gratuito em Sydney, no Vic on the Park, que ajudou a consolidar a atenção em torno da banda.

Há também a percepção de que o Speed mobiliza pessoas para além do núcleo habitual do hardcore. Sem fazer disso uma tese fechada, os músicos reconhecem que a própria imagem e a identidade do grupo talvez tenham contribuído para abrir novas portas. “Talvez nós não pareçamos com o molde normal de muitas outras bandas de hardcore”, dizem. “E talvez isso permita que outras pessoas se sintam à vontade para entrar nesse universo.”

Para a primeira visita à América do Sul, o Speed quer apresentar um retrato abrangente de si mesmo no palco. Segundo a dupla, o repertório pensado para o Brasil mistura diferentes momentos do catálogo e tenta funcionar como uma vitrine completa da banda. “É a nossa primeira vez vindo para a América do Sul, então queríamos tocar um pouco de tudo”, explicam.

“Queremos mostrar um panorama completo de quem somos.” A montagem do set, dizem, parte de muita prática e de uma preocupação constante com fluxo, impacto e energia. “Estamos sempre tentando fazer o show ser a melhor experiência possível, o mais fluido possível e com a energia mais alta possível.”

Essa construção do repertório leva em conta também a maneira como muitos fãs sul-americanos conheceram o Speed: pelos vídeos ao vivo e clipes espalhados pela internet. “Estamos muito conscientes de que muita gente na América do Sul provavelmente descobriu a banda pelo YouTube”, afirmam. “Então fizemos disso uma prioridade: tocar as músicas que têm vídeo, porque provavelmente são as que as pessoas mais querem ver ao vivo.”

Apesar de admitirem conhecimento ainda limitado sobre a história do hardcore brasileiro, os irmãos tratam isso menos como lacuna e mais como convite à descoberta.

“É até um pouco constrangedor dizer isso, mas ainda somos meio ignorantes em relação à cena brasileira”, reconhecem. Em seguida, porém, deixam claro o que os atrai em turnês desse tipo: entender como o hardcore ganha forma em diferentes contextos culturais. “Uma das nossas coisas favoritas em turnê é ir para lugares novos e ver como culturas diferentes se conectam com o hardcore e como ele se manifesta em contextos diferentes. Tivemos essa experiência na Ásia, tivemos essa experiência na Europa, e agora estamos muito animados para viver isso na América do Sul.”

Enfim, o Speed desembarca disposto a observar, aprender e trocar. “Queremos encontrar todo mundo na cena e entender do que se trata o hardcore brasileiro”, dizem. Aaron lembra inclusive de um encontro no Japão com um brasileiro chamado Pedro, ligado à cena local, que já havia falado da força do hardcore no país e do desejo de ver a banda por aqui. A lembrança reforça a expectativa que cerca essa estreia.

No fim, a mensagem da dupla ao público brasileiro segue a mesma linha de entusiasmo e abertura que atravessa toda a entrevista. “Estamos super animados para conhecer todo mundo. Mal podemos esperar para experimentar o hardcore brasileiro pela primeira vez”, afirmam. “Ninguém do Speed esteve antes na América do Sul ou no Brasil, então estamos muito, muito animados para ir.”

E completam no espírito de um show que promete intensidade máxima: “Esperamos que todo mundo vá com tudo, cante junto e se divirta muito, porque nós vamos nos divertir muito também. Mal podemos esperar para experimentar a cultura de vocês e compartilhar um pouco da nossa também.”

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