Terror e a celebração do hardcore em São Paulo

Fotos por Pedro Henrique (@ph.fotos)

No último domingo (25), no aniversário da cidade de São Paulo, após quase sete anos desde sua última apresentação por aqui, junto ao Hot Water Music, em 2019, fomos presenteados com os californianos do Terror tocando no Fabrique Club. O show fez parte da turnê latino-americana realizada pela New Direction Productions, tocando os clássicos da banda e também músicas do seu último trabalho, Pain into Power, de 2022. São Paulo acabou sendo a última data da turnê, que passou por Curitiba (6), além de apresentações na Argentina, Chile, Equador, Colômbia e México.

Dognerve

Dando início ao evento, tivemos o Dognerve abrindo os shows no Fabrique Club. A banda, que conta com Bruno na voz, João na bateria, Rafael no baixo e Tom Chagas (Sangue Inocente) na guitarra, é proveniente do interior de São Paulo, na região de Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste, e tem claras influências de hardcore, que dão o tom geral do evento. Com dois EPs lançados em 2024 — Estilo de Vida e DNHC —, cantam em português, com letras diretas que tratam da violência e das injustiças do dia a dia, sustentadas por um som pesado e cadenciado.

Com a casa um pouco vazia, devido à chuva forte que acabara de cair, o Dognerve começou a tocar enquanto a galera ia chegando. Tocaram também “Estilo de Vida”, do EP de mesmo nome, com o público presente cantando junto. Para aproveitar a participação no evento, a banda chamou a galera para a frente do palco, pois iriam fazer captações de vídeo para o clipe da música “Por Nós Mesmos”, ainda não lançada. Em alto e bom som, deram sequência com “De Você, Eu Não Quero Nada” e, antes de encerrar com mais uma música, tocaram a icônica “Set It Off”, do Madball, deixando bem claras suas referências.

Com uma apresentação entrosada, o Dognerve encerrou sua participação por volta das 17h35, aquecendo os ouvidos do público e mostrando o que esperar das novas bandas do interior paulista.

Arize

A próxima banda a se apresentar foi o Arize, banda da cidade de São Paulo que conta, até o momento, com um EP — Here to Stay, lançado em 2024. Com Athos na voz, Caio (Clearview) e Breno nas guitarras, tocam o que chamam de “heavy hardcore”, cantando em inglês, com letras diretas e temáticas pesadas, abordando assuntos como racismo e depressão.

Subindo ao palco por volta das 17h50, o Arize executou seu setlist com as músicas do EP Here to Stay e, durante os intervalos entre as canções, falou sobre a importância dos shows menores na cidade de São Paulo, como o Festival Hardcore de São Paulo, que vem acontecendo nos últimos anos na capital e se tornando a base para eventos maiores, como o do Terror. A banda ainda aproveitou para anunciar que fará poucos shows em 2026, já que o foco será a gravação de mais um EP de inéditas.

Com um show curto, encerrado por volta das 18h15, o Arize foi direto e reto, mostrando o que podemos esperar dos próximos lançamentos da banda.

One True Reason

Após Dognerve e Arize terem passado pelo palco do Fabrique Club, era a hora dos veteranos do One True Reason fazerem o aquecimento final para a atração principal. Na ativa desde 2003, o One True Reason não lança um álbum cheio desde 2018; porém, de lá pra cá, lançou alguns singles e um EP, sendo “Maddog” — single de 2024 — e o EP Reality Is a Wound os mais recentes. Com letras em inglês que retratam a realidade crua que vivemos, o grupo, formado por Thiago Queiroz na voz, Alexandre Bezerra na guitarra, Guilherme Silveira no baixo e André Marsola na bateria, faz um hardcore afiado e pesado, para nenhum fã de Terror botar defeito.

Com a casa bem mais cheia, o One True Reason começou a tocar por volta das 18h40. Com o público mais animado, a resposta veio na roda e no coro de quem cantava junto. Quando tocaram “Iron Minded”, do álbum The Art of Survival, o two step comeu solto na roda. Dentre as músicas que a banda tocou, pelo menos três eram inéditas — como destacou o vocalista Thiago Queiroz no início da apresentação —, sendo “Under the Surface” uma delas, que preparou o terreno para a saideira “Bigotry”, single de 2022.

Encerrando sua apresentação por volta das 19h10, o One True Reason fez um show coeso e interagiu bastante com o público. Na ocasião, foi montado um palco menor, tanto em largura quanto em altura, à frente do principal, como uma espécie de trampolim ou pista, para a galera poder subir e se jogar no público sem atrapalhar a apresentação das bandas. Foi nesse palco menor que, em vários momentos, o vocalista Thiago desceu para cantar mais perto do público, inclusive indo para o meio da roda.

Vale ressaltar também que as composições novas estão bem interessantes, trazendo um ar um pouco mais metalizado ao som do grupo, tanto pelas linhas de guitarra do Alexandre quanto pelas variações vocais do Thiago. Portanto, fiquem de olho nos próximos lançamentos do One True Reason.

Atração principal: Terror

Com uma espera de quase sete anos desde sua última apresentação por aqui, havia uma grande expectativa por parte dos fãs do Terror em relação a esse show. O interessante dessa vinda deles para cá desta vez é que rolou algo bem especial: eles gravaram um vídeo aqui! Isso mesmo. Quem comprou o ingresso antecipado teve a oportunidade de participar do próximo clipe do Terror para a ainda inédita “Still Suffer”. A gravação aconteceu mais cedo, antes da apresentação das bandas.

Com um evento que deu sold out, todo mundo aguardava ansioso pela atração principal da noite.

Ajustes feitos, microfones e instrumentos devidamente regulados, eis que a banda, liderada pelo vocalista Scott Vogel e pelo baterista Nick Jett, além dos guitarristas Martin Stewart (ex-Donnybrook) e Jordan Posner (No Warning) e do baixista Chris Linkovich (Cruel Hand), subiu ao palco no horário previsto pela NDP, por volta das 19h40.

Tratando-se do Terror, nada mais justo do que abrir com dois sons icônicos: “One With the Underdogs” e “Spit My Rage”, ambos do álbum One With the Underdogs (2004). Não preciso nem dizer que a resposta do público foi tão furiosa e intensa quanto essas duas pedradas hardcore, né?! Galera agitando de forma ensandecida na roda e em boa parte da plateia — devo ter ido parar uns cinco metros de onde eu estava quando a banda começou a tocar.

Na sequência, veio “Stick Tight”, do álbum Keepers of the Faith (2010), para a galera poder dar uma respirada. A nervosa “Boundless Contempt”, do último álbum Pain Into Power, de 2022, foi a próxima, mostrando a boa aceitação da fase atual da banda por parte do público. A cadenciada “Return to Strength” veio em seguida, convidando todo mundo para o two step, para logo depois quebrar tudo com “Lowest of the Low”, do disco de estreia da banda.

O vocalista Scott estava sempre instigando o público ao limite, seja para cantarem juntos, tomarem o microfone de suas mãos e darem stage dives insanos do palco ou, claro, falando da importância de todos os presentes para que o evento acontecesse, reforçando a necessidade de cuidarem uns dos outros. Na sequência, foi a vez da clássica “Always the Hard Way”, um convite para todo o Fabrique Club cantar o refrão em uníssono. Seguiram com “Can’t Help but Hate” e a curtíssima “Pain Into Power”, com seus 53 segundos de duração, ambas do último trabalho da banda.

“Overcome”, do álbum One With the Underdogs, não poderia faltar no set do Terror. Clássico absoluto, foi a próxima a ser executada pelos californianos. Galera cantando junto, invadindo o palco, stage dives e moshes violentos na roda — tudo orquestrado por quem entende que superação também pode ser cantada com raiva.

Acalmando um pouco os ânimos, foi a vez de “You’re Caught”, do aclamado Keepers of the Faith, seguida de “The 25th Hour”. A dobradinha já dava sinais de que o show caminhava para o fim e serviu como um “respiro” antes de mais pedradas. Encerrando o show, o Terror não poderia deixar de tocar “Keep Your Mouth Shut”, do álbum One With the Underdogs, mostrando que o disco é adorado e respeitado tanto pela banda quanto pelos fãs.

Com um dos coros mais bonitos da noite, tocaram “Keepers of the Faith”. Clássico disparado, levou todo o Fabrique Club a cantar junto! A essa altura, o palco montado para os stage dives virou uma segunda pista, cheia de gente no calor do momento, cantando junto com Scott e invadindo até mesmo o palco principal. Isso quebrou definitivamente a barreira entre público e artista, mostrando que essa é a energia do hardcore: um caos controlado de fúria, indignação e revolta.

Essa foi a passagem do Terror pela cidade de São Paulo. Com a apresentação encerrada por volta das 20h15, ficou aquela sensação de quero mais. Poder ver o show de uma banda tão importante quanto o Terror é sempre gratificante.

Fica o agradecimento ao Bruno e a toda a equipe da New Direction Productions pela oportunidade de cobertura.

Terror setlist – Fabrique Club – 25/01/205

  1. One With the Underdogs
  2. Spit My Rage
  3. Stick Tight
  4. Boundless Contempt
  5. Return to Strength
  6. Lowest of the Low
  7. Always the Hard Way
  8. Can’t Help but Hate
  9. Pain Into Power
  10. Overcome
  11. You’re Caught
  12. The 25th Hour
  13. Keep Your Mouth Shut
  14. Keepers of the Faith
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About André Fagundes

Designer de formação e músico por paixão e teimosia, cresci indo na Galeria do Rock atrás de zines para ler, além de flyers de shows e namorar as guitarras das lojas da Santa Ifigênia no Centro de São Paulo.

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