O MUDA, festival que reúne Música, Direitos Humanos e Artes, apresentou o primeiro bloco de artistas confirmados para o encontro marcado no próximo dia 7 de março, no histórico Estádio Nacional, em Santiago, no Chile. Em um momento de forte sensibilidade política e simbólica no país andino, o MUDA se afirma como um gesto cultural coletivo que articula criação artística, lembrança histórica e debate público.
Ana Tijoux, Javiera Mena, Inti-Illimani, Alain Johannes (Chile–EUA), Piero (Argentina), Los Tetas, Electrodomésticos, Bixiga 70 (Brasil), Mauricio Redolés, MC Millaray, Camila Moreno, Metalengua, Banda de la Memoria e Tomo Como Rey são os primeiros nomes anunciados de uma longa lista de convidados que se reunirão para celebrar a vida e honrar a memória.
Os ingressos já estão disponíveis em festivalmuda.cl.
MUDA, o Festival da Memória, inicia assim sua contagem regressiva para um evento sem precedentes: uma oportunidade rara de reunir, em um mesmo palco, artistas de diferentes gerações, trajetórias e linguagens, conectados pelo compromisso com a cultura como espaço de reflexão e permanência histórica.
Realizado no Estádio Nacional de Santiago, espaço que, após o golpe de 1973, foi convertido em centro de prisão e tortura durante a ditadura militar, o MUDA carrega um peso histórico incontornável.
Foi ali, em setembro de 1973, no início da ditadura de Augusto Pinochet, que milhares de opositores foram detidos e onde o cantor e compositor Víctor Jara foi assassinado, transformando o estádio em um dos principais símbolos da violência de Estado no Chile após a deposição e morte do então presidente Salvador Allende no fatídico ataque à La Modena (casa do Governo do Chile), em 11 de setembro de 1973.
Mais de cinco décadas depois, o festival propõe ocupar esse mesmo espaço a partir da música, da arte e da memória, em um momento particularmente sensível da história chilena: a poucos dias da posse de José Antonio Kast, presidente eleito identificado com a extrema-direita. Sem recorrer ao confronto direto ou qualquer menção de embate ao próximo mandatário, o MUDA afirma a cultura como exercício ativo de lembrança, reafirmando o papel da música na disputa simbólica sobre o passado e o futuro democrático do país.
“Buscamos um cartaz diverso, que reúna diferentes estilos e gerações. Por um lado, estão figuras clássicas como Inti-Illimani e Piero; por outro, artistas contemporâneas como Ana Tijoux e Javiera Mena. Além disso, a programação inclui Los Tetas, Camila Moreno e MC Millaray, junto a criadores essenciais como Mauricio Redolés, Electrodomésticos e Metalengua, entre outros”, afirma Marcelo Acevedo, presidente da Corporación Estadio Nacional Memoria Nacional, responsável pela organização do evento, que conta com o patrocínio da Anistia Internacional.
Essa diversidade se amplia com a presença da Banda de la Memoria, projeto coletivo dedicado à releitura e à atualização da canção de conteúdo social, político e memorial, formado por Cuti Aste, Edita Rojas, Jorge Campos, Ismael Oddó, Pedro Villagra, além de convidados especiais. A programação se completa com a energia festiva do Tomo Como Rey, os ritmos afro-brasileiros do Bixiga 70 e a participação do músico e produtor Alain Johannes, reunindo artistas de diferentes países e gerações em um mesmo espaço de diálogo artístico.
O conjunto de artistas confirma o MUDA como um cruzamento singular de gêneros, histórias e compromissos, propondo uma jornada cultural irrepetível em um dos mais importantes sítios de memória do Chile. Mais do que um festival, o MUDA se apresenta como uma forma de habitar o passado por meio da criação, da escuta e da emoção compartilhada.

Vêm mais surpresas
Este anúncio é apenas o primeiro de três. Nas próximas semanas, novos nomes serão incorporados ao line-up, ampliando ainda mais a diversidade artística do festival.
Os ingressos já estão à venda em www.festivalmuda.cl, com valores aproximadamente entre R$ 90,00 e R$ 240,00 (+ taxas de serviço).
MUDA, um festival com propósito
Os recursos arrecadados serão destinados ao financiamento do trabalho permanente da Corporación Estadio Nacional Memoria Nacional e de diversos Sítios de Memória ao longo do país, contribuindo para a preservação, ativação cultural e projeção desses espaços para as futuras gerações.
Mais informações em www.festivalmuda.cl.

Foto: Javiera Mena, Piero, Tomo como Rey, Mauricio Redolés, Inti-Illimani, Alain Johannes y Ana Tijoux
Os primeiros artistas do MUDA
Ana Tijoux
Uma das vozes mais relevantes da música latino-americana contemporânea, Ana Tijoux transita entre o hip hop, o rap político e a música urbana com forte conteúdo social. Ex-integrante do grupo Makiza, construiu carreira solo marcada por letras feministas, antirracistas e anti-imperialistas, dialogando com temas como desigualdade, migração e memória histórica. Álbuns como 1977 e Vengo a consolidaram como referência internacional da música de resistência no Chile pós-ditadura.
Javiera Mena
Ícone do pop alternativo chileno, Javiera Mena combina synthpop, eletrônica e indie pop com uma abordagem política menos explícita, porém profundamente ligada a pautas de gênero, diversidade e liberdade individual. Sua obra se tornou símbolo da afirmação LGBTQIA+ na música latino-americana, fazendo do pop uma ferramenta de disputa cultural e resistência simbólica. Discos como Esquemas Juveniles e Otra Era marcaram gerações.
Inti-Illimani
Grupo fundamental da Nueva Canción Chilena, o Inti-Illimani é um dos maiores símbolos musicais da resistência ao golpe de 1973 e à ditadura de Augusto Pinochet. Exilados por anos após a deposição de Salvador Allende, tornaram-se embaixadores culturais da luta democrática chilena, unindo música folclórica andina, canção política e compromisso histórico. Sua obra é inseparável da memória do Chile contemporâneo.
Alain Johannes (Chile–EUA)
Músico, compositor e produtor de trajetória internacional, Alain Johannes transita entre o rock alternativo, o experimental e a psicodelia. Conhecido por trabalhos com Queens of the Stone Age, PJ Harvey e Chris Cornell, mantém forte ligação com o Chile e com a música como espaço de identidade e reflexão. Sua presença no MUDA conecta gerações e geografias, ampliando o diálogo entre criação artística e contexto político.
Piero (Argentina)
Cantautor argentino associado à canção de protesto latino-americana, Piero construiu carreira marcada por críticas à repressão, ao autoritarismo e às desigualdades sociais. Exilado durante a ditadura argentina, sua obra dialoga diretamente com a tradição de artistas perseguidos por regimes militares no Cone Sul, estabelecendo pontes históricas entre Argentina e Chile no campo da música engajada.
Los Tetas
Referência do funk rock e do hip hop chileno dos anos 1990, Los Tetas combinam groove, rap e atitude urbana em letras que abordam identidade, juventude e crítica social. Surgidos no contexto da transição democrática, ajudaram a redefinir a música popular chilena, trazendo influências globais para um discurso conectado às transformações culturais do país.
Electrodomésticos
Banda cult do rock chileno, os Electrodomésticos surgiram nos anos finais da ditadura com uma sonoridade experimental, minimalista e provocadora. Suas letras e performances tensionavam os limites da censura, fazendo do rock um espaço de resistência estética e política. São considerados um dos projetos mais importantes da música alternativa chilena.
Bixiga 70 (Brasil)
Grupo instrumental brasileiro que mistura afrobeat, jazz, música africana e ritmos afro-brasileiros. Embora sem letras, o Bixiga 70 constrói uma música fortemente política por meio da celebração da ancestralidade negra, da coletividade e da ocupação do espaço público. Sua presença no MUDA amplia o diálogo latino-americano sobre resistência cultural e identidade.
Mauricio Redolés
Poeta, músico e performer, Mauricio Redolés foi preso e exilado após o golpe de 1973. Sua obra mistura spoken word, canção popular e humor ácido para narrar experiências de repressão, exílio e sobrevivência. É uma figura central da cultura chilena da memória, usando a música como ferramenta direta de testemunho histórico.
MC Millaray
Jovem rapper mapuche, MC Millaray representa uma nova geração de artistas indígenas que utilizam o hip hop como linguagem política. Suas letras abordam identidade, território, violência do Estado e resistência ancestral, conectando lutas históricas dos povos originários às formas contemporâneas de expressão urbana.
Camila Moreno
Cantautora que transita entre o folk, o rock alternativo e a música experimental, Camila Moreno construiu uma obra marcada pela crítica social, pelo questionamento de estruturas de poder e pela reflexão sobre gênero e corpo. Sua música dialoga diretamente com os debates políticos do Chile contemporâneo, especialmente no pós-estallido social.
Metalengua
Projeto que mistura rap, música popular chilena e experimentação sonora, o Metalengua trabalha a palavra como ferramenta central. Suas composições exploram crítica social, identidade e memória coletiva, posicionando-se na tradição da música falada e politicamente consciente do Chile.
Banda de la Memoria
Projeto coletivo criado para reinterpretar e atualizar canções ligadas à memória política chilena, a Banda de la Memoria reúne músicos de diferentes gerações em torno de um repertório que aborda direitos humanos, repressão e resistência cultural. Funciona como elo vivo entre passado e presente, reafirmando a música como arquivo histórico.
Tomo Como Rey
Banda conhecida por sua fusão de ska, cumbia e música latina festiva, o Tomo Como Rey combina celebração popular com crítica social. Sua música transforma o baile em espaço político, reforçando a ideia de que festa, corpo e coletividade também são formas de resistência cultural.

Foto: Camila Moreno, Los Tetas, Bixiga 70, Electrodomésticos, Banda de la Memoria, Mc Millaray y Metalengua

