Mayhem celebra 40 anos transformando São Paulo em um ritual de memória, caos e história

Show único no Brasil revisitou todas as fases da banda em uma noite marcada por peso, memória e simbolismo

Fotos por Fernanda Pistoresi Arantes (@nanda__arantes)

O retorno do Mayhem a São Paulo, no domingo (7), na Vip Station, foi mais do que a passagem de uma turnê comemorativa: foi um encontro direto com a própria história do black metal. Em sua única apresentação no Brasil em 2025, a banda norueguesa celebrou quatro décadas de carreira com um espetáculo que funcionou como uma linha do tempo viva, costurada por música, imagens e simbolismos que atravessaram gerações.

Mesmo com o atraso de cerca de uma hora para o início do show, a expectativa do público só aumentava. Do lado de fora, a movimentação intensa deixava claro que a noite seria especial. Dentro da casa, antes mesmo da banda surgir, o telão assumiu papel central ao exibir uma retrospectiva visual dos 40 anos do Mayhem: fotos de arquivo, registros de shows antigos, capas de discos e referências a momentos decisivos, incluindo figuras fundamentais e controversas da trajetória do grupo. O clima era de apreensão e reverência.

A apresentação foi estruturada de forma inversa à cronologia tradicional. O Mayhem começou pelo presente e seguiu, pouco a pouco, em direção às suas origens. A abertura com “Malum”, do álbum Daemon (2019), trouxe uma atmosfera fria, quase cerimonial, que rapidamente se transformou em agressividade controlada. A sequência com “Bad Blood” manteve o ritmo elevado, com riffs densos e uma execução precisa, evidenciando uma banda madura e plenamente confortável com sua fase atual.

As faixas de Esoteric Warfare, “MILAB” e “Psywar”, aprofundaram o caráter mais experimental do repertório. Sustentadas pela bateria implacável de Hellhammer e pelos riffs angulares de Teloch e Ghul, essas músicas criaram um clima tenso e claustrofóbico, ainda que parte do público demonstrasse uma recepção mais contida. “Illuminate Eliminate”, de Ordo ad Chao, reforçou esse lado mais denso e introspectivo do Mayhem, com um refrão brutal que contrastava com sua introdução arrastada.

A resposta da plateia cresceu visivelmente com a entrada das faixas de Chimera. A música-título provocou reação imediata, com moshs se formando e a casa vibrando em uníssono. “My Death” manteve o peso, apostando em riffs cadenciados e uma atmosfera sombria que funcionou bem ao vivo. Nesse momento, a interação entre banda e público já era total.

Um dos grandes destaques da noite veio com o bloco dedicado ao Grand Declaration of War. “Crystallized Pain in Deconstruction” soou especialmente brutal, com bateria e guitarras afiadas, enquanto Attila Csihar surgiu com figurino militarizado, reforçando o conceito belicoso da fase. Em “View From Nihil”, o ritmo quase marcial da introdução deu lugar a explosões sonoras que abriram uma das maiores rodas da noite, evidenciando o impacto físico da apresentação.

O EP Wolf’s Lair Abyss também teve presença marcante. “Ancient Skin” foi uma das execuções mais agressivas do set, recebida com intensidade pelo público, seguida por “Symbols of Bloodswords”, carregada de ódio e energia crua. A essa altura, o show já havia se transformado em uma troca constante de energia entre palco e plateia.

A atmosfera mudou completamente com a chegada do material de De Mysteriis Dom Sathanas. “Freezing Moon” foi recebida em coro, criando um dos momentos mais emblemáticos da noite. Em “Life Eternal”, o telão exibiu imagens e trechos vocais de Dead, provocando uma reação emocional perceptível entre os presentes. O silêncio respeitoso e a atenção absoluta mostraram o peso simbólico daquele instante.

De Mysteriis Dom Sathanas” e “Funeral Fog” fecharam essa parte do show com uma aura ritualística, reforçada pelos figurinos escuros e pela postura quase litúrgica dos músicos. Após uma breve saída do palco, as luzes se acenderam e a dúvida sobre um possível encerramento pairou no ar.

O retorno marcou o ápice histórico da apresentação. Necrobutcher apresentou os convidados especiais Manheim e Messiah, reunindo no palco nomes fundamentais da formação inicial da banda. A execução integral do EP Deathcrush trouxe de volta a sonoridade primitiva e violenta que ajudou a moldar o black metal. A química entre antigos e atuais integrantes funcionou de forma surpreendentemente coesa, arrancando aplausos e gritos do público.

O encerramento com “Pure Fucking Armageddon”, com vocais divididos entre Attila e Messiah, selou uma noite que transitou entre memória, brutalidade e celebração. Ao final, os músicos se despediram visivelmente satisfeitos, conscientes de terem protagonizado um momento especial em terras brasileiras.

Mais do que um show comemorativo, o Mayhem entregou em São Paulo uma experiência imersiva, que reafirmou sua relevância artística e seu papel central na história do metal extremo. Uma noite em que passado e presente coexistiram no mesmo palco, intensa, caótica e, acima de tudo, histórica.

MAYHEM SETLIST – VIP Station – 07/12/2025


1 – Malum
2 – Bad Blood
3 – MILAB
4 – Psywar
5 – Illuminate Eliminate
6 – Chimera
7 – My Death
8 – Crystallized Pain in Deconstruction
9 – View From Nihil
10 – Ancient Skin
11 – Symbols of Bloodswords
12 – Freezing Moon
13 – Life Eternal (participação póstuma dos vocais de Dead)
14 – De Mysteriis Dom Sathanas
15 – Funeral Fog
16– Silvester Anfang
17 – Deathcrush (Messiah nos vocais e Manheim na bateria)
18 – Necrolust (com Messiah e Manheim)
19– Pure Fucking Armageddon (com Messiah e Attila nos vocais e
Manheim na bateria)
20 – Wired (Manheim)

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