Fotos por Gustavo Palma – @guspalma
Em sua primeira apresentação no Brasil, os britânicos do A Flock of Seagulls transformaram o Cine Joia em uma pista de dança nostálgica, celebrando o legado do synth-pop e da new wave com clássicos que permanecem vivos na memória de diferentes gerações.
Em um mundo no qual estamos conectados a todo momento, os shows ao vivo proporcionam experiências que nenhuma rede social é capaz de reproduzir. É difícil mensurar o quanto foi especial presenciar uma apresentação inédita do A Flock of Seagulls no Brasil, sentindo de perto a energia dos amplificadores, da bateria e dos teclados que ajudaram a definir a identidade sonora da banda.
O quarteto britânico realizou seu primeiro show em território brasileiro em São Paulo. Mesmo em plena terça-feira, com a apresentação prevista para começar às 22h, o Cine Joia recebeu um público expressivo, formado principalmente por fãs veteranos do synth-pop e da new wave dos anos 1980. Uma hora antes do início, a discotecagem retrô já esquentava a pista enquanto os espectadores chegavam aos poucos. A diversidade visual também chamava a atenção: havia quem resgatasse os mullets e os blazers característicos da estética de Miami Vice, enquanto outros vestiam camisetas de bandas que iam de Duran Duran a Bathory. Uma combinação que traduzia bem a pluralidade de referências musicais presentes naquela noite.
UMA VIAGEM NO TEMPO RUMO AOS ANOS 80
Às 22h, pontualmente, a banda subiu ao palco sob aplausos e gritos calorosos. Mike Score deu início à apresentação com as primeiras notas de teclado de “Modern Love Is Automatic”, estabelecendo imediatamente a atmosfera que acompanharia o restante da noite. Entre uma música e outra, o vocalista interagiu com o público e aproveitou para brincar com o baixista, que enfrentava dificuldades para ligar seus equipamentos: “Certamente ele não sabe o que está fazendo”, comentou, arrancando risadas da plateia.
Na sequência, vieram “Hearts on Fire” e “Rainfall”, faixas do álbum The Light at the End of the World (2024). Apesar de mais recentes, ambas carregam o DNA dançante dos anos 1980, demonstrando como a banda ainda preserva os elementos fundamentais de sua sonoridade.
Mesmo nas composições de atmosfera mais romântica, como “Nightmares” e “The More You Live, the More You Love”, o grupo apresentou versões ao vivo envolventes e bem executadas. O baterista Kevin Rankin merece destaque pela maneira como adicionou uma sonoridade orgânica às bases rítmicas sintetizadas, característica marcante do synth-pop. Já “Transfer Affection” sintetizou perfeitamente a assinatura sonora do A Flock of Seagulls: uma guitarra delicada conduzindo uma narrativa amorosa, acompanhada pelos vocais melódicos de Mike Score.
Na sequência, “Him”, “Lovers and Strangers” e “Some Dreams” exibiram a capacidade do quarteto de produzir composições que dão continuidade à sua própria história, preservando a nostalgia sem abrir mão de uma identidade criativa.
A CHAMA DO NEW WAVE CONTINUA VIVA
Em “Man Made”, Mike Score deixou os teclados de lado e assumiu a guitarra, conduzindo a apresentação por uma passagem etérea, com acordes que evocavam uma trilha sonora cósmica. O baixo de Pando funcionava como elemento de ligação entre as diferentes camadas instrumentais, sustentando as linhas da guitarra do canadense Gord Deppe.
Logo depois, “Telecommunication” trouxe novamente a energia dançante à tona. A pista ganhou movimento, enquanto os fãs demonstravam conhecer cada verso, transformando a apresentação em uma celebração coletiva. A sensação de conexão entre banda e público cresceu ainda mais com “Space Age Love Song”, acompanhada em coro pelos presentes, e atingiu outro momento marcante com “Wishing (If I Had a Photograph of You)” .
Entretanto, foi com “I Ran (So Far Away)” que o show alcançou seu clímax definitivo. É difícil traduzir em palavras a emoção de ouvir ao vivo uma composição que atravessou gerações sem perder sua força. Do inconfundível riff de guitarra carregado de delay ao solo icônico, cada elemento da música parecia despertar lembranças e sentimentos acumulados ao longo de décadas.
Para muitos dos presentes, aquele era um momento aguardado desde os primeiros anos de contato com a banda; para outros, a oportunidade de finalmente testemunhar ao vivo um dos grandes clássicos da new wave. A reação do público, com vozes cantando em uníssono e lágrimas nos rostos de alguns fãs, evidenciou o significado daquela apresentação para quem acompanhava o grupo desde o início.
O bis ficou por conta de “Messages”. Embora a faixa não carregue necessariamente a atmosfera grandiosa de um encerramento tradicional, sua execução colocou o ponto final em uma noite que certamente figurava entre os eventos mais aguardados do ano para boa parte do público presente.
Mais do que revisitar um repertório consagrado, o A Flock of Seagulls proporcionou uma experiência que ultrapassou a simples nostalgia: a possibilidade de compartilhar, no mesmo espaço, memórias individuais e coletivas construídas ao longo de décadas. Para alguns, foi a realização de um desejo antigo; para outros, talvez uma oportunidade única de ver a banda ao vivo.
Independentemente da trajetória de cada espectador, a estreia brasileira do quarteto no Brasil deixou a sensação de que determinadas experiências só fazem sentido quando vividas presencialmente — com o som, a vibração dos
instrumentos e a emoção de uma plateia reunida em torno de canções que continuam atravessando gerações.
A FLOCK OF SEAGULLS: LATIN AMERICA TOUR 2026 SETLIST
- Hearts on Fire
- Rainfall
- Nightmares
- Him
- The More You Live, the More You Love
- Transfer Affection
- Say You Love Me
- Lovers and Strangers
- Some Dreams
- Man Made
- Telecommunication
- Space Age Love Song
- Modern Love Is Automatic
- Wishing (If I Had a Photograph of You)
- I Ran
Bis:
16. Messages



























































































