Preparando uma nova fase da banda, o quarteto nativo de Denver finalizou sua turnê latino-americana em terras tupiniquins
Fotos e Texto por Daniel Agapito (@dhpito)
No começo desta semana, dia mundial do rock (que só é celebrado no Brasil, mas independente), São Paulo experienciou a verdadeira guerra de quinta geração, a cidade toda se preparou para o ataque e foi levada ao ponto de não retorno pelo Havok, um dos grandes nomes da nova geração do thrash metal. Retornando à nação verde-amarela dois anos após sua última apresentação por aqui, ao lado do lendário Discharge como sempre, fizeram um show simples e rápido, entregando riffs, rodas e muita crítica social, mantendo a verdadeira essência combativa do estilo, sem rabo preso, sem medo de alfinetar.
Com mais de 20 anos de estrada, o grupo têm se consolidado bastante na cena do metal, especialmente lá fora, o que torna uma pena o show em São Paulo ter sido relativamente vazio. Com isso, vale elencar alguns possíveis motivos para essa ausência de fãs (muitos dos quais fogem do controle da produção, e especialmente da banda). Primeiramente, apesar do dia 13 de julho ter sido o Dia Mundial do Rock, infelizmente, o metal ainda não livra o trabalhador do seu expediente no dia seguinte, e shows em dias de semana geralmente já não contam com lotações invejáveis. Além disso, o Manifesto Bar, localizado no Itaim, apesar de ter uma estrutura de qualidade inegável, é bastante fora de mão para muitos, especialmente pela ausência de transporte público por perto.
Também, seria importante considerar o horário e o valor dos ingressos. Com o início da banda inicialmente previsto para às 22h (posteriormente antecipado para às 21h30) – o que é normal para eventos de bandas cover, que geralmente acontecem no bar, ou shows de sexta e sábado, mas foge do padrão dos shows autorais, especialmente em dia de semana – e os ingressos do primeiro lote partindo de R$ 180,00 (o show com Discharge e Midnight estava 150), estes fatos talvez expliquem a falta inesperada de fãs na casa.
Passando para o show em si, o saldo é inteiramente positivo. Pouco depois das 21h30, as luzes da casa se apagaram e o logotipo da banda foi estampado no telão, e desde aquele momento, os gritos de “Havok, Havok, Havok” já se tornavam ensurdecedores. À medida que foram subindo os integrantes, primeiro Pete Webber na bateria, depois Kaden Hunsaker e Brett Vaughn no baixo e guitarra respectivamente, e por fim, David Sanchez, que apareceu já com o riff inicial de “Point of No Return” rolando, a animação só crescia. Mesmo com a galera estando um tanto quieta antes do show começar, não demorou muito para a primeira roda da noite aparecer, um vórtice humano abrindo antes mesmo da letra da primeira música começar.
Contando com 5 álbuns e 3 EPs em sua discografia, o repertório da noite foi praticamente um “Greatest Hits”, enfileirando petardo atrás de petardo, como foi o caso de “Fear Campaign”, destaque de V, seu último álbum, que veio após um rápido “boa noite”. Dedicada aos políticos corruptos do mundo inteiro, “Hang ‘Em High” veio como um corte rápido, tanto com sua letra sem rabo preso, quanto com seus riffs rápidos e impiedosos, um thrash metal que não abala ninguém com sua técnica, mas entrega exatamente o que se propõe a entregar.
Na sequência, trouxeram um bloco breve de Time Is Up, seu ótimo primeiro disco, tocando “D.O.A.”, “Covering Fire” e “Prepare for Attack”, mostrando exatamente porque chegaram no nível onde estão hoje, uma das bandas que melhor carrega o legado de um dos estilos mais importantes do metal. Entre as duas últimas citadas, ainda tivemos direito a “Fifth Generation Warfare”, o mais novo lançamento da banda, que antecipa mais músicas novas, que ainda serão lançadas esse ano. De certa forma, esta nova fase ainda remete muito à essência da banda, mas ao mesmo tempo, mostra uma evolução clara, uma banda que pode ter “encontrado a fórmula” de seu som, mas não se contenta em permanecer na mesmice, sempre buscando evoluir e trazer novas ideias à tona.
Por incrível que pareça, àquela altura, a performance já havia passado de sua metade, com o Havok estando no palco há mais ou menos meia hora. Independente, fizeram de tudo para manter a energia lá em cima, e o público refletiu o mesmo pique. Haviam alguns fãs que pareciam estar meio perdidos no meio do caos, claramente mais alinhados com a proposta geral do Manifesto, que majoritariamente traz covers de bandas clássicas do rock, mas que não conseguiram não serem levados pela festa da banda.
Passada “Phantom Force”, mais uma de V, a introdução infelizmente atemporal de “Intention to Deceive”, que replica a introdução de um noticiário, anunciando “pautas triviais para te distrair do que realmente está acontecendo pelo mundo” tirou boa parte dos pés do chão e tornou a roda (que havia ficado um pouco mais singela) em um verdadeiro liquidificador de metaleiro. As últimas duas faixas, para fechar com chave de ouro, não poderiam ter sido escolhas melhores, a rápida e direta “Give Me Liberty or Give Me Death” e a simples, mas eficaz “From Cradle to the Grave”, uma das joias da coroa do EP Point of No Return.
A simplicidade, inclusive, foi algo que definiu boa parte do show – e não de maneira que tirasse de sua qualidade. Fizeram aquela famosa apresentação “sem frescura”, onde você enxerga que é uma banda maior, mais consolidada, mas que ainda leva consigo o espírito do underground. Subiram no palco sem muito alarde, apenas uma faixa introdutória rápida, tocaram suas 11 músicas, sem muito respiro ou falatório (apenas algumas críticas bem servidas e relacionadas às músicas) entre elas, e foram embora, tendo tocado menos de uma hora. Para muitos fãs, a duração não foi o bastante – e visto as circunstâncias do show, data, preço do ingresso e afins, não seria uma afirmação inesperada – porém, sua atitude no palco condiz exatamente com suas letras e seu som, sem nenhuma invenção de moda.
Mesmo com muitos fatores indo contra o sucesso desse show e uma presença abaixo do esperado e mais uma vez, mostrou que o thrash está mais vivo do que nunca, como pontuou nosso redator Guilmer em sua cobertura do show ao lado do Discharge. Quem viu dessa vez, viu. Agora, resta esperar que eles voltem promovendo as novas músicas que estão por vir (de preferência, em uma data um pouco mais convencional).












































