Memphis May Fire: a trajetória de uma das forças do metalcore moderno

Do underground do Texas aos grandes palcos internacionais, banda construiu uma carreira marcada por mudanças de formação, amadurecimento musical e letras que transformam conflitos pessoais em combustível para seguir em frente

Em meio à explosão do metalcore norte-americano durante os anos 2000, o Memphis May Fire encontrou uma maneira própria de combinar peso, melodias marcantes e letras confessionais. Formada em 2006, em Denton, no Texas, a banda atravessou diferentes fases do gênero sem perder sua identidade — e se tornou uma das formações mais reconhecidas da cena que aproximou o hardcore, o post-hardcore e o metal de uma nova geração.

A história começou com Chase Ryan nos vocais, Kellen McGregor nas guitarras e vocais, Ryan Bentley na guitarra, Austin Radford no baixo e Jeremy Grisham na bateria. O grupo lançou seu EP de estreia, Memphis May Fire, em 2007, inicialmente de forma independente e posteriormente pela Trustkill Records. Desde os primeiros trabalhos, a proposta já combinava agressividade e elementos melódicos, características que se tornariam fundamentais para a identidade da banda.

A chegada de Matty Mullins

Um dos momentos mais importantes da trajetória aconteceu em 2009, quando Chase Ryan deixou a banda e Matty Mullins assumiu os vocais. A mudança não representou apenas uma troca de integrantes: marcou o início da formação que ajudaria a colocar o Memphis May Fire em outro patamar.

Ainda naquele ano, o grupo lançou Sleepwalking, primeiro álbum completo com Mullins. O disco apresentou uma banda mais madura e ajudou a estabelecer a combinação entre vocais agressivos, refrãos melódicos e uma abordagem emocional que se tornaria uma de suas principais marcas. A faixa “Ghost in the Mirror”, inclusive, chegou à trilha sonora de Jogos Mortais VI.

Em 2010, veio o EP Between the Lies. Pouco depois, a banda assinou com a Rise Records, gravadora que passaria a ter papel fundamental em sua trajetória.

The Hollow e a consolidação no metalcore

O primeiro lançamento pela Rise Records foi The Hollow, de 2011. O álbum representou um salto importante para o Memphis May Fire e levou o grupo ao topo da parada Heatseekers da Billboard nos Estados Unidos.

Com músicas como “The Sinner” e “The Unfaithful”, a banda passou a chamar ainda mais atenção dentro da cena metalcore. O som mantinha a agressividade característica do gênero, mas incorporava estruturas mais acessíveis, criando um equilíbrio entre breakdowns, riffs pesados e refrãos feitos para serem cantados pelo público.

O crescimento continuou rapidamente. Em 2012, o grupo lançou Challenger, trabalho que ampliou ainda mais sua audiência e alcançou a 16ª posição da Billboard 200. Faixas como “Vices” e “Prove Me Right” ajudaram a transformar o Memphis May Fire em uma presença constante nos grandes circuitos de turnês e festivais do rock pesado.

Unconditional: o grande salto

Se The Hollow e Challenger consolidaram a banda, Unconditional, lançado em 2014, representou seu grande salto comercial.

O quarto álbum de estúdio chegou ao quarto lugar da Billboard 200 e liderou a parada de álbuns alternativos nos Estados Unidos.

Musicalmente, o disco mostrou uma banda cada vez mais confortável em transitar entre peso e melodia. Ao mesmo tempo em que mantinha elementos fundamentais do metalcore, o Memphis May Fire apostava em refrãos mais grandiosos e composições capazes de alcançar ouvintes além do público tradicional do gênero.

Canções como “No Ordinary Love”, “Beneath the Skin” e “Sleepless Nights” ajudaram a transformar Unconditional em um dos trabalhos mais importantes da carreira do grupo.

Novas experiências e a busca por evolução

Depois do sucesso de Unconditional, a banda lançou This Light I Hold em 2016. A faixa-título contou com a participação de Jacoby Shaddix, vocalista do Papa Roach, em uma colaboração que simbolizou a crescente aproximação do grupo com nomes de diferentes gerações do rock pesado.

Dois anos depois, Broken apresentou uma abordagem ainda mais introspectiva. O álbum aprofundou o caráter confessional das letras e reforçou uma característica que acompanharia o Memphis May Fire ao longo de sua carreira: transformar conflitos internos, inseguranças e dificuldades pessoais em músicas de identificação coletiva.

Essa relação entre banda e público se tornou particularmente importante. Em vez de tratar vulnerabilidade como fraqueza, o Memphis May Fire passou a utilizá-la como parte central de sua linguagem artística.

Remade in Misery e uma nova fase

Após Broken, a banda passou por um período de transformação antes de retornar em 2022 com Remade in Misery.

O álbum representou uma retomada de elementos mais pesados do grupo, ao mesmo tempo em que incorporou recursos contemporâneos de produção. O resultado mostrou que, mesmo depois de mais de uma década de carreira, o Memphis May Fire ainda buscava maneiras de atualizar sua sonoridade sem abandonar aquilo que havia construído sua identidade.

A fase também reforçou a importância da formação composta por Matty Mullins, Kellen McGregor, Cory Elder e Jake Garland. McGregor, integrante desde a fundação, tornou-se o elo mais constante entre as diferentes encarnações da banda.

Shapeshifter e o Memphis May Fire de hoje

A história mais recente começou a ganhar forma em 2024, quando a banda iniciou uma sequência de singles que culminaria em Shapeshifter, lançado em 28 de março de 2025.

“Chaotic”, “Paralyzed”, “Necessary Evil”, “Infection”, “Hell Is Empty” e a faixa-título foram apresentados antes do álbum, criando uma campanha que revelou gradualmente sua nova fase. O disco ainda trouxe “Overdose”, com participação de Christian Lindskog, do Blindside, e “The Other Side”.

Com dez faixas e cerca de 30 minutos, Shapeshifter reafirma a disposição do grupo de trabalhar com diferentes texturas dentro do metalcore, alternando momentos de impacto imediato com passagens mais melódicas. O álbum também evidencia o papel cada vez maior de Kellen McGregor na produção e construção sonora da banda.

Mais do que simplesmente acompanhar as mudanças do metalcore, o Memphis May Fire ajudou a construir parte da linguagem que definiu o gênero durante os anos 2010. Sua trajetória é marcada por transformações, mas também por uma constante: a capacidade de transformar peso e vulnerabilidade em músicas que encontram identificação em quem está do outro lado do palco.

Quase duas décadas depois de sua formação, a banda permanece ativa e segue levando seu repertório para diferentes partes do mundo. A longevidade não veio por acaso. Ela é resultado de uma combinação entre reinvenção, consistência e uma conexão particularmente forte com o público.

No fim das contas, talvez seja justamente essa a essência do Memphis May Fire: uma banda que nunca precisou escolher entre agressividade e emoção. Desde Sleepwalking até Shapeshifter, sua trajetória mostra que as duas coisas podem coexistir, e que, quando encontram a música certa, podem transformar fragilidade em força.

Retorno o Brasil após 14 anos

O reencontro com o público brasileiro acontece 14 anos após a primeira e, até então, única passagem do Memphis May Fire pelo país. Em 2012, o grupo esteve no Brasil como atração de abertura para o Killswitch Engage, em uma época em que começava a ganhar projeção internacional com a força de The Hollow e, posteriormente, Challenger.

Desde então, muita coisa mudou na carreira do grupo. O Memphis May Fire passou por diferentes fases, lançou alguns de seus trabalhos mais importantes e consolidou uma identidade que combina peso, melodias marcantes e letras que exploram conflitos pessoais, vulnerabilidade e superação.

Agora, o retorno ao Brasil acontece também em um momento especial da carreira. A banda apresenta ao público brasileiro seu mais recente álbum, Shapeshifter, lançado em 2025. O trabalho representa mais uma etapa na evolução do grupo e deve dividir espaço no repertório com músicas de diferentes momentos de sua discografia.

A turnê brasileira também terá um segundo protagonista. Ao lado do Memphis May Fire em todas as apresentações estará o Blessthefall, nome igualmente importante para a história do metalcore e do post-hardcore norte-americano e que possui uma relação bastante próxima com os fãs brasileiros.

A banda também chega ao país após o lançamento de Gallows, álbum de 2025 que marcou uma nova fase em sua trajetória. Os shows de agosto serão, ainda, as primeiras apresentações do Blessthefall na América do Sul desde o lançamento do disco.

Com duas bandas que ajudaram a moldar o som pesado dos anos 2000 e 2010, a turnê promete funcionar não apenas como uma sequência de shows, mas como um encontro de diferentes gerações do metalcore. Para o Memphis May Fire, será principalmente a oportunidade de finalmente reencontrar uma plateia que esperou mais de uma década por sua volta.

Em São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, o público terá a chance de acompanhar ao vivo uma banda que atravessou diferentes momentos do metalcore sem abandonar sua essência. Depois de 14 anos, o Memphis May Fire está finalmente de volta ao Brasil, e chega acompanhado de outro nome fundamental da cena.

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