Fotos por Gustavo Diakov (@xchicanox)
No último sábado (28), numa noite um pouco fria e com garoa, após nove anos desde sua primeira passagem pelo Brasil, abrindo para o Dropkick Murphys no Tropical Butantã, em São Paulo, num clima londrino familiar, tivemos a primeira turnê solo do Booze & Glory por aqui.
Intitulada Latin America 2026, a tour, realizada pela New Direction Productions, passou pela Colômbia (27) e, depois de se apresentar na capital paulista, no saudoso e clássico Hangar 110, seguiu para Chile, Peru e México, tocando não só os clássicos da banda, como também músicas de seu último trabalho, Whiskey Tango Foxtrot, lançado em setembro de 2025.
Bandas de Abertura
Faca Preta
Abrindo as atividades no Hangar 110, tivemos o Faca Preta, banda paulistana formada em 2013 e que conta com um EP homônimo de 2015, o álbum Resistir, de 2022, e o EP Fogo no Sistema, lançado no ano passado.
A banda, formada por Fabiano Santos nos vocais, Anderson Boscari e Dudu Elado nas guitarras, Adriano Parussulo no baixo e Mario Rolim na bateria, canta em português com letras diretas, tratando de temas vivenciados pela classe trabalhadora sem medo de botar o dedo na ferida e assumindo uma postura de denúncia. O punk rock executado pelo Faca Preta é embalado por refrões e passagens melódicas para todo mundo cantar junto.
Houve um atraso considerável em relação à abertura da casa. Marcado inicialmente para abrir às 18h, as portas do Hangar 110 só foram abertas por volta das 19h10, o que fez com que parte do público entrasse no local já com o Faca Preta no palco.
A cativante “São Paulo”, de seu primeiro EP, tocava enquanto o público se ajeitava dentro da casa, seguida por “Donos do Futuro”, do álbum Resistir, a rueira “Caminhos das Ruas”, do EP de estreia, e a acolhedora “Coração Libertário”, do álbum de 2022.
Também tocaram a nova e atual “Fogo no Sistema”, de seu último trabalho. E, para minha surpresa, o Faca Preta tocou um cover de “We’re Coming Back”, música clássica da icônica banda britânica Cock Sparrer, contribuindo ainda mais para o clima street punk festeiro da noite.
Pegando o embalo da música anterior e partindo para os finalmentes com três sons do álbum Resistir, tocaram a festeira “Cães de Rua”, seguida pela contestadora “Dias Melhores”, com a galera embalando em coro “[…] Não vamos cantar o seu hino fascista, nunca do mesmo lado […]”, e encerrando com “Lutando de Braços Cruzados”, com a participação do filho do vocalista Fabiano Santos, que subiu ao palco e cantou ao lado do pai junto da banda.
Com seu show se encerrando por volta das 20h10, o Faca Preta deu o tom da noite, esquentando o público para as próximas atrações. Bastante gente chegou cedo para prestigiá-los; o público interagiu bem, cantando as músicas e agitando na frente do palco.
Com certeza, aquele cover do Cock Sparrer foi de caso pensado e deu um gás a mais para o final do show, que, naquela altura, já estava com a energia lá em cima! Fiquem de olho nos próximos lançamentos dessa banda paulistana.
88 Não!
A próxima banda a se apresentar foi o 88 Não! — originária do bairro Sônia Maria, no subúrbio da cidade de Mauá, no estado de São Paulo. O grupo iniciou suas atividades nos anos 2000 e, desde então, tornou-se um nome familiar na cena punk.
Contando com Lucas Dorado (voz e baixo), Nicolas Miranda (voz e guitarra), Fabio Müller (guitarra e backings) e Daniel Miranda (bateria), além do naipe de metais com Rafael Klem (trompete), Raphael Oliveira (saxofone) e Valdir Loge (trombone), a banda conta com cinco álbuns: Quanta Cerveja (2004), Amizade, Lealdade e Igualdade (2005), 3 Acordes (2018), Lado B (2020) e seu trabalho mais recente, Cinza, lançado no ano passado.
Tratando de temas do cotidiano sob um ponto de vista subversivo e contestador, com o seu “Punk Rock do Subúrbio” — como se descrevem em suas redes sociais —, o 88 Não! trouxe uma sonoridade clássica para a noite no Hangar 110.
Começando a tocar por volta das 20h28, o 88 Não! abriu sua apresentação com “Bairro Pobre” e “Agitar”, do álbum Amizade, Lealdade e Igualdade, enquanto já se notava o Hangar 110 um pouco mais cheio. Uma curiosidade: havia algumas pessoas no público uniformizadas com a camiseta do West Ham United, time de futebol inglês bastante popular no meio street punk e que, inclusive, é uma paixão do vocalista do Booze & Glory, Marek Rusek.
Seguiram com “Nossa História” e “Canto pra Morar”, do seu último álbum Cinza. Com a galera bem animada, foi a vez de tocarem “Pouco me Sobrou”, do álbum 3 Acordes, que contou com a participação de Magno Nunes, vocalista do Rosa Tigre — um dos que estavam com a camiseta do West Ham. A próxima foi “Espelho”, também do 3 Acordes, e, nesse momento, o naipe de metais subiu ao palco para acompanhar a banda e dar um ar mais ska para a noite.
“Melhores Dias”, foi a próxima a ser tocada, mantendo o ritmo ska da apresentação. Na sequência, tocaram o cover de “Rock de Subúrbio”, dos Garotos Podres, faixa que já havia sido registrada no Quanta Cerveja (2004). Seguiram o set com “Espadas e Serpentes” e “Anjos Clandestinos”, além da consciente “Nativos Esquecidos”, finalizando a apresentação com “Hotel Mombar” e “Beber”.
Encerrando sua apresentação por volta das 21h04, o 88 Não! fez um show cativante, interagindo bastante com o público, que respondeu com muita agitação. Com um repertório que percorreu bem a discografia da banda, o grupo entregou momentos diversificados — como quando o naipe de metais subiu ao palco — trazendo uma dinâmica interessante não só para a performance, mas também para o clima festeiro no Hangar 110. O resultado foi uma preparação perfeita para a atração principal da noite, mostrando que o 88 Não! definitivamente não estava ali por acaso.
Atração principal: Booze & Glory
Passaram-se nove anos desde sua última apresentação no Brasil, quando o Booze & Glory esteve por aqui como banda de abertura para o Dropkick Murphys. Muita coisa aconteceu de lá para cá: mudanças na formação, além do fato de que ainda não haviam lançado o álbum Chapter IV, trabalho que acabou marcando um direcionamento sonoro um pouco diferente em relação aos discos anteriores — algo que, ao mesmo tempo, trouxe novos ouvintes e afastou alguns fãs mais antigos.
Por isso, essa passagem da banda pela América Latina é significativa. Ela mostra que, mesmo diante das adversidades e transformações ao longo dos anos, o Booze & Glory se mantém relevante e com força suficiente para realizar uma turnê como atração principal — algo bem diferente da situação de sua última visita ao país.
Após os devidos ajustes técnicos no palco e com os instrumentos já regulados, por volta das 21h40 começa a tocar no Hangar 110 a trilha sonora do clássico filme de faroeste The Good, the Bad and the Ugly: “The Ecstasy of Gold”, de Ennio Morricone, deixando um público já ansioso ainda mais animado.

A banda, que hoje conta com Marek Rusek nos vocais, Łukasz Kahan e Manny Anzaldo nas guitarras, Hervé J. Laurent no baixo e Frank Pellegrino na bateria, subiu ao palco tocando o single “The Day I’m in My Grave”, presente na compilação London Skinhead Crew – Singles Collection (2013), seguida da clássica “Leave The Kids Alone”, do As Bold as Brass (2014), e “Ticking Bombs”, do Hurricane (2019).
Uma atrás da outra, as músicas vieram com força total, enquanto o público agitava em uma casa já mais cheia para ver a atração principal da noite, tirando fotos e registrando a entrada do Booze & Glory no palco.
Continuando o show, foi a vez da já bem conhecida música de abertura do álbum Chapter IV (2018): “Days, Months, Years”, uma ótima pedida para a galera cantar junto. Na sequência veio “Down and Out”, pegando o embalo da anterior com o público acompanhando em coro.

Quem conhece o Booze & Glory sabe que música para cantar junto é o que não falta. A próxima a ser tocada foi “Raising The Roof”, do EP de mesmo nome lançado em 2022, e, quando a bagunça já parecia estar instaurada, veio a pedrada “Carry On” para incendiar ainda mais a noite no Hangar 110, com todos engrossando o coro: “[…] Different reasons, different stories, different types, but look at me, I still carry on […]”.
E, sem deixar o pique do público cair, tocaram a agitada “Swinging Hammers”, do segundo álbum da banda, Trouble Free (2011).
Dando um tempo para todos os presentes respirarem um pouco, o vocalista Marek Rusek conversa com o público e avisa que iria tocar um single do álbum mais recente da banda, Whiskey Tango Foxtrot, lançado no ano passado, chamado “Brace Up”. Ele explica que precisava da ajuda da galera para cantar o refrão: “Oh, Oh, Oh, Oh, Oh, Oh, Oh, GO, GO, GO, nothing is gonna stop us”. Após um brevíssimo ensaio, a banda toca a música e, como combinado, todos cantam juntos o refrão.

O momento demonstrou uma boa aprovação do público para essa nova fase do Booze & Glory. Na sequência, tocaram “C’est La Vie”, do EP Raising The Roof.
Continuando o trabalho de divulgação de seu disco mais recente, Marek Rusek comenta sobre como os políticos mentem e que, no fim das contas, quem sempre paga o pato somos nós. Na sequência, o Booze & Glory toca os singles “Mad World” e “Boys Will Be Boys”.
“London Skinhead Crew” foi a próxima a ser tocada. A música, lançada como single e presente na compilação de mesmo nome, era de longe uma das mais esperadas da noite — e nem preciso dizer que o público foi à loucura, cantando junto, agitando e até subindo no palco.
Essa definitivamente não poderia faltar no repertório do Booze & Glory; um verdadeiro clássico da banda, arrisco dizer.
Para dar uma folga ao público, tocaram “Rocky Road”, seguido por “Blood From A Stone”, a segunda música mais tocada no Spotify.
Eu já falei brevemente sobre a relação do time inglês West Ham United com a cultura street punk, da galera uniformizada no show e da paixão de Marek Rusek pelo time, certo?
Pois então, após “supostamente” terem encerrado o show e feito aquele suspense de praxe — saindo do palco enquanto o público começava a chamá-los de volta —, a próxima música foi nada menos que “Three Points”, do álbum Hurricane, uma faixa que fala explicitamente sobre o West Ham United e a paixão pelo esporte.
Nessa hora, a galera que vestia o uniforme do time se esbaldou: subiu ao palco, deu stage dive, agitou sem parar; tinha gente exibindo cachecol e até a bandeira do West Ham por lá. O momento virou praticamente uma celebração coletiva entre o público e o Booze & Glory.
Depois da loucura que foi “Three Points”, foi a vez de “The Streets I Call My Own”, para o público recuperar um pouco o fôlego. E, fechando com chave de ouro, tocaram “Only Fools Get Caught”, do As Bold as Brass.
Assim, o Booze & Glory encerrou sua passagem por São Paulo com todos cantando juntos o refrão — “[…] some people never change, some people fade away, some people break the rules but only fools get caught […]” — em alto e bom tom no Hangar 110, naquela noite de sábado um pouco fria.
Com a promessa de um retorno em breve, o Booze & Glory encerrou seu show por volta das 23h — uma hora a mais do que havia sido divulgado pela New Direction Productions.
Certamente foi uma noite memorável para os fãs da banda, que aguardaram tanto para poder vê-los novamente. O grupo mostrou estar com uma formação coesa e bem entrosada, fazendo uma apresentação sólida e passando por diversas fases da carreira com um repertório diversificado. A resposta do público presente no Hangar 110 foi bastante positiva, principalmente durante as músicas do seu último trabalho, Whiskey Tango Foxtrot.
Fica também o agradecimento ao Bruno e a toda a equipe da New Direction Productions pela oportunidade de cobertura.
Setlist – Booze & Glory – Hangar 110 – 28/02/2026
- The Day I’m in My Grave
- Leave the Kids Alone
- Ticking Bombs
- Days, Months & Years
- Down and Out
- Raising the Roof
- Carry On
- Swingin’ Hammers
- Brace Up
- C’est la vie
- Mad World
- Boys Will Be Boys
- London Skinhead Crew
- Rocky Road
- Blood From a Stone
- Three Points
- The Streets I Call My Own
- Only Fools Get Caught














